Página Principal > Colunistas > Enurese em crianças: guia prático para profissionais da atenção primária
medica usando tablet

Enurese em crianças: guia prático para profissionais da atenção primária

Tempo de leitura: 3 minutos.

A enurese é uma entidade altamente prevalente, mas pouco diagnosticada. Mesmo em pacientes com diagnóstico, pode ser subestimada e conduzida de forma inadequada durante acompanhamento na atenção primária.

Conceitos iniciais

A enurese é preocupante a partir da faixa etária dos 5 anos de idade, podendo ser primária (paciente nunca apresentou controle esfincteriano prévio) ou secundária (paciente com perda do controle esfincteriano). Além disso, pode ser classificada em monossintomática (apenas a enurese como sintoma) ou não-monossintomática (paciente apresenta outros sintomas no período do dia, como frequência miccional aumentada, urgência urinária ou incontinência urinária durante o dia, além da enurese).

Causas da enurese

A enurese não-monossintomática pode apresentar inúmeras causas, ocorrendo devido a disfunções vesicais específicas. A enurese monossintomática pode ser atribuída a:

– Volumes miccionais máximos pequenos, ou < 65% do que a capacidade vesical prevista para a idade ((idade + 1) x 30 mL);
– Volume de produção noturna urinária aumentado, ou maior que 130% da capacidade vesical prevista para a idade (poliúria noturna);
– Incapacidade de despertar devido a uma bexiga cheia.

Diagnóstico

A diferenciação entre a enurese não-monossintomática e a monossintomática pode ser realizada através da presença ou ausência das seguintes situações: perda de urina nas roupas íntimas antes da micção, depois da micção; roupas íntimas muito úmidas; perda urinária contínua ou intermitente diária; história de incontinência urinária durante o dia a partir de 3,5 anos de idade; frequência urinária de > 8 vezes ao dia; frequência urinária de < 3 vezes ao dia; necessidade urgente e repentina de urinar; manobras de retenção urinária; necessidade de esforço para urinar; jato urinário interrompido ou vários jatos um após o outro; história de infecção do trato urinário; doenças ou malformações renais ou da medula espinhal; constipação.

Na presença de resposta sim para qualquer uma dessas perguntas, o paciente tem provável enurese não-monossintomática e deve ser encaminhado para um centro especializado. A exceção é a constipação, que pode ser tratada para avaliação de resposta da enurese antes do encaminhamento.

Em pacientes com enurese monossintomática, uma segunda etapa diagnóstica pode ser realizada para avaliação do mecanismo fisiopatológico da enurese. Realizar dois diários de micção: um diurno (durante dois dias), avaliando a quantidade de urina em cada micção, excetuando a primeira urina da manhã, para avaliação do volume miccional máximo; e outro noturno (durante sete noites), para avaliação da urina produzida à noite, contabilizando todas as diureses noturnas e a primeira diurese da manhã.

Conhece a nossa seção de condutas em Pediatria do Whitebook? Clique aqui para baixar grátis o aplicativo #1 do médico brasileiro!

Tratamento

O tratamento da enurese não-monossintomática deve ser feito de acordo com a causa de base e realizado preferencialmente em centro especializado. A enurese monossintomática pode ser tratada inicialmente pelo profissional da atenção primária, e depende da fisiopatologia identificada durante o diagnóstico.

Poliúria noturna pode ser manejada com uso de desmopressina 120 µg/dia ou 200 µg/dia (comprimido). Em casos de falha terapêutica com essas doses, o paciente deve ser encaminhado para centro especializado. Não está indicado aumento da dose na atenção primária.

Pacientes com volumes miccionais máximos pequenos podem se beneficiar com o uso de alarmes de enurese. As famílias devem se comprometer com esse tratamento e a aderência deve ser monitorada. Em ambas as situações, deve ocorrer a adequação da ingestão de líquidos durante o dia, com restrição hídrica antes de dormir.

Lembrando que em alguns casos de enurese monossintomática o tratamento pode apresentar falhas e comorbidades no sono e psicológicas podem estar implicadas na fisiopatologia.

Autora:

Referências:

  • Enuresis: practical guidelines for primary care. Johan Vande Walle, Soren Rittig, Serdar Tekgül, Paul Austin, Stephen Shei-Dei Yang, Pédro-José Lopez, Charlotte Van Herzeele. Br J Gen Pract 22 May 2017; bjgp17X691337. DOI: 10.3399/bjgp17X691337

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.