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mulheres praticando ioga

Ioga pode trazer melhora nos sintomas da asma e na qualidade de vida dos pacientes?

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Asma é uma doença inflamatória crônica, caracterizada por hiper-responsividade das vias aéreas inferiores e limitação variável ao fluxo aéreo, reversível espontaneamente ou com tratamento. Resulta de uma interação entre fatores genéticos e exposição ambiental, entre outros fatores específicos, o que leva ao desenvolvimento e à manutenção dos sintomas.

Além da disfunção fisiológica, resultando nos sintomas característicos – sibilos, tosse seca, opressão torácica, dispneia -, o paciente asmático pode conviver com diferentes formas de estresse psicológico, como depressão, ansiedade e desordens emocionais. Crises de asma estão associadas a episódios de pânico e ansiedade e podem afetar o bem-estar e o estilo de vida dos pacientes, interferindo em atividades diárias essenciais, como convívio social e ocupacional. É prudente, então, que o paciente asmático busque alternativas que possibilitem um estado de humor e emocional com mínimas oscilações, com foco no autoconhecimento e na qualidade de vida.

O interesse por terapias complementares à medicina tradicional cresceu muito nas últimas décadas. Como uma forma holística de terapia, a ioga integra movimentos, posturas e meditação, através de um conjunto de práticas de disciplinas físicas, mentais e espirituais. Somente nos EUA, o número de praticantes chega a 21 milhões, enquanto no mundo estima-se 200 milhões de praticantes, segundo a UNESCO. Em março deste ano, a ioga foi incluída no Programa Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Ministério da Saúde. No meio acadêmico e científico a preocupação é em trazer evidências que possam demonstrar sua real aplicabilidade para a prática de saúde.

Acredita-se que a ioga poderia trazer benefícios para o paciente asmático. A primeira explicação é relacionada ao padrão respiratório. Um dos gatilhos que podem desencadear uma crise de asma é a passagem de ar friccionando e danificando a parede muscular lisa das vias aéreas, o que resultaria na degranulação de mastócitos. Alguns estudos mostram que há uma redução no volume corrente e na frequência respiratória de praticantes de ioga, o que poderia interferir nesse mecanismo desencadeante.

Além disso, os exercícios respiratórios praticados, assim como a meditação, poderiam ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade e trazer maior auto-consciência ao paciente, além de prover um estado de relaxamento e de bem-estar que poderiam reduzir fatores de excitação autonômica. Algumas posturas da ioga parecem auxiliar na expansão da caixa torácica, aumentando o tempo de pausa respiratória assim como a capacidade vital pulmonar, isso pode trazer algum benefício na função pulmonar de pessoas com asma.

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Foi realizada uma revisão sistemática pela Cochrane, resultando em 15 estudos randomizados com controle, incluindo 1.048 pacientes, comparando a ioga com terapia convencional ou nenhuma terapia e ioga com placebo. A prática de ioga trouxe melhora na qualidade de vida, em média por 0,57 unidades em cada item de uma escala de sete pontos no Asthma Quality of Life Questionnaire (IC 95%, 0.37 – 0.77), onde mudanças de no mínimo 0,5 unidades são consideradas estatisticamente significativas.

Além disso, trouxe melhoras em relação aos sintomas (teste da diferença das médias [DM] 0,37; IC 95%, 0,09 – 0,65), apesar de não estar bem estabelecido nenhuma diferença mínima clinicamente importante para a escala usada nessa avaliação. Ioga trouxe redução no uso de medicações (RR = 5.35; IC 95%, 1.29 – 22.11), entretanto, as medicações avaliadas variaram entre os estudos, e dois estudos que não foram incluídos nesta revisão demonstraram nenhuma diferença no uso de medicamentos.

A prática tem um efeito misto na avaliação dos parâmetros da espirometria. Apesar de não haver benefício no volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1), parece trazer alguma melhora no pico de fluxo expiratório (peak flow) e na capacidade vital forçada (CVF), entretanto não houve nenhum efeito sobre a relação VEF1/CVF. Quatro dos estudos presentes nesta revisão observaram os efeitos adversos, porém adquiriram informações insuficientes para chegar conclusões específicas.

Os autores observaram que, apesar das diferenças significativas na qualidade de vida, nos sintomas e em alguns parâmetros de espirometria, o alto risco de viés e heterogeneidade nos estudos incluídos limitava conclusões firmes sobre o papel do ioga no cuidado de pacientes com asma.

Estudos como esse são importantes de serem realizados pois trazem informações para as terapias ditas alternativas ou complementares à medicina tradicional ocidental, tornando sua aplicação na prática baseada nas evidências mais relevantes. Apesar das características limitantes dos estudos já realizados sobre seu papel na asma, a Ioga apresenta efeitos adversos mínimos e diversos benefícios na saúde, o que pode ser interpretado como uma possível terapia adjuvante à farmacoterapia habitual com potencial de mudança de risco ambiental nos pacientes com asma.

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Referências:

  • Aaron, S. Effects of Yoga in Patients with Asthma. Am Fam Physician. 2017 Aug 1;96(3):159-160. Yang ZY, Zhong HB, Mao C, et al. Yoga for asthma. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(4):CD010346.

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