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Características de crianças internadas com infecção pelo SARS-CoV-2

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Crianças e adolescentes representam apenas 1-2% da população total com infecção pelo SARS-CoV-2 no mundo. Inicialmente, a Covid-19 na infância foi associada, principalmente, a casos leves, assintomáticos ou oligossintomáticos.

No entanto, em maio de 2020 uma nova entidade clínica com características similares à doença de Kawasaki e à síndrome do choque tóxico foi descrita na Europa e Estados Unidos, com casos posteriormente identificados em diversos países. Esta nova síndrome foi nomeada como síndrome inflamatória multissistêmica temporalmente relacionada à Covid-19 (MIS-C), e gerou novo debate sobre a possível gravidade da Covid-19 na população mais jovem.

No estudo “Clinical characteristics of children and young people admitted to hospital with covid-19 in United Kingdom: prospective multicentre observational cohort study”, publicado em agosto no British Medical Journal (BMJ), os pesquisadores Swann e colaboradores identificaram pacientes com idade < 19 anos de idade em uma coorte prospectiva no Reino Unido de pacientes internados com infecção confirmada pelo SARS-CoV-2.

Foram identificadas as principais características clínicas e laboratoriais destes pacientes, e os fatores mais associados ao desenvolvimento de MIS-C.

imagem digital representando crianças com infecção pelo sars-cov-2

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Crianças internadas com infecção por SARS-CoV-2

Entre 17 de janeiro e 3 de julho de 2020, 651 pacientes com idade < 19 anos e diagnóstico confirmado de SARS-CoV-2 foram internados em 138 hospitais na Inglaterra, Escócia e País de Gales. A idade média foi de 4,6 anos, sendo 35% dos pacientes menores de 1 ano. Ao menos uma comorbidade foi reportada em 42% dos casos, sendo a mais comum doença neurológica (11%), seguida de hemato/onco/imunológica (8%) e asma (7%).

Em relação ao quadro clínico, febre foi o sintoma mais comum, (70%), seguida de tosse (39%), náusea/vômitos (32%) e dispneia (30%). A prevalência de febre e rinorreia diminuiu com a idade, enquanto a de vômitos, cefaleia, dor abdominal e odinofagia aumentou.

Os autores identificaram alguns fenótipos clínicos nos quais conseguiram agrupar os pacientes. Um primeiro fenótipo engloba as crianças com doença respiratória leve, que podem se apresentar com tosse, febre, dispneia, coriza, sibilância. Um segundo fenótipo engloba crianças com doença entérica e mucocutânea, que se apresentam com cefaleia, mialgia, odinofagia, vomito, diarreia, dor abdominal, exantema, linfadenopatia e/ou conjuntivite.

Já um terceiro fenótipo, mais raro, seria o das crianças com doença neurológica, que podem se apresentar com confusão mental e crises convulsivas.

Crianças internadas em Unidade de Terapia Intensiva

Apenas 18% das crianças necessitaram de admissão em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), 8% receberam inotrópicos, 9% receberam ventilação não invasiva (VNI) e 9% ventilação mecânica invasiva. Na análise multivariada, raça negra, idade menor que 1 mês e idade entre 10-14 anos se associaram a maior risco de admissão em UTI.

Na análise univariada, a presença de comorbidades, principalmente prematuridade, doenças respiratórias, doenças cardiovasculares e obesidade também se associaram a este risco. A admissão na UTI também se associou a inicio dos sintomas há mais de 5 dias, presença de diarreia, conjuntivite, alteração do nível de consciência, menor nível de plaquetas, maior contagem de neutrófilos, maior proteína C reativa, e maior incidência de infiltrados na radiografia de tórax.

Foi realizada a análise de um subgrupo dos pacientes admitidos em UTI que não preenchiam critérios para MIS-C. Em comparação aos pacientes internados em enfermaria, neste subgrupo a presença de comorbidades (exceto obesidade) manteve maior incidência, porém a presença de conjuntivite e diarreia não foi mais frequente.

Dados de seguimento foram obtidos de 627 crianças. Destas, apenas 6 (1%) evoluíram com óbito, das quais 3 eram recém nascidos com comorbidades graves (prematuridade extrema, cardiopatia congênita complexa, sepse bacteriana). As demais três tinham idade entre 15-18 anos, duas apresentavam doença neurológica prévia com comprometimento respiratório e uma era imunodeprimido por quimioterapia.

Leia mais: Covid-19: alterações imunológicas em crianças com síndrome inflamatória multissistêmica

Crianças admitidas com critérios de MIS-C

Cinquenta e dois pacientes (11%) preencheram os critério da OMS para MIS-C. Essas crianças foram em média mais velhas e tiveram maior associação com raça não branca e obesidade (mas não com outras comorbidades). Nenhuma criança com MIS-C foi admitida antes de cinco dias de sintomas.

Além dos sintomas clássicos (febre, exantema, conjuntivite, sintomas gastrointestinais), as crianças com MIS-C também apresentaram com maior frequência fadiga, cefaleia, mialgia, odinofagia e linfadenopatia. Elas tiveram cinco vezes mais risco de admissão em UTI e receberam mais corticoides, VNI e inotrópicos. Apesar disso não houve óbitos no grupo com MIS-C. Complicações cardíacas foram documentadas em 57% (disfunção no ecocardiograma, derrame pericárdico, alterações eletrocardiográficas, aneurisma coronariano, miocardite e regurgitação valvar).

A confirmação de infecção pelo SARS-CoV-2 nos pacientes com MIS-C ocorreu por RT-PCR positivo (56%) ou sorologia positiva (44%). Pacientes com RT-PCR positivo apresentaram maior incidência de dispneia e maior necessidade de suporte com oxigênio na admissão. Já pacientes com sorologia positiva receberam mais corticosteroides e imunoglobulina, e apresentaram mais complicações cardiovasculares.

Veja mais: Transmissão da Covid-19 por crianças: o que sabemos até agora?

Conclusões

O estudo reforça os achados prévios de que a infecção por SARS-COV-2 é menos grave em crianças do que em adultos. Além disso, sugere que a MIS-C possa se apresentar tanto na fase aguda (RT-PCR positivo) quanto convalescente (sorologia positiva) da infecção viral.

Os autores também identificaram uma maior associação da MIS-C com os sintomas de fadiga, cefaleia, mialgia, odinofagia, linfadenopatia e com o achado laboratorial de plaquetopenia, o que pode auxiliar na criação de novos critérios diagnósticos para esta entidade.

Autora:

Referência bibliográfica:

  • Swann Olivia V, Holden Karl A, Turtle Lance, Pollock Louisa, Fairfield Cameron J, Drake Thomas M et al. Clinical characteristics of children and young people admitted to hospital with covid-19 in United Kingdom: prospective multicentre observational cohort study BMJ 2020; 370:m3249
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