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É possível diagnosticar delirium em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica?

Tempo de leitura: 5 minutos.

O delirium é uma síndrome clínica caracterizada por uma perturbação aguda na consciência e na cognição e que pode flutuar ao longo do dia. Sua etiologia pode ser multifatorial, incluindo a gravidade da doença, seu tratamento e o próprio ambiente de cuidados intensivos. Ocorre com frequência em adultos e sabe-se que está ligado a desfechos desfavoráveis, incluindo maior permanência na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e no hospital, maior mortalidade e evolução para prejuízos cognitivos em longo prazo em pacientes sobreviventes¹.

“Mas, existe delirium em crianças?”

Sim! Em crianças com câncer, por exemplo, Traube e colaboradores encontraram uma incidência de 18,8%. Na UTI Pediátrica, a prevalência oscila entre 8,9 e 47%. As incidências encontradas em dois recentes estudos em pacientes pediátricos em pós-operatório de cirurgia cardíaca foi de 49 e 57%. Esses números variam de acordo com as características da unidade e com a ferramenta empregada para diagnóstico1,2,3,4.

“E como podemos diagnosticá-lo na UTI Pediátrica?”

Algumas ferramentas para diagnóstico de delirium em UTIP foram validadas e descritas na literatura. A decisão para o uso de cada uma delas varia de acordo com as circunstâncias e escolhas da equipe5.

A ferramenta Pediatric Anesthesia Emergence Delirium Scale (PAED) foi inicialmente desenvolvida para a avaliação de agitação no despertar em crianças em período pós-anestésico6. Mostrou-se válida e confiável para a avaliação de delirium em UTIP em pacientes de 1 a 17 anos, mas diagnostica apenas a forma hiperativa, menos encontrada em UTI7,8,9.

A ferramenta Pediatric Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit (pCAM-ICU), uma adaptação da ferramenta para diagnóstico de delirium em adultos em UTI, Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit (CAM-ICU), utiliza quatro características cardeais:

1 – início agudo ou flutuação do estado mental
2 – desatenção
3 – nível alterado de consciência
4 – pensamento desorganizado

Para que o paciente possa ser avaliado por essa ferramenta, deve apresentar nível de consciência adequado à elicitação de respostas, correspondente a um escore entre –3 a + 4 na Escala de Agitação Sedação de Richmond (Richmond Agitation Sedation Scale – RASS). Pacientes que apresentam RASS – 4 e –5 não podem ser avaliados, devendo ser abordados em outro momento. Para que o diagnóstico de delirium seja positivo usando o pCAM-ICU, o paciente deve apresentar obrigatoriamente as características 1 e 2, acrescidas da característica 3 ou da 4. O pCAM-ICU foi validado para ser empregado em crianças com idade igual ou superior a cinco anos submetidas ou não à ventilação mecânica, mas não pode ser aplicado em pacientes com atraso cognitivo10. Possui versão traduzida e adaptada para o português do Brasil por Molon e colaboradores (2018)11.

Síndrome de abstinência e delirium em UTIP

A ferramenta PreSchool Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit (psCAM-ICU) é uma adaptação do pCAM-ICU e se mostrou válida e confiável para o diagnóstico de delirium em crianças com menos de cinco anos de idade (faixa etária em que o delirium é mais frequente) ventiladas mecanicamente ou não. O psCAM-ICU pode ser aplicado também em crianças com idades cronológicas acima de cinco anos com atraso de desenvolvimento cognitivo².

A ferramenta Cornell Assessment of Pediatric Delirium (CAPD) é uma modificação da ferramenta PAED englobando avaliações para delirium hipoativo e misto. O delirium está presente se a pontuação for igual ou superior a nove. Assim como no pCAM-ICU, pacientes com RASS -4 e -5 não podem ser avaliados, devendo ser abordados em outro momento9,12.

Recentemente, Ista e colaboradores (2017) divulgaram o estudo de validação da ferramenta Sophia Observation Withdrawal Symptoms – Pediatric Delirium Scale (SOS-PD), adaptada da escala Sophia Observation Withdrawal Symptoms para avaliação de síndrome de abstinência em UTI Pediátrica³.

