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cerebro sendo apagado com borracha

Demência: fatores de risco, manejo dos sintomas e cuidados

Tempo de leitura: 6 minutos.

Setembro é o mês mundial da Doença de Alzheimer, sendo o dia 21 do mesmo mês considerado o seu dia mundial. A iniciativa, lançada em 2012, busca conscientizar e combater o estigma que acompanha a doença¹.

Por esse motivo, decidi indicar a publicação Dementia prevention, intervention, and care² disponibilizada na versão online em julho de 2017 pela revista Lancet. A intenção é que, passado o mês de setembro, a discussão acerca do tema Demências, em especial a Doença de Alzheimer, não caia no esquecimento.

Trata-se de uma revisão crítica e baseada em evidências, voltada especialmente para três aspectos: fatores de risco, manejo dos sintomas e cuidados.

Os autores, logo no início do texto, destacam aqueles que consideram como “pontos-chave” da publicação. Aqui os reproduzo, acrescidos de comentários referentes às questões que mais me despertaram a atenção.

São por vezes informações gerais, mas que devem ser de conhecimento de todo profissional de saúde. Haja vista o envelhecimento progressivo da população, a alta prevalência de comorbidades nos indivíduos idosos e as possíveis complicações clínicas decorrentes dos quadros demenciais, em diversos momentos tais pacientes serão colocados diante de profissionais “não-especialistas” no assunto.

1.“O número de pessoas com demência está aumentando globalmente, embora a incidência em alguns países tenha diminuído.”

Destacam-se dois aspectos. Primeiro os impactos econômico, social e sobre o sistema de saúde. E o segundo, o fato do crescimento atual e previsto do número de casos de demência ser maior nos países de baixa e média renda do que naqueles de alta renda.

2.“Seja ambicioso com a prevenção. Recomendamos o tratamento ativo da hipertensão na meia idade (45-65 anos) e nos idosos (com idade acima de 65 anos) sem demência para reduzir a incidência de demência. Intervenções para outros fatores de risco, incluindo mais educação na infância, exercício físico, manutenção do engajamento social, redução do tabagismo e manejo da perda auditiva, depressão, diabetes e obesidade pode ter o potencial de atrasar ou prevenir um terço de casos de demência.

Os autores mensuram o impacto que o controle dos fatores de risco modificáveis mais estudados para demência pode representar na redução de sua incidência. Dentre esses fatores destaca-se a surdez. Nota-se ainda que a prevenção da demência envolve medidas a serem idealmente instituídas em fases anteriores ao seu aparecimento, algumas delas ainda na infância.

3.“Trate sintomas cognitivos. Para maximizar a cognição, para pacientes com doença de Alzheimer ou demência com corpos de Lewy devem ser oferecidos inibidores da colinesterase em todas as fases, ou memantina para demência grave. Os inibidores da colinesterase não são eficazes em casos de declínio cognitivo leve.

Reitera-se que o beneficio de tais medicações, apesar de comprovado, é pequeno. Assim como também é reduzido o beneficio de intervenções cognitivas (terapia de estimulação, treinamento e reabilitação cognitiva) e do exercício físico de uma forma geral.

4. “Individualize os cuidados para os pacientes com demência. Um bom atendimento para pacientes com demência abrange cuidados médicos, sociais e de suporte; deve ser adaptado às necessidades, preferências e prioridades individuais e culturais particulares e deve incorporar suporte para os cuidadores.

Os principais benefícios de um plano de cuidados individualizado são a melhora da qualidade de vida e a redução nas admissões hospitalares. Entretanto, em razão de seus custos, ainda não é uma alternativa amplamente disponibilizada.

Veja também: ‘Imagem nas demências – onde estamos e para onde iremos’

5. “Cuide dos familiares cuidadores. Os familiares cuidadores têm alto risco de depressão. Intervenções efetivas, incluindo STrAtegies for RelaTives (START) ou Resources for Enhancing Alzheimer’s Caregiver Health intervention (REACH), reduzem o risco de depressão, tratam os sintomas e devem ser disponibilizadas.

