Página Principal > Cardiologia > Dispositivos de assistência circulatória mecânica: esperança no tratamento da IC avançada
Insuficiência Cardíaca Direita

Dispositivos de assistência circulatória mecânica: esperança no tratamento da IC avançada

Tempo de leitura: 4 minutos.

A insuficiência cardíaca (IC) constitui-se um importante problema de saúde pública mundial, com elevada taxa de morbimortalidade, podendo ser considerada uma verdadeira pandemia. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 23 milhões de pessoas sofrem com a doença no mundo. No Brasil, cerca de 100 mil novos casos são diagnosticados todos os anos. Números que impressionam e dimensionam o problema.

O transplante cardíaco, considerado o tratamento de eleição nos casos de IC avançada refratária à terapêutica clínica, nem sempre é possível em grande parte dos pacientes, seja em virtude de problemas relacionados ao próprio paciente (contraindicações, compatibilidade, etc), seja pela escassez de doadores, que aliada à alta prevalência da doença faz com que muitas vezes transcorram anos para que o transplante seja realizado ou nem mesmo ocorra em tempo hábil de evitar a evolução da doença. Estimativas brasileiras apontam que mais de 60% dos pacientes elegíveis para transplante cardíaco evoluem para óbito antes de conseguirem um novo coração.

Diante deste quadro alarmante, muito investimento é feito em novas tecnologias capazes de mudar o curso clínico da IC avançada, com o desenvolvimento de Dispositivos de Assistência Circulatória Mecânica (DACM) cada vez mais eficazes, divididos basicamente em duas categorias: os temporários e os de longa permanência.

LEIA MAIS: Insuficiência Cardíaca – revisão clínica PEBMED

DACM temporários

Os DACM temporários visam restabelecer a capacidade hemodinâmica e proporcionar estabilização clínica, podendo seu uso ser condicionado a três situações:

  1. Como ponte para decisão de terapêutica definitiva
  2. Ponte para recuperação da condição determinante da falência cardíaca
  3. Ponte para transplante cardíaco

Os DACM temporários atualmente disponíveis no Brasil são: Balão Intra-aórtico (BIA), o dispositivo mais amplamente utilizado em nosso meio; a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), técnica que cada dia mais se expande em nosso país, mas ainda restrita a grandes centros; além do TamdemHeart (R), Impella 2,5 (R), Impella CP (R), Impella 5,0 (R), CentriMag (R) e o Berlin Heart EXCOR (R). Os métodos de inserção são variáveis, podendo ser percutâneos, por dissecção ou através de toracotomia direta, bem como existe também variação significativa na capacidade de suporte hemodinâmico, alternando de 0,5 l/min fornecidos pelo BIA, mais de 4,5 L/min fornecidos pelo ECMO e até 8-10 l/min que podem ser proporcionados pelo CentriMag (R). Também é variável o período de suporte hemodinâmico proporcionado por estes dispositivos, sendo de 5-7 dias com o Impella até 30 dias (ECMO, Centrimag [R]).

As principais indicações para o uso dos dispositivos temporários incluem suporte às condições de choque cardiogênico como insulto agudo (ex: pós-infarto agudo do miocárdio, miocardites, takotsubo, disfunção de enxerto, entre outros), choque cardiogênico em paciente crônicos com agudização da doença (nestes casos muitas vezes como ponte para transplante cardíaco ou implante de dispositivos de longa permanência) ou como suporte em pacientes de alto risco de apresentarem disfunção cardíaca grave (ex: cirurgias cardíacas, angioplastias coronarianas, procedimentos valvares percutâneos).

DACM de longa permanência

Já os DACM de longa permanência sofreram avanços tecnológicos importantes nos últimos anos, tanto no que diz respeito ao tamanho dos aparelhos (que se tornaram cada vez menores), bem como no tipo de fluxo gerado pelos mesmos e tipo de propulsão, aumentando a eficiência e diminuindo as complicações. Atualmente, cerca de 99% dos aparelhos em uso são de 3ª geração, de fluxo contínuo e intra-corpóreos. A evolução tecnológica vem substituindo gradativamente os dispositivos de 1ª (de fluxo pulsátil, válvulas e rolamento mecânico) e 2ª geração (de fluxo contínuo, axial e rolamento mecânico) pelos mais modernos, nos quais não há contato do sangue com o rolamento, sendo o fluxo contínuo, centrífugo, por levitação magnética ou hidrodinâmica.

No Brasil, três dispositivos se encontram disponíveis para uso: HeartMate II (R), BerlinHeart INCOR (R) e HeartWare (R), todos autorizados pela ANVISA. Infelizmente, em nosso meio ainda é bastante restrito seu uso, principalmente em função do alto custo que representam, no entanto em países desenvolvidos é uma realidade que já beneficia milhares de pessoas, proporcionando aumento da sobrevida e melhora significativa da qualidade de vida, sendo rotineiramente empregado como terapia na IC refratária. Um estudo realizado em um período de sete anos (entre 2007 e 2014) evidenciou um aumento de 70 vezes no número de implantes de dispositivos de longa permanência, uma tendência que só aumenta, podendo nos fazer vislumbrar um futuro promissor no tratamento da IC e fornecendo um alento para as milhares de pessoas portadoras da doença.

É médico e também quer ser colunista do Portal PEBMED? Increva-se aqui!

Autor:

Referências:

Um comentário

  1. Marcilio Abraços Jorge

    Artigo maravilhoso, parabéns.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.