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Congresso discute novos modelos de atenção ao idoso

Tempo de leitura: 4 minutos.

Devido ao aumento de pessoas com mais de 65 anos previsto para os próximos anos novos modelos de saúde pensados para os idosos são assuntos que devem ser tratados com atenção pelos gestores de saúde públicos e particulares. Inclusive, esses foram alguns dos temas debatidos na 3ª edição do Hospital Summit, promovida pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp),  nos dias 21 e 22 de maio, em São Paulo.

O congresso trouxe mais de 100 palestrantes nacionais e internacionais e aborda as melhores práticas das unidades de saúde do Brasil. Foram apresentadas propostas de como implementar programas e protocolos para reduzir os riscos da hospitalização do idoso e como viabilizar recursos na prática hospitalar para garantir a integração com a rede de cuidados.

“O rápido crescimento da população acima de 65 anos e o seu impacto nos sistemas de saúde brasileiros esteve no centro das discussões nas mais de 30 horas de workshops e debates simultâneos do Hospital Summit 2019’, conta o geriatra Daniel Apolinário, coordenador médico dos Programas de Atenção ao Idoso do Hospital do Coração (HCor) e um dos responsáveis pelo do Manual de Assistência ao Idoso da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp).

Segundo o especialista, em primeiro lugar é preciso que os médicos e outros profissionais da saúde percebam que o paciente idoso apresenta especificidades importantes, que justificam a necessidade de um olhar diferenciado. A partir desse ponto é possível convencer esses profissionais de que eles podem não estar preparados para o atendimento dessa população e precisam capacitar-se para essa função.

Experiências bem-sucedidas

A professora Stephanie Rogers, da Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, por exemplo, apresentou a experiência bem-sucedida da instituição no projeto “Age-Friendly Health System”, uma iniciativa promovida pela John A. Hartford Foundation e pelo Institute for Healthcare Improvement (IHI). Além de investir na capacitação dos profissionais para o atendimento às especificidades do paciente idoso, o projeto desenvolveu ações para prevenir delirium, estimular a mobilidade, reduzir o risco de reações adversas a medicamentos e implementar linhas de cuidado centradas na pessoa.

Ao final de dois anos, o investimento de US$ 2,6 milhões resultou na economia de US$ 3,6 milhões, principalmente através da redução do tempo de internação e da diminuição dos casos de reinternação precoce.

Como outro exemplo de modelo bem-sucedido é possível citar também o implementado pelo Hospital do Coração (HCor): todos os pacientes com 60 anos ou mais são estratificados no momento da admissão quanto ao seu grau de fragilidade através de um questionário simples. Os idosos considerados frágeis são incluídos em um programa institucional liderado por uma enfermeira gerontóloga que exerce a função de gestão de casos. Após uma avaliação multidimensional para estratificar riscos e identificar vulnerabilidades, um plano terapêutico individualizado é desenvolvido com o objetivo de evitar complicações e garantir a preservação da independência funcional.

“Esse modelo utilizado no HCor apresentou resultados promissores, com impacto em indicadores de desfecho clínico. Agora, ele está sendo levado como piloto a cinco hospitais públicos em parceria com o Ministério da Saúde através do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS). Espera-se que a partir dessa experiência o modelo passa ser levado aos hospitais do país inteiro, alcançando assim um maior número de pacientes idosos”, relata Daniel Apolinário.

Principais desafios

Além de apresentar especificidades desafiadoras, a população idosa tem uma recuperação mais lenta frente aos agravos e apresenta um risco maior de complicações secundárias denominadas síndromes geriátricas.

“Entre as síndromes geriátricas observadas com frequência entre os idosos hospitalizados podemos citar condições como queda, lesão por pressão, delirium, contenção mecânica, pneumonia aspirativa, deterioração do estado nutricional, iatrogenia medicamentosa e o declínio funcional causado pelo imobilismo. Essas síndromes geriátricas são passíveis de prevenção através de estratégias bem coordenadas de atuação multidisciplinar, mas infelizmente essas condições têm sido negligenciadas em grande parte dos hospitais, que ainda conta com modelos assistenciais desenvolvidos no século passado, quando predominava a realidade epidemiológica do foco na atenção à saúde materno infantil e do adulto jovem”, observa Daniel Apolinário.

Ainda segundo o especialista em geriatria, hoje em dia são raros os hospitais que desenvolvem programas bem estruturados para estimular a mobilização e evitar o declínio funcional entre os idosos. Como resultado, é possível observar um grande número de idosos que, após a alta hospitalar, não consegue retomar as atividades de vida diária com a mesma independência que possuía antes da internação.

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Protocolos de prevenção de condições como o delirium e a broncoaspiração, muito comuns em outros países, raramente são encontrados nos hospitais brasileiros. A contenção mecânica de idosos com quadro confusional, infelizmente, ainda é muito comum no Brasil, utilizada muitas vezes de forma abusiva. O uso de medicações potencialmente inapropriadas para idosos é comum nos hospitais brasileiros que não desenvolvem programas de checagem da prescrição desenvolvidos por uma equipe atuante de farmacêuticos clínicos.

Whitebook

“Como agravante desse cenário, no país os cursos de formação na área da saúde tardaram excessivamente em incorporar as disciplinas de Geriatria e Gerontologia, que ainda hoje aparecem de forma tímida nas universidades. Como resultado, temos hoje no mercado profissionais sem o preparo adequado para atender às necessidades específicas da pessoa idosa. As boas instituições já perceberam esse problema e hoje começam a desenvolver programas de capacitação nessa área”, alerta Daniel Apolinário.

Novos programas e protocolos

Além de contarem com profissionais bem preparados para a função, os modelos de atenção ao idoso devem concentrar esforços de coordenação para promover integração dos diversos profissionais envolvidos, evitando assim a fragmentação do atendimento.

A literatura disponível e a experiência prática nessa área revelam que os pacientes idosos mais complexos necessitam de um “gestor de casos” que possa garantir uma visão global dos processos de cuidado e servir como um navegador nos labirintos do sistema de saúde.

Os protocolos multidisciplinares de prevenção das síndromes geriátricas são fundamentais nos modelos de atenção ao idoso hospitalizado. Diretivas sobre como implementar esses modelos e protocolos podem ser encontradas no “Manual de Gerenciamento e Assistência ao Idoso”, preparado pela  Anahp a partir de seus grupos técnicos.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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One comment

  1. Avatar
    Dr. Thales Henrique Costa e Gonçalves

    Bom dia. Nesse congresso foi colocado o que todos nós já sabíamos: quedas dentro do domicílio constituem uma parcela muito importante de causa de internações, consequentemente de gasto de dinheiro público. Medidas simples como distribuição de cartilhas anti quedas e visitas multiprofissionais nos lares de idosos para orientações sobre o assunto é de suma importância. Soluções em larga escala (públicas) devem ser tomadas em larga escala para redução de danos (saúde e dinheiro público). Empresas privadas estão se importando com o tema, algumas pequenas e outras maiores, porem não vemos isso de maneira constante no serviço público, principalmente nos interiores do Estado.

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