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Emergência a bordo de aeronaves: o que o médico deve saber?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Você embarca com destino a suas tão sonhadas férias até que… “Atenção, senhores! Algum médico a bordo? Precisamos com urgência de um atendimento!”. Eu ouvi esse anúncio quando estava no 5º período da Faculdade de Medicina. Torci para que tivesse um médico a bordo, mas não havia. Chamaram mais de três vezes algum profissional da saúde, até que me apresentei e havia um passageiro com dor torácica. O que fazer? Quais os insumos disponíveis? Quais as nossas obrigações éticas e legais?

Somos médicos em tempo integral e recentemente o Conselho Federal de Medicina lançou uma cartilha para que saibamos como agir nesta situação. É obrigação ética se apresentar para ajudar no atendimento do passageiro. O objetivo do documento é ajudar os profissionais na busca por um melhor desempenho técnico e ético, caso solicitados, contribuindo para uma qualificação mínima desse ato médico, feito até o momento de forma voluntária. A ideia é ajudar o médico a se familiarizar com os equipamentos disponíveis no ambiente de voo e os medicamentos preconizados pela legislação da Aviação Civil, que compõem os kits médicos de socorro obrigatórios nas aeronaves. Traremos nesse post um resumo dos principais pontos da cartilha.

Adaptações do organismo humano em ambiente hipobárico

O ambiente de voo é considerado hipobárico (baixa pressão atmosférica) e as adaptações do organismo humano decorrem das variáveis físicas vigentes na altitude de voo da cabine. Dentre elas, destacam-se: expansão dos gases e hipóxia.

Quando comparamos a saturação de oxigênio em pessoas saudáveis em diferentes altitudes, vemos que uma pessoa saudável que satura a 97% em altitude 0 pode saturar a 93% a 8.000 pés e a 78% a 15.000 pés.

Assim, até 3.048 metros (10 mil pés), as adaptações em organismos de indivíduos saudáveis são consideradas seguras e não há necessidade de suplementar oxigênio. Porém, deve-se sempre considerar que sinais e sintomas da hipóxia têm grande variação individual.

Equipamentos médicos a bordo

É importante que conheçamos o que temos disponível para usar em um voo durante uma emergência. Os kits médicos têm composição semelhante e são recomendados para voos domésticos, como também para roteiros internacionais.

Entre os itens que devem constar em cada kit médico, estão: equipamentos, insumos e medicamentos usados para uso analgésico, antipirético e antissepsia/curativo, assim como alguns empregados em urgências/emergências de problemas alérgicos, cardiovasculares, de ouvido/nariz/garganta, dermatológicos, endocrinológicos, gastrointestinais, ginecológicos, neurológicos/psiquiátricos, obstétricos, oftalmológicos, respiratórios e urológicos.

ATUAÇÃO DO MÉDICO EM VIAGEM E DO PESSOAL DE APOIO EM SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA A BORDO

A tripulação de cabine recebe treinamento obrigatório em suporte básico à vida, conforme diretrizes da American Heart Association, além de orientações sobre como manusear equipamentos de suporte. Mesmo que os tripulantes recebam treinamento para situações de emergência, a ajuda de passageiro médico a bordo pode ser solicitada em casos mais graves.

O exame físico do enfermo nem sempre é fácil, pois estamos em um ambiente diferente, com ruídos, baixa luminosidade, a falta de espaço da aeronave, entre outros fatores. Esse contexto prejudica a ausculta, sendo recomendada, portanto, a percussão.

A cartilha cita que as intercorrências médicas mais frequentes a bordo são a síncope vasovagal, seguida de problemas neurológicos, gastrointestinais e cardíacos. Portanto, o médico, ao atender uma emergência em voo, deve estar pronto para abordar estes tipos de patologia.

Possibilidade de pouso de emergência

O Comandante do voo tem a responsabilidade sobre a aeronave e decisões a respeito de mudança de rotas e pousos imediatos, o que na prática é complexo por diversos fatores (capacidade do aeroporto em receber a aeronave com segurança, terminal capaz de acomodar os passageiros e custo total da operação). Nesse contexto, o médico passageiro acionado para agir em emergência tem o importante papel de passar todas as informações ao comandante e, assim, atuar como seu consultor.

O paciente do meu voo estava sudoreico e pálido. Eu tinha algum pouco conhecimento de quem estava iniciando Semiologia e, apesar de não saber bem como agir, sabia que poderia haver algo grave. Estávamos bem próximos de pousar para próxima escala, e lá haveria uma equipe médica à espera do paciente. Após este episódio, fiquei me questionando sobre como deveria agir, como médica, nessas situações. Felizmente, esta cartilha reuniu grande parte das respostas às minhas perguntas.

Para mais informações sobre os insumos disponíveis e como abordar via aérea em voos, acesse a cartilha em: http://portal.cfm.org.br/images/PDF/cartilhaaeroespcaial2018.pdf.

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