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Como evitar engasgos por alimentos em crianças?

Tempo de leitura: 5 minutos.

A aspiração de corpos estranhos (ACE) é uma causa comum de acidente na população pediátrica, principalmente em crianças desde o nascimento até os quatro anos de idade, exigindo identificação imediata e tratamento precoce para reduzir as consequências potencialmente graves e, muitas vezes, fatais. O primeiro caso registrado de ACE foi em 1897.

Contudo, atualmente estimam-se que aproximadamente 300 a 600 crianças menores de 15 anos de idade morrem todos os anos por asfixia em países desenvolvidos1,2,3,4. Nos Estados Unidos, há um registro de 2103 óbitos infantis por obstrução das vias aéreas de corpo estranho entre 1999 e 20135.

A maioria dos casos de ACE acontece em pacientes do sexo masculino e em crianças com menos de três anos, naturalmente pelas características de desenvolvimento nesta idade e da natureza mais indagadora e impulsiva2,5. Em crianças, a ACE está associada a falha no reflexo de fechamento da laringe, controle inadequado da deglutição, hábito de levar objetos à boca, vias aéreas menores, ausência de um dentição completa para auxiliar a mastigação e, por fim, maior facilidade de distração. Determinados alimentos e objetos pequenos, como brinquedos, constituem fatores predisponentes para a ACE4,5.

Alimentos são responsáveis por 40% dos engasgos fatais em crianças e 60% dos episódios não fatais. Em lactentes e crianças pequenas, o engasgo pode ocorrer com facilidade pois a via aérea ainda está em desenvolvimento, não se fechando adequadamente durante a deglutição3. Características específicas dos itens alimentares (por exemplo, forma, tamanho e textura) podem expor as crianças a um alto risco de asfixia. Alimentos pequenos e duros, como nozes e sementes, são os mais perigosos.

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No entanto, pedaços grandes de comida também podem representar risco de asfixia para as crianças por serem difíceis de mastigar. Alimentos de formato cilíndricos ou redondos (como cachorro-quente, salsicha, tomate-cereja e azeitona) também não são seguros para as crianças, pois podem deslizar mais facilmente para dentro da via aérea antes que a criança possa mastigá-los, causando obstrução completa ou parcial da via aérea1.

Alimentos que representam o maior risco de asfixia (com algumas exceções) podem ter seu tamanho, forma ou textura alterados por meio de diretrizes de preparo de alimentos para torná-los menos perigosos (por exemplo, cortando frutas e legumes em pequenos pedaços e cortando longitudinalmente alimentos cilíndricos). Entretanto vários estudos já mostraram que as famílias muitas vezes desconhecem os riscos de asfixia apresentados por muitos alimentos e, consequentemente, acabam fornecendo alimentos perigosos e inadequadamente preparados para crianças pequenas1.

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (Centers for Disease Control and Prevention), os pais ou cuidadores podem poupar a criança de sofrer engasgos e consequente ACE. Portanto, recomenda que a criança esteja sentada enquanto come (não deve comer deitada) em uma cadeira alta ou outro lugar seguro e que os pais devem evitar que a criança coma dentro do carro ou no carrinho6.

Para o Programa Especial de Nutrição Suplementar para Mulheres, Bebês e Crianças do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (United States Department of Agriculture) as seguintes medidas devem ser tomadas por pais ou cuidadores para evitar o engasgo associado a alimentos em crianças3:

  • Alimentos apropriados devem ser preparados no tamanho, formato e consistência adequados, permitindo que a criança mastigue e degluta com facilidade;
  • As crianças devem comer em pequenas porções e devem ser encorajadas a comer devagar;
  • Evitar dar alimentos para a criança logo após serem administrados medicamentos para melhorar qualquer desconforto relacionado ao nascimento dos dentes. Isso porque a boca da criança pode ficar um pouco anestesiada;
  • Certificar que a criança esteja sentada na posição correta;
  • Os pais ou cuidadores devem acompanhar a refeição da criança, não devendo deixar nenhuma criança com menos de quatro anos sozinha enquanto se alimenta. A criança com menos de quatro anos deve ser supervisionada enquanto come;
  • Manter um ambiente calmo para a refeição da criança. Isso evita que ela se distraia com músicas, televisão ou outras atividades executadas pelas pessoas no ambiente;
  • Evitar dar alimentos para a criança dentro do carro, pois o motorista pode ser o único adulto presente e pode não prestar atenção a um episódio de engasgo3.

