Terapia Intensiva

Lições de vida após uma carreira na terapia intensiva: o que J. Randall Curtis nos ensina

Tempo de leitura: 4 min.

Em março de 2021, o professor J. Randall Curtis recebeu o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença neurodegenerativa que afeta o neurônio motor. Como sabemos, a ELA tem natureza progressiva, cursando com atrofia muscular progressiva e, em formas mais graves, paralisia bulbar progressiva.  

Randy Curtis, como também é conhecido, é intensivista e tem se dedicado nos últimos 30 anos a pesquisas no campo da terapia intensiva, cuidados paliativos, cuidados de fim de vida, desenvolvimento de estratégias que facilitem a comunicação entre pacientes com doença grave e equipe clínica, além de áreas como estresse pós-traumático de familiares e pacientes. Atualmente, é professor da Universidade de Washington, Seattle (EUA) e diretor do Centro de Excelência em Cuidados Paliativos na mesma universidade. Bastante ativo no Twitter no @JRandallCurtis1.  

 Estamos falando de um intensivista e pesquisador ativo na área de cuidados paliativos e doenças terminais, respeitado por toda comunidade científica da terapia intensiva. Paradoxalmente, estamos falando também agora de um colega médico que está do outro lado da moeda que sempre pesquisou: “quando curar não é possível, alivie o sofrimento”.

Lições de vida após uma carreira na terapia intensiva 

No dia 08 de novembro, o Prof. Randy Curtis publicou na Intensive Care Medicine uma valiosa reflexão sobre seu momento: “Life Lessons after a career in intensive care medicine”. O texto carrega consigo lições para a vida sob a ótica de quem se dedicou à profissão, carreira, pacientes e família, durante todos esses anos e que, nesse momento, encara uma doença grave.  

Randy Curtis explica que seu principal interesse na terapia intensiva vem do privilégio de cuidar dos pacientes e das famílias no momento mais difícil das suas vidas, tentando identificar maneiras para ajudá-los em vários aspectos: físicos, psicológicos, sociais e espirituais. Este aspecto, inclusive, é considerado por ele seu principal motivador para sua carreira de pesquisador: encontrar, baseado em evidências, as melhores formas de se comunicar e ajudar pacientes graves e suas famílias, durante a após a doença grave.  

Através de três lições, Prof. Randy Curtis nos mostra seus principais aprendizados diante da sua situação atual.  

Primeira lição: trabalhe com pessoas que você goste e, até mesmo, ame.  

De acordo com o professor, as memórias do trabalho com seus colegas são as recompensas mais valiosas da sua carreira. Sempre que possível, recomenda que você se cerque das pessoas que gosta no seu ambiente de trabalho.  

Segunda lição: tire momentos sabáticos. Recarregar é preciso. 

O período sabático permite a oportunidade de ter tempo para recarregar e espaço para se reconectar com quem você ama e com o que você faz. Permite também pensar de forma criativa sobre seu trabalho.  

Terceira lição: priorize sua família.  

Como família, ele explica que são aqueles que você mais ama, sendo família biológica ou por escolha.  

Lição Final: viva todos os dias como se você tivesse uma doença terminal!

Foque naquilo que é mais importante para você.  

Ele explica que jamais gostaria de ter iniciado o quadro de ELA. Mas, após o desenvolvimento da condição, se permitiu focar naquilo que é mais importante para si próprio. Em vários momentos da sua carreira, poderia ter seguido esse conselho. No entanto, classificou coisas demais como “importantes”, se tornando incapaz de realmente focar nas que mais importavam.  

 A ELA não o fez aumentar a capacidade de focar mas mostrou o quão limitado seu tempo é. A força para focar no que mais importa surgiu nesse cenário. No entanto, o mesmo admite: essa força sempre existiu, mas por vezes escolheu não usar. Por fim, o conselho que fica é: encontre a força para garantir o foco naquilo que mais importa. Não podemos aguardar uma doença terminal para encontrá-la.

Leia também: Cultivando a noção prognóstica em cuidados paliativos

Visão pessoal

As reflexões expostas pelo prof. Randy Curtis são muito valiosas e minha análise carrega consigo um forte “viés” pessoal. Meu pai é portador de esclerose lateral amiotrófica, mesma doença do professor. Convivemos com a doença há 11 anos. O diagnóstico veio aos seus 54 anos. Impossível não tirar lições do desafio pessoal e emocional que é ter um ente querido em situação de doença grave e terminal.  

Diagnósticos de doenças terminais afetam não apenas o paciente mas todos que o cercam. Ao analisar o legado do Prof. Curtis, percebi que seu principal objeto de pesquisa era justamente a facilitação da comunicação e suporte ao paciente e familiares no campo físico, psicológico e espiritual, no contexto da doença grave. Precisamos nos atentar para isso ao lidar com uma doença grave/terminal. A sensibilidade ao comunicar e acolher paciente e família em um momento como este é crucial para a estabilidade emocional de todos envolvidos e, principalmente, para ajudar a amenizar o sofrimento intenso inerente.

O legado do Prof. Randy Curtis na pesquisa reflete uma característica importante para qualquer profissional de saúde: a arte de cuidar vai além do diagnóstico e tratamento. Envolve desde a forma como você se comunica à forma como você acolhe.  

Mensagem final

A publicação finaliza com o seguinte parágrafo: 

“As lições acima não têm a intenção de serem abrangentes ou universais para todos. Elas são um pouco das minhas lições mais valiosas a partir da minha carreira na terapia intensiva. Eu as compartilho agora, acreditando que podem ajudar outras pessoas.” Randall Curtis.

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Publicado por
Filipe Amado

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