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Perfil epidemiológico da raiva humana no Brasil

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Raiva é uma zoonose que possui virtualmente 100% de letalidade uma vez que os sintomas se manifestem. A transmissão ocorre por meio de contato com saliva de mamíferos infectados, sendo gatos, cachorros e morcegos os mais frequentemente associados. A vacinação de animais domésticos tem mudado a epidemiologia da transmissão, determinando uma maior participação de animais silvestres nos casos notificados.

Segundo uma revisão recente, entre os anos 2000 e 2017, ocorreram 188 casos de raiva humana no Brasil, sendo a maioria em homens (66,5%) e em moradores de áreas rurais (67%). Embora as idades tenham variado de 1 a 82 anos, o grupo mais afetado foi o de menos de 15 anos de idade (49,6%). Mordidas de animais foram a exposição mais comum, atingindo principalmente múltiplas áreas do corpo (21,2%), pés (20,2%) e mãos (17%). A maior parte das notificações ocorreu no Nordeste, sendo os estados do Maranhão, Pará e Ceará os com maior número de casos.

Sessenta e oito casos (36,2%) ocorreram na região da Amazônia Legal, todos em regiões rurais e associados a morcegos.

A maior parte dos casos ocorreu entre os anos de 2000 e 2008, com 46,6% envolvendo cachorros e 45,9% envolvendo morcegos. Já entre os anos de 2009 e 2017, dos 27 casos notificados, 40,7% envolveram cachorros, 29,6% envolveram morcegos, 14,8% envolveram macacos e 11,1%, gatos. Nesses últimos, a variante viral detectada era compatível com a encontrada em morcegos.

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Raiva: apresentação clínica e profilaxia

Em relação aos sinais e sintomas, os mais frequentemente relatados foram: febre (92,6%), agitação (85,2%), parestesia (66,7%) e disfagia/paralisia (51,9%). Outros sintomas descritos foram: hidrofobia, aerofobia, vômitos, dificuldade de marcha, sialorreia, cefaleia, dor local, alucinações e fotofobia. O período de incubação foi de 50 dias em média, sendo menor nos casos associados a morcegos (16-244 dias, com média de 39 dias) do que nos associados a cachorros (11-290 dias, com média de 57 dias).

Leia também: Dia Mundial da Raiva: saiba como prevenir contaminação

Dos casos notificados, 70,2% não receberam profilaxia e 29,6% receberam profilaxia de forma inadequada ou incompleta. Desde 2008, 13 casos de raiva humana foram tratados no Brasil com o chamado Protocolo de Recife, com sobrevivência de dois pacientes, com sequelas neurológicas. Esses dados mostram que, apesar do desenvolvimento de protocolos de tratamento, a vacinação de animais domésticos e profilaxia adequada e precoce ainda são as maiores ferramentas no combate à doença.

A recomendação de profilaxia é baseada principalmente na espécie animal envolvida e na classificação do tipo de acidente em leve ou grave. Vale ressaltar que acidentes envolvendo morcegos ou outros animais silvestres são considerados graves independente das características dos ferimentos e possuem indicação de soro/imunoglobulina e vacinação em todos os casos.

