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Novas perspectivas para o médico do esporte no futebol feminino

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O futebol é o esporte que possui maior significância e representatividade no Brasil. A expressão feminina dessa modalidade, apesar de não possuir a mesma popularidade, tradição e investimentos, vem crescendo de forma exponencial. Novas regras foram estipuladas pela Confederação Sulamericana de Futebol (CONMEBOL) que passam a vigorar a partir de 2019, apoiando esse crescimento.

As divergências na modalidade superam as questões pertinentes a investimentos, aspectos sociais, midiáticos e psicológicos que permeiam o futebol masculino e feminino. Há, também, questões táticas, técnicas, físicas, antropométricas, bioquímicas, fisiológicas e, por conseguinte vão delinear características específicas da atleta de futebol feminino e suas lesões.

As lesões são consequências das atividades esportivas e variam entre atletas da iniciação ao alto rendimento. Nosso foco principal será no alto rendimento, com ênfase em aspectos da preparação física, carga de treinos, controles fisiológicos, nutricionais, psicológicos, posturais e biomecânicos. As lesões musculoesqueléticas são predominantes, corroborando com os achados no futebol masculino (M. COHEN et al, 1997).

Leia mais: Lesões no futebol moderno: o que as evidências indicam

É consenso que o futebol arte tem sido substituído por um futebol força, com aumento das exigências físicas: jogos mais intensos, treinos envolvendo campos reduzidos, capacidade de aceleração rápida, alta velocidade de corrida, boa habilidade para saltar, força explosiva dos músculos de membros inferiores, resistência de velocidade. Aliado a essas exigências, há aumento do número de jogos e de horas dedicadas às sessões de treinamentos (LEITE e NETO, 2003). Esse cenário favorece o incremento estatístico de lesões ortopédicas traumáticas e por overuse.

Em relação ao tipo de lesão é consenso que predomina nos membros inferiores, conforme dados de COHEN e ABDALLA (1997), SOARES (2007), SANTOS (2010). Dentre as lesões ortopédicas, as lesões musculares apresentam maior tempo de afastamento que as lesões traumáticas (SOARES, 2007).

Massada concluiu em seu estudo que os músculos mais susceptíveis a lesões são os biarticulares, como isquiotibiais e quadríceps.

Outra perspectiva significativa a ser descrita nesse trabalho é a análise biomecânica da mulher atleta, com diferentes ajustes ao chute inerentes de pisada, valgismo, características do quadril e de composição corporal. Há evidências na literatura sugerindo que, durante a desaceleração de movimentos esportivos, as mulheres apresentam menores ângulos de flexão do joelho no contato inicial com o solo e nos valores máximos de amplitude de movimento, além de possuírem ativação eletromiográfica aumentada do quadríceps e reduzida dos isquiotibiais quando comparadas aos homens (BALDON et al, 2011).

É importante ressaltar que a alta potência aeróbica e uma elevada capacidade de utilização do oxigênio (limiar ventilatório, LV2) são preditores de um bom rendimento do organismo para tolerar a longa duração dos jogos, com maior eficiência do movimento e menor risco de lesão.

No alto desempenho as atletas sofrem diferentes tipos de pressão. Essas se estendem no ambiente de competição, oriundos especialmente da comissão técnica, mas também de seu ambiente familiar. Esse cenário pode fazer com que a atleta, se não preparada psicologicamente, desenvolva alto nível de estresse e reduza seu desempenho esportivo. Pode-se criar aumento de tensão muscular, déficit de atenção e aumento do risco de lesões (ROSSI et al, 2016).

Em consonância às questões citadas acima, os fatores hormonais desempenham importante aspecto na mulher atleta. Estudos apontam que esses hormônios sexuais podem apresentar influência sobre os neurotransmissores como GABA, serotonina e glutamato, via ação nos receptores de membrana, sendo capazes de influenciar diferentes regiões cerebrais com alteração da percepção sensorial e respostas motoras. Em adição, sugere-se que o estrogênio e a progesterona apresentam influência sobre funções fisiológicas como a capacidade aeróbia e anaeróbia, alteração em tecidos moles, força muscular, propriocepção, coordenação neuromuscular e controle postural (KAMI et al, 2017).