Alimentos comumente associados a engasgos em crianças com menos de quatro anos de idade estão listados no Quadro abaixo3,6.

Frutas e vegetais Pedaços de frutas duras e cruas, como maçãs Frutas com sementes Pedaços inteiros de fruta enlatada Uvas, bagas, cerejas ou bolinhas de melão não cortadas Frutas secas não cozidas, como uvas-passas Vegetais crus (mesmo em pedaços pequenos, como cenouras cruas, mini cenouras, vagem, aipo) ou parcialmente cozidos Azeitonas / Ervilha / Grãos de milho inteiros cozidos ou crus Pedaços duros ou crus de vegetais secos
Produtos de grão Gérmen de trigo Grãos inteiros de arroz cozido, cevada, trigo ou outros Biscoitos ou barras de granola Biscoitos ou pães com sementes, pedaços de nozes ou grãos integrais Pipoca Salgadinhos de milho, batata ou similares Nozes
Proteínas Amendoim, nozes (inteiros ou picados) / Sementes Manteigas de nozes ou manteiga de amendoim ou de outra semente Pedaços de carne resistentes ou grandes Cachorro-quente, palito de carne ou salsichas, mesmo em pedaços redondos Peixe com ossos Feijão Pedaços grandes de queijo, especialmente queijo de corda
Doces Doces duros ou redondos / Doces muito moles Jujubas / Caramelos / Balas / Gomas de mascar Snacks de frutas Marshmallows
Cubos de gelo

A Academia Americana de Pediatria destaca que os principais alimentos responsáveis por engasgos em crianças com menos de quatro anos de idade são: cachorro-quente, nozes, sementes, pedaços de carne ou queijo, uvas inteiras, doces duros ou pegajosos, pipoca, pedaços de manteiga de amendoim, pedaços de vegetais crus e gomas de mascar.

A necessidade de uma rotulagem clara dos alimentos sob riscos de asfixia, com aviso sucinto de que devem ser partidos ao meio e picados antes de serem dados a crianças pequenas deve ser destacada. Além disso, deve ser reiterada a importância da supervisão de crianças pequenas durante as refeições.

Alguns autores sugerem que devam ser supervisionadas, durante as refeições, crianças com idade igual ou inferior a cinco anos. Informações a respeito do risco de ACE relacionada a alimentos em crianças devem ser divulgadas a familiares e a todos profissionais de saúde ou outros profissionais que trabalhem com lactentes e crianças pequenas, principalmente os que fornecem atenção primária e àqueles que fornecem alimentos para crianças em uma base comercial, reduzindo as complicações e óbitos por este trágico, mas prevenível acidente5.

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Autor:

Referências:

  1. FANO, C. et al. Perception of Choking Injury Risk Among Healthcare Students. J Community Health. 2019 Apr 16.
  2. RODRIGUES, M. et al . Aspiração de corpo estranho na criança: um perigo escondido. Nascer e Crescer, Porto, v.25, n.3, p.173-176, 2016.
  3. UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE. Infant Nutrition and a Feeding. 2019. Disponível em: https://wicworks.fns.usda.gov/sites/default/files/media/document/Infant_Feeding_Guide_Final_508c_0.pdf#page=123. Acesso em 01 de junho de 2019.
  4. FRAGA, A.M.A. et al. Aspiração de corpo estranho em crianças: aspectos clínicos, radiológicos e tratamento broncoscópico. J Bras Pneumol, v.34, n.2, p.74-82, 2008.
  5. LUMSDEM; A. J.; COOPER, J. G. The choking hazard of grapes: a plea for awareness. Arch Dis Child, v. 102, p.473-474, 2017.
  6. CENTER FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Choking Hazards. 2019. Disponível em: https://www.cdc.gov/nutrition/infantandtoddlernutrition/foods-and-drinks/choking-hazards.html. Acesso em 01 de junho de 2019.
  7. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Healthy Children. Choking Prevention. 2015. Disponível em: https://www.healthychildren.org/English/health-issues/injuries-emergencies/Pages/Choking-Prevention.aspx. Acesso em 01 de junho de 2019.

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