O cuidado com os familiares cuidadores contribui para o cuidado com o paciente com demência e não deve ser negligenciado. O acometimento psicológico de familiares cuidadores é preditor de falência da assistência com consequente admissão em casas de repouso e abuso. Apenas o acesso à informação não é suficiente para a melhora da saúde mental dos cuidadores, sendo desse modo enfatizado o uso de intervenções com beneficio demonstrado.

6. “Planos para o futuro. Pessoas com demência e suas famílias valorizam discussões sobre o futuro e as decisões sobre possíveis representantes legais. Os médicos devem considerar a capacidade de tomar diferentes tipos de decisões no momento do diagnóstico.

Recomenda-se, quando em estágio inicial, que o paciente seja consultado sobre decisões pertinentes ao seu cuidado futuro, e não apenas seus cuidadores. Entretanto, identificar quando, quem e como decidir pelo paciente com demência pode não ser uma tarefa simples.

7. “Proteção às pessoas com demência. Pessoas com demência e a sociedade exigem proteção contra possíveis riscos da condição, incluindo autonegligência, vulnerabilidade (incluindo a exploração), gerenciamento de dinheiro, condução de veículos ou uso de armas. A avaliação e a gestão dos riscos em todas as fases da doença são essenciais, mas devem ser equilibradas contra o direito da pessoa à autonomia.

A frequência de abuso contra idosos com demência é alta, porém ainda pouco identificado. Riscos para sua ocorrência incluem: pacientes com sintomas neuropsiquiátricos e cuidadores familiares sobrecarregados, que despendem muitas horas no cuidado e apresentam morbidades psicológicas. Na maioria das vezes os abusos acontecem quando a qualidade do cuidado é pobre e cuidadores, familiares e profissionais não dispõe de outras estratégias para conduzir situações difíceis.

8. “Manejo de sintomas neuropsiquiátricos. O manejo dos sintomas neuropsiquiátricos da demência, incluindo agitação, humor negativo ou psicose, geralmente é psicológico, social e ambiental, com manejo farmacológico reservado para indivíduos com sintomas mais graves.

A publicação aborda o manejo das seguintes condições: psicose, agitação, depressão, transtornos do sono e apatia, havendo para cada uma dela considerações específicas. No entanto, é recorrente a orientação quanto a não utilização de terapia farmacológica como primeira opção de tratamento, justificada pelos riscos relacionados à medicação, em especial os antipsicóticos.

9. “Considere fim de vida. Um terço das pessoas idosas morre com demência, por isso é essencial que os profissionais que trabalham em cuidados de fim de vida considerem se um paciente tem demência, porque pode ser incapaz de tomar decisões sobre seus cuidados e tratamento ou expressar suas necessidades e desejos.

Há dificuldade no estabelecimento e identificação do momento para instituição de cuidados paliativos a pacientes com demência. Assim, os cuidados devem ser centrados nas necessidades do paciente que, no entanto, podem não ser facilmente reconhecidas. O manejo da dor e do desconforto é essencial. Já a favor da nutrição e hidratação artificiais existem poucos benefícios. As atenções da equipe no manejo do fim de vida devem se voltar também aos familiares e cuidadores.

10. “Tecnologia. As intervenções tecnológicas têm o potencial de melhorar a prestação de cuidados, mas não devem substituir o contato social.

Os campos para sua aplicação em benefício de pacientes com demência são diversos: diagnóstico e acompanhamento, monitoramento, tecnologia assistiva, terapêutica e suporte. Entretanto, ainda não há evidência de efetividade.

Concluo enfatizando que a inexistência, ainda, de um tratamento curativo para demências não significa que não há nada para ser feito. São diversas as oportunidades de intervenção, com benefícios demonstrados não apenas para o paciente, mas também para aqueles diretamente envolvidos em seus cuidados e para sociedade.

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Autora:

Referencias:

  1. Site do World Alzheimer’s Month. Disponível em: <https://www.worldalzmonth.org>, acesso em 05 de outubro de 2017.
  2. LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care. The Lancet, 2017. Disponível em: < http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(17)31363-6/fulltext>, acesso em 05 de outubro de 2017.

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