Metformina pode auxiliar na prevenção e tratamento da pré-eclâmpsia

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A metformina está em toda parte. Originalmente introduzida na prática clínica como uma droga para tratamento de diabetes mellitus, seu papel está se expandindo e incluindo o tratamento de diabetes gestacional, resistência insulínica, síndrome dos ovários policísticos e, mais recentemente, de acordo com estudos experimentais, tanto no tratamento quanto na prevenção de pré-eclâmpsia.

A pré-eclâmpsia afeta de 5 a 7% das gestações e é a principal causa de morbimortalidade materna, o que implica altos custos ao sistema de saúde.

Há tempos já se acreditava que a pré-eclâmpsia era causada pela liberação de fatores tóxicos, daí o nome “toxemia”. Hoje já se sabe que um aspecto importante na fisiopatologia desta condição são os fatores antiangiogênicos que são liberados pela placenta isquêmica, como o sFLT-1 e endoglina solúvel. Esses peptídeos causam disfunção endotelial que levam a injúria de diversos órgãos. Eles começam a aumentar no soro materno meses antes que a pré-eclâmpsia fique evidente, logo, são considerados biomarcadores da doença.

Brownfoot e colaboradores da Universidade Melbourne, Austrália, fizeram um estudo onde sugere que a metformina tenha um papel na prevenção da pré-eclâmpsia.

Veja também: ‘Metformina: menor mortalidade em pacientes com insuficiência cardíaca, renal e hepática’

Foram realizados experimentos onde administraram metformina em tecidos humanos e avaliaram os efeitos na secreção de Sflt-1 e endoglina solúvel na função da cadeia de elétrons mitocondrial e na disfunção endotelial. Para os experimentos, utilizaram biópsias de placentas de mulheres com diagnóstico prévio de pré-eclâmpsia (hipertensão e proteinúria acima de 300mg na coleta de urina de 24h) e que foram submetidas a cesariana. O grupo controle foram biópsias de placentas de mulheres que estiveram normotensas durante a gestação, sem comorbidades e sem evidências de corioamnionite.

Os experimentos in vitro demonstraram que a metformina reduziria a secreção de sFLT-1 e de endoglina solúvel das células endoteliais e da placenta, através da inibição da cadeia de elétrons mitocondrial. O estudo sugere que as pacientes com pré-eclâmpsia teriam a cadeia de elétrons mitocondrial desregulada com um aumento em sua atividade. Assim, a metformina teria efeito angiogênico.

Outro achado do estudo foi que a metformina reduziria a expressão de VCAM-1 (molécula de adesão celular) nas células endoteliais, sugerindo que a droga diminuiria a disfunção endotelial.

O estudo demonstrou que a metformina reduz a disfunção endotelial específica da pré-eclâmpsia e melhora a angiogênese. Assim, a metformina pode ser uma nova prevenção ou terapêutica para a pré-eclâmpsia e tem potencial para reduzir o ônus dessa grande complicação de gravidez, já que é uma droga segura na gestação.

Contudo, vale ressaltar que foi um estudo in vitro, e apesar de promissor, há a necessidade de ensaios clínicos que comprovem esses resultados in vivo.

Mais da autora: ‘Cesariana: trocar as luvas antes do fechamento abdominal reduz em quase 50% a taxa de infecção da ferida operatória’

Autora:

Referências:

  • Brownfoot FC, Hastie R, Hannan NJ, Cannon P, Tuohey L, Parry LJ, Senadheera S, Illanes SE, Kaitu’u-Lino T’uJ, Tong S, Metformin as a prevention and treatment for preeclampsia: Effects on soluble fms-like tyrosine kinase 1 (sFlt-1) and soluble endoglin secretion, and endothelial dysfunction, American Journal of Obstetrics and Gynecology (2016), doi: 10.1016/j.ajog.2015.12.019.
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Publicado por
Camila Ramos

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