Já o perfil antropométrico da mulher difere do homem, especialmente na localização da gordura corporal e composição. Garret e colaboradores (2003) defendem valores de 8% a 12% para o sucesso no futebol masculino. Ramos (2018) em seu estudo exibiu resultados do percentual de gordura (%G) médio das atletas da seleção brasileira de futebol feminino, sendo as categorias U17 e U 20 de 14% e Sênior 13%. Esses resultados diferem estatisticamente do masculino, conforme contextualiza Berto e Magalhães (2014) que apontam %G entre 6,5 e 12,7%.

O futebol feminino, portanto, é uma modalidade em expansão no Brasil. De acordo com as atuais regras da CONMEBOL e FIFA ,cria-se um novo mercado aos profissionais. Entender as características da modalidade é primordial para se engajar nesse contexto.

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Autor:

Flávia Costa Oliveira Magalhães

Possui graduação em Nutrição pelo Centro Universitário Newton Paiva (2004) e graduação em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008). Tem experiência na área de Medicina e Nutrição, com ênfase em Medicina e Nutrição Esportiva. Título de Especialista em Medicina do Exercício e do Esporte, Nutrição Esportiva, Ciências do Futebol e Fisiologia do Exercício. Título de Oficial de Controle de Doping pela ABCD e USADA. Atuação: Médica e Nutricionista no Clube Atlético Mineiro por 10 anos; Atuou como Coordenadora Estadual do Controle de Dopagem da Confederação Brasileira de Vôlei; Atuou como Médica Assistente de Viagem da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Desde 2014 faz parte da equipe de médicos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – Seleção Feminina.

Referências:

  • Aline Tiemi Kami , Camila Borecki Vidigal , Christiane de Souza Guerino Macedo. Influence of menstrual cycle phases in functional performance of healthy and young women, 2017.
  • Berto , E.S.M, Magalhães, F.C.O, COMPOSIÇÃO CORPORAL DE GOLEIROS DAS CATEGORIAS DE BASE DA ELITE DO FUTEBOL MINEIRO. Revista Brasileira de Futsal e Futebol, São Paulo. v.6. n.20. p.95-101. Maio/Jun./Jul./Ago. 2014. ISSN 1984-4956.
  • COHEN, M; ABDALLA, R.J; EJNISMAN, B; AMARO, J.T; Lesões Ortopédicas no futebol. Revista Brasileira de Ortopedia, Dezembro de 1997. Disponível em: http://www.rbo.org.br/materia.asp?mt=336&idIdiom a=1. Acesso em: 31 mar 2017.
  • GUILHERME P. RAMOS, FÁBIO Y. NAKAMURA, EDUARDO M. PENNA , Carolina Franco Wilke, LUCAS A. PEREIRA , IRINEU LOTURCO , LUCIANO CAPELLI , FÁBIO MAHSEREDJIAN , EMERSON SILAMI-GARCIA , CÂNDIDO C. COIMBRA. Activity profiles in U17, U20 and senior women’s Brazilian National soccer teams during international competitions: Are there meaningful differences? Match activity of top-level female soccer players.
  • LEITE, C.B.S; NETO, F.F.C; Incidência de lesões traumato-ortopédicas no futebol de campo feminino e sua relação com alterações posturais. Revista Digital – Buenos Aires – Ano 9 – N° 61 – Junho de 2003.
    Matheus Rizzato Rossi. ESTRATÉGIAS DE COPING EM ATLETAS DE FUTEBOL FEMININO: ESTUDO COMPARATIVO, 2016.
  • Rodrigo de Marche Baldon, Daniel Ferreira Moreira Lobato, Lívia Pinheiro Carvalho, Paloma Yan Lam Wun, Fábio Viadanna Serrão. Biomechanics differences between genders and its role in the knee injuries, 2011.

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