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Desempenho escolar e TDAH: tudo o que você precisa saber

Tempo de leitura: 6 minutos.

Fevereiro é o mês da volta às aulas. O fim das férias escolares marca um período de grande ansiedade e expectativas. Entretanto, esse é o melhor período para se planejar o ano escolar e se atentar a algo que geralmente só é lembrado no final do ano, com o encerramento dos ciclos avaliativos e quando as intervenções são bem mais limitadas: a dificuldade escolar.

O Transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é a causa inespecífica de dificuldade escolar mais prevalente. No Brasil, essa prevalência entre crianças e adolescentes em idade escolar é de 6% aproximadamente. Isso significa que em uma sala de 20 alunos a chance de que ao menos um tenha TDAH é alta.

O acometimento neurológico é na verdade um atraso na maturação neuronal. As consequências do TDAH na vida do indivíduo são grandes. As pesquisas apontam que o TDAH está relacionado à:

• Dificuldade escolar
• Gravidez na adolescência
• Uso nocivo de substâncias
• Maior envolvimento em acidentes de trânsito
• Dificuldade de manter relacionamentos
• Dificuldades de manutenção de emprego
• Envolvimento com jogo nocivo

As alterações fisiopatológicas do TDAH não estão totalmente esclarecidas. Contudo o sistema dopaminérgico parece ser o principal responsável pelos sintomas que acometem os indivíduos com TDAH, especialmente nos polimorfismo dos genes DAT1 e DRD4 que modificam o transportador e o receptor da dopamina, respectivamente.

As mutações e polimorfismos desses genes parecem estar intimamente influenciadas por fatores epigenéticos como uso do álcool e tabaco durante a gestação. Outro aspecto interessante é que o TDAH da infância e que permanece com sintomas na vida adulta (10% dos casos) se difere fisiopatologicamente do TDAH do adulto.

O que focaremos nesse texto é o reconhecimento dos sintomas e prejuízos de maneira precoce, enquanto ainda temos tempo de promover cuidados ambientais para auxiliar no manejo das dificuldades de aprendizagem. Os sintomas do TDAH se manifestam como desatenção, hiperatividade e impulsividade. A seguir está a lista de sintomas apresentada no DSM-5.

Desatenção:

  • frequentemente deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em
  • atividades escolares, de trabalho ou outras;
  • com frequência tem dificuldades para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
  • com frequência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra;
  • com frequência não segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas
  • domésticas ou deveres profissionais (não devido a comportamento de oposição ou
  • incapacidade de compreender instruções);
  • com frequência tem dificuldade para organizar tarefas e atividades;
  • com frequência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam esforço mental
  • constante (como tarefas escolares e deveres de casa);
  • com frequência perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por ex. brinquedos,
  • tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais);
  • é facilmente distraído por estímulos alheios às tarefas;
  • com frequência apresenta esquecimento em atividades físicas.

Hiperatividade:

  • frequentemente agita as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira;
  • frequentemente abandona sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se
  • espera que permaneça sentado;
  • frequentemente corre ou escala em demasia, em situações nas quais isto é inapropriado (em
  • adolescentes e adultos, pode estar limitado a sensações subjetivas de inquietação);
  • com frequência tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividades
  • de lazer;
  • está frequentemente “a mil” ou muitas vezes age como se estivesse “a todo vapor”;
  • frequentemente fala em demasia;
  • frequentemente dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem sido completadas;
  • com frequência tem dificuldade para aguardar sua vez;
  • frequentemente interrompe ou se mete em assuntos de outros (por exemplo, intromete-se em
  • conversas ou brincadeiras)

Para o diagnóstico de TDAH ser realizado os sintomas devem estar presentes em pelo menos 2 ambientes, estar presentes por 6 meses, não ter nenhuma outra causa que os explique (hipertireoidismo, Coreia de Sydenhan) e trazerem prejuízos. Para o rastreio de sintomas o instrumento MTA-SNAP IV pode ser utilizado. O instrumento é uma escala do tipo likert aplicável a pais e professores. Os sintomas estão categorizados em grupos de desatenção e hiperatividade.

A intensidade de sintomas varia entre 1 e 4 conforme a frequência de ocorrência e pode ser considerada presente para pontuações 3 e 4 ou ausente para 1 e 2. Crianças que pontuam 6 em 9 para desatenção ou 6 em 9 para hiperatividade possuem chances de terem TDAH e devem ser vistas pelo especialista focal. A sensibilidade do teste é de 88,24% e um valor preditivo negativo de 99%; dessa forma é um bom instrumento para se tirar os casos suspeitos e descartar os casos negativos.

Leia mais: Estudo indica que tratar tanto mãe quanto filho com TDAH é mais eficaz

A avaliação de prejuízos pode ser dimensionada objetivamente por instrumentos como o Child Behavior Checklist (CBCL), de aplicação exclusiva do profissional de psicologia. Contudo na prática cotidiana os pais e profissionais podem se atentar a observar 4 grupos de prejuízos para se avaliar a necessidade de consulta ao especialista focal.