Para Harris e colaboradores (2016), a avaliação utilizando ferramentas diagnósticas deve ser feita a cada oito a 12 horas (pelo menos uma vez a cada plantão), 24 a 48 horas após admissão ou de acordo com o quadro clínico do paciente (GRAU DE RECOMENDAÇÃO = D)13.

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Autora:

Referências:

  1. Alvarez RV, Palmer C, Czaja AS, Peyton C, Silver G, Traube C, Mourani PM, Kaufman J. Delirium is a Common and Early Finding in Patients in the Pediatric Cardiac Intensive Care Unit. J Pediatr. 2018 Apr; 195:206-12.
  2. Smith HA, Gangopadhyay M, Goben CM, Jacobowski NL, Chestnut MH, Savage S, et al. The Preschool Confusion Assessment Method for the ICU: Valid and Reliable Delirium Monitoring for Critically Ill Infants and Children. Crit Care Med. 2016; 44(3) 592-600.
  3. Ista E, Te Beest H, van Rosmalen J, de Hoog M, Tibboel D, van Beusekom B, van Dijk M. Sophia Observation Withdrawal Symptoms-Paediatric Delirium scale: A tool for early screening of delirium in the PICU. Aust Crit Care. 2017; S1036-7314 (17) 30283-7.
  4. Traube C, Silver G, Reeder RW, Doyle H, Hegel E, Wolfe HA, et al. Delirium in Critically Ill Children: An International Point Prevalence Study. Crit Care Med. 2017;45(4):584-90.
  5. Patel AK1, Biagas KV, Clarke EC, Gerber LM, Mauer E, Silver G, Chai P, Corda R, Traube C. Delirium in Children After Cardiac Bypass Surgery. Pediatr Crit Care Med. 2017 Feb;18(2):165-71.
  6. Schieveld JNM, Ista E, Knoester H, Molag ML. Pediatric Delirium: A Practical Approach. In: Rey, JM. (ed.), IACAPAP e-Textbook of Child and Adolescent Mental Health. Geneva: International Association for Child and Adolescent Psychiatry and Allied Professions; 2015.Disponível em: http://iacapap.org/wp-content/uploads/I.5-DELIRIUM-2015.pdf
  7. Sikich N, Lerman J. Development and psychometric evaluation of the pediatric anesthesia emergence delirium scale. Anesthesiology. 2004 May;100(5):1138-45.
  8. Janssen N, Tan EYL, Staal M, Janssen EPCJ, Leroy PLJM, Lousberg R, et al. On the utility of diagnostic instruments for pediatric delirium in critical illness: an evaluation of the Pediatric Anesthesia Emergence Delirium Scale, the Delirium Rating Scale 88, and the Delirium Rating Scale-Revised R-98. Intensive Care Med. 2011; 37: 1331-7.
  9. Traube C, Silver G, Kearney J, Patel A, Atkinson TM, Yoon MJ, et al. Cornell Assessment of Pediatric Delirium: a valid, rapid, observational tool for screening delirium in the PICU. Crit Care Med. 2014; 42 (3): 656-63.
  10. Smith HA, Boyd J, Fuchs DC, Melvin K, Berry P, Shintani A, et al. Diagnosing delirium in critically ill children: Validity and reliability of the Pediatric Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit. Crit Care Med. 2011;39(1):150-7.
  11. Molon ME, Castro REV, Foronda FAK, Magalhães-Barbosa MC, Robaina JR, Piva JPP, Garcia PCR, Prata-Barbosa A, Cheniaux E, Smith HAB. Tradução e adaptação transcultural para o Brasil do Pediatric Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit para detecção de delirium em unidades de terapia intensiva pediátrica. Rev Bras Ter Intensiva. 2018;30(1):71-79.
  12. Silver G, Traube C, Kearney J, Kelly D, Yoon MJ, Nash Moyal W, et al. Detecting pediatric delirium: Development of a rapid observational assessment tool. Intensive Care Med. 2012; 38 (6): 1025-31
  13. Harris J, Ramelet AS, van Dijk M, Pokoma P, Wielenga J, Tume L, et al. Clinical recommendations for pain, sedation, withdrawal and delirium assessment in critically ill infants and children: an ESPNIC position statement for healthcare professionals. Intensive Care Med. 2016;42(6):972-86.

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