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Como identificar fatores de risco metabólico 20 anos antes do diagnóstico de diabetes tipo 2?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Você tem “olho clínico” para identificar um paciente com os primeiros sinais de resistência à insulina? Veja o caso a seguir:

Paciente do sexo feminino, 44 anos e índice de massa corporal de 31Kg/m2. Exames laboratoriais com glicemia de jejum = 102mg/dl e triglicerídeos = 136mg/dl. Com base nesses resultados, o que você diria a ela?

a) Mantenha tudo como está e retorne em 1 ano para repetir exames de check-up.
b) Seus exames estão um pouco alterados, mas não se preocupe. Não é nada sério.
c) Apesar de seus exames estarem pouco alterados, podem indicar um risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 a longo prazo. É muito importante seguir algumas recomendações (especialmente mudanças comportamentais) para evitar a doença.

Leia o artigo e reavalie sua resposta ao final.

O diabetes tipo 2 (DM2) é uma doença lentamente progressiva, e a definição do momento em que a disfunção metabólica se inicia ainda é motivo de estudos. Fatores de risco para DM2 podem estar presentes muito antes do diagnóstico, mas poucos estudos documentaram o impacto desses fatores durante um período pré-diabético superior a 10 anos. Os autores de um novo estudo descrevem fatores de risco metabólico até 25 anos antes do diagnóstico, estimando o risco absoluto de 20 anos para o DM2 com base em um conjunto de dados comumente avaliados na prática clínica diária.

Com informações de uma coorte sueca (AMORIS), dados de 296.439 indivíduos foram analisados com o objetivo de descrever as diferenças nos marcadores glicêmicos, lipídicos e inflamatórios entre casos (indivíduos que desenvolveram DM2 no decorrer do período) e controles (sem DM2) por até 25 anos antes do diagnóstico de DM2.

O risco de DM2 em 20 anos com base na idade, sexo, índice de massa corporal (IMC), glicemia de jejum (GJ) e triglicerídeos (TG) foi estimado através da avaliação dos valores médios anuais nesses parâmetros para casos e controles.

RESULTADOS:

  • A média de idade da população estudada (na avaliação inicial) foi de 44,8 anos, e 47% eram mulheres. A população total do estudo foi acompanhada por 20 anos em média.
  • Durante o período de acompanhamento foram identificados 28.244 novos casos de DM2.
  • Entre os casos que desenvolveram DM2, 85% ocorreram dentro de 20 anos a partir do exame inicial. O tempo entre o exame inicial e o diagnóstico de DM2 foi de 14 anos em média.
  • O risco médio de DM2 em 20 anos foi de 8,1%. No total, 15,8% dos homens e 5,8% das mulheres tinham 20% ou mais de risco de DM2 em 20 anos.
  • Entre os novos casos de DM2, 63% eram homens e 37% mulheres. A média de idade ao diagnóstico foi de 63,4 anos.
  • O baixo nível socioeconômico foi mais frequente nos casos do que nos controles.
  • Os casos de DM2 apresentaram níveis mais elevados de glicose, lipídios e biomarcadores de inflamação no exame inicial do que os controles.
  • Para homens e mulheres, o risco estimado de 20 anos de DM2 aumentou acentuadamente com IMC mais alto.
  • O risco foi duplicado com triglicerídeos ≥124 mg/dL, independentemente do IMC e da glicemia de jejum.

O quadro abaixo mostra uma estimativa do risco de DM2 em 20 anos com base em alguns fatores de risco:

Fatores de risco Risco de DM 2 estimado em 20 anos
IMC <25kg/m²

Triglicerídeos em jejum <124mg/dL Glicemia de jejum <81 mg/dL

2,2% (IC 95%: 1,7-2,9) para homens de 40 a 49 anos

1,3% (IC95%: 1,0 -1,8) para mulheres de 40 a 49 anos

IMC≥30kg/m²

Triglicerídeos em jejum≥124 mg/dL

Glicemia de jejum 100-125 mg/dL

63,5% (IC 95%: 58,6-68,2) para homens

69,6% (IC 95%: 61,8 -76.5) para mulheres

Veja mais detalhes quanto a alguns parâmetros avaliados no estudo:

– Glicemia de jejum: a GJ foi maior nos casos do que nos controles já 25 anos antes do diagnóstico. A glicemia de jejum aumentou sucessivamente nos casos, com uma média de 106mg/dL no ano anterior ao diagnóstico, em comparação com 90mg/dL nos controles. Níveis de GJ acima de 100mg/dL foram observados, em média, sete anos antes do diagnóstico de DM2.

– Frutosamina: houve uma diferença na frutosamina entre casos e controles 15 anos antes do diagnóstico de DM2. Essa diferença aumentou no período mais próximo ao diagnóstico de DM2. Entre os controles nenhuma tendência ao aumento da frutosamina foi observada.

– Haptoglobina e ácido úrico: esses marcadores inflamatórios foram maiores nos casos, comparados aos controles, 25 anos antes do diagnóstico. A diferença permaneceu constante ao longo do tempo.

– Fatores relacionados ao metabolismo lipídico: diferiram entre casos e controles décadas antes do diagnóstico de DM2. Nos casos versus controles, maiores médias de IMC, triglicerídeos mais altos e aumento da relação apoB / A-I foram observados 25 anos antes do diagnóstico de DM2. As diferenças no IMC, triglicerídeos e relação apoB / A-I aumentaram apenas discretamente ao longo do tempo.

Relação entre vitamina D e diabetes tipo 2: perguntas e respostas

Em conjunto, esses achados apoiam a hipótese de que um aumento na resistência insulínica pode aparecer precocemente em indivíduos que mais tarde desenvolvem DM2.

Notou-se também que os marcadores de resistência à insulina (maior IMC, triglicerídeos e ácido úrico, e menor apoA-I) estavam elevados, porém ficaram estáveis durante os anos que precederam o DM2. Portanto, é improvável que o aumento progressivo da resistência à insulina explique o início do DM2.

Apesar do passo inicial no desenvolvimento do (DM2) se dar com o aparecimento de resistência à insulina, as células β pancreáticas podem superar essa resistência liberando mais insulina, o que previne a hiperglicemia temporariamente. No entanto, à medida que essa hiperatividade cresce as células β sofrem efeitos metabólicos negativos, o que, associado a uma predisposição genética ao DM2, pode levar ao desaparecimento sucessivo dessas células.

Os autores concluem mostrando que o desenvolvimento do DM2 está associado a elevações sutis nos níveis de glicose e lipídios mais de 20 anos antes do diagnóstico. Isto sugere que os processos diabetogênicos ligados à resistência crônica à insulina operam por décadas antes do desenvolvimento da doença e enfatizam a importância da detecção precoce e do início de medidas preventivas.

Uma classificação simples de risco pode ajudar na identificação precoce de indivíduos com risco aumentado de DM2. Intervenções precoces e eficazes, em particular para fatores associados à resistência à insulina, devem ser tomadas na tentativa de evitar ou ao menos retardar o desenvolvimento do DM2.

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Autora:

Referências:

  • Elevations of metabolic risk factors 20 years or more before diagnosis of type 2 diabetes – experience from the AMORIS study. Diabetes Obes Metab. 2018 Jun;20(6):1419-1426. doi: 10.1111/dom.13241. Epub 2018 Mar 1.

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