  • Escolar: os prejuízos escolares relacionados ao desempenho e dificuldade de aprendizagem são bem vistos pelos professores. Acima disso, é importante ressaltar que algumas vezes o desempenho escolar não é fato afetado, mas o tempo e necessidades de repetição podem ser muito maiores para a criança com o TDAH a limitando nos demais componentes do desenvolvimento saudável, e a isso os pais devem estar atentos e serem bem orientados pelo profissional coordenador do cuidado.
  • Social: os prejuízos sociais dizem respeito às relações das crianças com os pares e professores, por exemplo. As crianças com perfil desatento tendem a ter maior introspecção e dificuldade de estabelecimento de relações sociais, ao passo que aqueles com perfil de maior hiperatividade tendem a ter os traços opostos; ainda há a possibilidade dos sintomas de impulsividade estarem associados à dificuldade de convívio com respeito à normas e frustrações. Esses prejuízos sociais se afinam ao maior sofrimento de bullying escolar, por exemplo, e ao, mesmo tempo, aos comportamentos sociais disfuncionais que implicam maior envolvimento com uso nocivo de substâncias, criminalidade e acidentes de trânsito.
  • Familiar: os prejuízos familiares de devem à questões semelhantes aos dos aspectos sociais, porém aplicados ao contexto familiar. Isso implica em vínculos parentais que podem conter traços de disfuncionalidade e principalmente maior volume de interações negativas. Esse tipo de prejuízo costuma manifestar suas consequências no período de longo prazo e precisa ser cuidado a fim de se evitar prejuízos maiores no desenvolvimento do indivíduo e sobrecarga parental.
  • Pessoal: finalmente o prejuízo pessoal diz respeito à percepção do sujeito de sua condição clínica, o insight que é capaz de fazer e como ele percebe os prejuízos de seus processos cognitivos em seu cotidianos. Isso tem total relação com as dificuldades de autoestima experimentadas por essas crianças e adolescentes ao longo de seu desenvolvimento e é traço com impacto total ao longo da vida adulta.

Agora você já é capaz de identificar os sintomas principais do TDAH bem como suas implicações para as crianças e adolescentes ao longo do ciclo de vida. A mensagem a ser levada é a aplicabilidade prática dos instrumentos de triagem diagnóstica como parâmetro para saber quais casos merecem ser vistos pelo especialista focal ou não.

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Referências:

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  • GOBBO, Marcelo. Avaliação psicométrica do instrumento de rastreio de sintomas para TDAH e TDO, MTA-SNAP IV, segundo modelo matemático de Rasch. 2016 (Não Publicado)
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Um comentário

  1. Parabenizando o autor por trazer o relevante texto acima, gostaria de tecer rápidos comentários sobre alguns aspectos citados sobre TDA/H, pois trata-se de uma sindrome descrita a partir das evidência clínicas. Na minha prática de clínica e como docente de Neurologia da UFRJ, em meado dos anos 70 (1976), tive a oportunidade de desenvolver projeto de pesquisa (da tese de mestrado) quando essa condição, “desacreditada por muitos neurologistas”, era denominada Disfunção Cerebral Mínima (DCM). Em São Paulo, o Prof. Lefévre já estudava esta síndrome e observava que uma forma de confirmar o diagnóstico usando a prova terapeutica: melhora do quadro clínico com prescrição da Ritalina (como fortuitamente, na Inglaterra, se identificou essa doença). Ao longo dos anos a DCM ganhou destaque na literatura médica, passando a ser diagnóstico para muitas crianças com diversos problemas de ansiedade e distúrbios de comportamento diversos, virando quase moda: hoje de cada 10 casos que atendo, diria que só metade confirma o diagnóstico. Por outro lado, interesses e a banalização associada frouxidão de critérios diagnósticos, nas três últimas décadas, teria havido quase uma “epidemia” de TDA/H e aumento da medicalização não pertinente. Houve também a influência da”patologização” de distúrbios de ansiedade, depressão e outros distúrbios de comportamento em crianças promovida pela visão do DSM V, sendo que, hoje, boa parte dos médicos americanos faz críticas a esse instrumento de classificação médica. Embora não se tenha uma base anátomo-patológica, estudos de Neurociência apontam para possível déficit na maturação de circuitos neuronais da área pré-frontal e sistema temporo-límbico (hipofrontalismo); daí a melhora da maioria dos casos com o desenvolvimento e maturação do cérebro dessas crianças. Cabe ainda observar que é muito incomum a persistencia ddessa síndrome na vida adulta (como não se diagnosticar casos que iniciam na vida adulta!). Do ponto de vista clínico, não cabe fazer diagnóstico diferencial com o grupo de distúrbios do movimento como Coréia de Sydenham, mais sim com os inúmeros fatores que levam hoje as crianças apresentarem quadros de ansiedade, depressão, distúrbios de comportamentos decorrentes de problemas familiares ou sócio-econômicos, ou ainda, aos excessos do mundo moderno em que o apelo digital e da informação dominam e “viciam” tanto os jovens quanto adultos. Quanto ao álcool, foi de grande relevância lembrar da Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) decorente do consumo de bebidas alcoólicas durante a gravidez como causa não-genética mais frequente dos distúrbios e déficits neurocognitivos e comportamentais nas crianças de idade escolar, muitas vezes confundidas com TDA/H. Enfim, nossa intenção foi trazer modesta colaboração baseada em evidências e experiência clínica sobre esse tão importante assunto.

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