  • Acidentes leves: ferimentos superficiais pouco extensos, geralmente únicos, em tronco e membros (exceto mãos, polpas digitais e planta dos pés). Podem acontecer em decorrência de mordeduras ou arranhaduras, causadas por unha, dente ou lambedura de pele com lesões superficiais;
  • Acidentes graves: ferimentos na cabeça, face, pescoço, mão, polpa digital e/ou planta do pé. Ferimentos profundos, múltiplos ou extensos, em qualquer região do corpo, lambeduras de mucosa ou de locais onde já existe lesão grave, ou ferimentos profundos causados por unha de animal também são considerados graves.
    Sendo assim, o esquema recomendado de profilaxia pós-exposição com vacina IM é o seguinte:
Animal envolvido Acidentes leves Acidentes graves
Cão ou gato sem suspeita de raiva Lavar local com água e sabão;
Observar o animal por 10 dias:
– caso permaneça sadio, encerrar o caso
– caso morra, desapareça ou torne-se raivoso, aplicar 4 doses de vacina (0, 3, 7 e 14)
Lavar local com água e sabão;
Iniciar esquema profilático com 2 doses (0 e 3 dias);
Observar o animal por 10 dias:
– caso permaneça sadio, encerrar o caso
– caso morra, desapareça ou torne-se raivoso, completar esquema com mais 2 doses de vacina, uma entre o 7º e 10º dia e outra no 14º dia, e administração de soro antirrábico
Cão ou gato com suspeita clínica de raiva Lavar local com água e sabão;
Iniciar esquema profilático com 2 doses (0 e 3 dias);
Observar o animal por 10 dias:
– caso a suspeita seja descartada, interromper esquema e encerrar o caso
– caso morra, desapareça ou torne-se raivoso, completar esquema com mais 2 doses, sendo uma entre o 7º e o 10º dia e outra no 14º dia
Lavar local com água e sabão;
Iniciar imediatamente esquema profilático com soro e 4 doses de vacina antirrábica (0, 3, 7 e 14);
Observar o animal por 10 dias:
– caso a suspeita seja descartada, suspender esquema e encerrar o caso
– caso morra, desapareça ou torne-se raivoso, completar esquema com última dose de vacina no D14
Cão ou gato raivoso, desaparecido ou morto Lavar local com água e sabão;
Iniciar imediatamente esquema profilático com 4 doses de vacina antirrábica (0, 3, 7 e 14)
Lavar local com água e sabão;
Iniciar imediatamente esquema profilático com soro e 4 doses de vacina (0, 3, 7 e 14)

A vacina antirrábica deve ser administrada por via IM nos músculos deltoide ou vasto lateral da coxa, não devendo ser aplicada no glúteo. Nos casos em que há indicação de soro (SAR)/imunoglobulina (IGAR), a maior quantidade possível deve ser utilizada para infiltrar as lesões. Se não for possível utilizar toda a dose recomendada, a quantidade restante deve ser aplicada por via IM em região diferente da aplicação da vacina. Caso o paciente apresente-se tardiamente para administração do SAR/IGAR, a dose pode ser administrada em até 7 dias da primeira dose de vacina. Depois desse prazo, não há mais indicação de seu uso.

Outras considerações:

  • Profilaxia pré-exposição é recomendada para biólogos, médicos veterinários, profissionais de laboratório de virologia e anatomopatologia para raiva, estudantes de Medicina Veterinária, Zootecnia, Agronomia, Agrotécnica e áreas afins, espeleólogos, guias de ecoturismo, pescadores e outros profissionais que trabalhem em áreas de risco e pessoas que atuem na captura, contenção, manejo, coleta de amostras, vacinação, pesquisas, investigações epidemiológicas, identificação e classificação de mamíferos domésticos, de produção ou silvestres;
  • A profilaxia pré-exposição também é uma opção para viajantes que irão para áreas de risco ou que farão atividades com maior risco de exposição à raiva, como safáris. Nesses casos, recomenda-se procurar um profissional de Medicina de Viagem para avaliação do risco individual;
  • Alguns animais urbanos ou de criação, como ratazanas de esgoto, ratos de telhado, camundongos, cobaias, porquinhos-da-índia, hamsters e coelhos, são considerados de baixo risco e acidentes por eles causados não necessitam de profilaxia.

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Autor:

Referências bibliográficas:

  • Vargas, A, Romano, APM, Merchán-Hamann, E. Human rabies in Brazil: a descriptive study, 2000-2017. Epidemiol. Serv. Saude, Brasília, 28(2):e2018275, 2019
  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Normas técnicas de profilaxia da raiva humana / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Nota Informativa nº 26-SEI/2017-CGPNI/DEVIT/SVS/MS. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/agosto/04/Nota-Informativa-N-26_SEI_2017_CGPNI_DEVIT_SVS_MS.pdf

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