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Probióticos: o que esperar quanto à eficácia e segurança?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Segundo a ANVISA, os probióticos são “microrganismos vivos capazes de melhorar o equilíbrio microbiano intestinal produzindo efeitos benéficos à saúde do indivíduo”. Não é de hoje que a ingestão de culturas de microrganismos vivos para tratar uma série de condições de saúde vem sendo feita para a população, por meio de alimentos como iogurte, queijo e chucrute.

No entanto, especialmente após o crescente número de estudos na área, os probióticos se tornaram muito populares, e vêm sendo comercializados não só em alimentos, mas também na forma de cápsulas e até mesmo em produtos de beleza por suas supostas propriedades benéficas, “funcionais” ou “probióticas”.

Leia mais: Qual é o papel dos probióticos na diarreia por antibióticos?

Sabemos que certos microrganismos vivos têm benefícios bem definidos, e o uso de cepas selecionadas de bactérias e leveduras pode ser indicado para tratar condições médicas específicas, como é o caso da levedura Saccharomyces boulardii, que reduz as taxas de diarreia associada a antibióticos em crianças, e pode diminuir as taxas de infecções recorrentes por Clostridium difficile em adultos, quando combinadas com antibióticos.

Entretanto, a maioria dos microrganismos usada ​​na produção de alimentos não tem benefícios comprovados à saúde, e sua segurança ainda não foi definida. A preocupação com o fato de a população estar aumentando o consumo desses produtos sem conhecimento da pouca eficácia e dos riscos a que pode estar se submetendo foi levantada por um artigo recentemente publicado no JAMA, cujo autor levanta as seguintes questões quanto ao uso de probióticos:

  • O uso mais óbvio de probióticos seria no tratamento de distúrbios gastrointestinais, porém resultados de estudos mostram que mesmo nessa situação sua aplicação é muito limitada, podendo apresentar benefícios apenas em situações muito específicas.
  • As revisões mostram que não há evidências suficientes para recomendar seu uso para tratar ou prevenir o eczema, trabalho de parto prematuro, diabetes gestacional, vaginose bacteriana, doenças alérgicas ou infecções do trato urinário. Os estudos que trazem esses achados chegaram a ser citados em uma publicação recente do The New York Times, em matéria intitulada The Problem With Probiotics.
  • A microbiota intestinal tem sido relatada como um dos potenciais determinantes da obesidade em estudos recentes, levantando a hipótese de que probióticos poderiam interferir na modulação do peso corporal. Entretanto, uma análise mais apurada dos estudos mostrou que os probióticos não foram eficazes para perda de peso.

Aumento progressivo das vendas: questão de marketing?

Apesar das indicações anunciadas em muitos produtos, estimulando o uso por crianças, adolescentes e adultos saudáveis, com objetivo de manter a função intestinal normal e melhorar a saúde cardiovascular, respiratória, imunológica, reprodutiva e até mesmo psicológica, não há ensaios clínicos grandes e de longo prazo comprovando benefícios clínicos para esta população.

Existem riscos no uso de probióticos?

Os consumidores não costumam estar cientes que suplementos probióticos também podem apresentar riscos, como infecções oportunistas e reações alérgicas, entre outros. Algumas preocupações se devem aos seguintes fatos:

  • Suplementos probióticos não precisam ser comprovadamente eficazes para serem comercializados
  • Os probióticos são menos regulados pelas autoridades sanitárias do que os medicamentos, e o controle de qualidade pode ser negligente
  • Ao contrário de outros alimentos ou ingredientes de drogas, os probióticos possuem o potencial de infectividade ou produção de toxinas in situ. Como numerosos tipos de micróbios são usados ​​como probióticos, a segurança também está intrinsecamente ligada à natureza do micróbio específico utilizado, o que em geral não é especificado em muitos produtos
  • Dadas as características infecciosas inerentes aos microrganismos que contêm, os suplementos probióticos podem representar riscos para certas pessoas, especialmente entre indivíduos imunocomprometidos ou crianças pequenas. Eventos adversos graves (como fungemia e bacteremia) foram descritos em dezenas de relatos de casos

Recente inspeção realizada em mais de 650 estabelecimentos que produzem suplementos alimentares pela Food and Drug Administration (FDA ) demonstrou que:

  • Mais de 50% dos produtos tinham violações, que incluíam a pureza, concentração e até mesmo composição do produto prometido.
  • Contaminação dos suplementos probióticos comerciais com microrganismos vivos não listados em seus rótulos também foi demonstrada, fato responsável inclusive pela morte de uma criança.
  • Pequenos estudos podem sugerir resultados animadores quanto a diversos possíveis efeitos benéficos à sáude, porém devemos lembrar que em estudos maiores os resultados não costumam ser reproduzidos.
  • Probióticos administrados em estudos são puros e cuidadosamente dosados, diferente dos produtos disponíveis nas prateleiras, onde é difícil saber o que está sendo comprado.

A prescrição e consumo de probióticos deveriam ser embasados nos dados de evidências científicas, mas isso raramente acontece. É importante que os consumidores entendam que apesar dos produtos encontrados nas prateleiras trazerem rótulos bem elaborados, eles não são adequadamente avaliados, e os resultados de seu consumo são desconhecidos.

Que medidas seriam necessárias para alcançar níveis de segurança para produtos com probióticos?

A total conformidade com os padrões de fabricação impostos pelas agências regulatórias para suplementos ajudaria a evitar contaminação por espécies indevidas de bactérias, porém ainda não garantiria a segurança dos suplementos probióticos.

Os riscos exclusivos que os probióticos podem representar, como o potencial de introduzir novos genes nos microbiomas dos consumidores, não têm sido levado em consideração para comercialização na maioria dos países. Particularmente preocupantes são os genes que podem conferir resistência aos antibióticos.

Microrganismos de alta qualidade com um longo histórico de segurança deveriam ser rotulados com precisão, e os rótulos só deveriam divulgar alegações de saúde se evidências clínicas robustas demonstrassem eficácia.

O atual quadro regulatório insuficiente, e a inconformidade dos fabricantes com as leis e regulamentações existentes, leva a concluir que os consumidores e os médicos não devem presumir que o rótulo dos suplementos probióticos forneça informações adequadas para determinar se o consumo do microrganismo vivo vale o risco.

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Autor:

Daniele Zaninelli

Graduada em Medicina pela UFPR (1998) ⦁ Especialização em Endocrinologia e Metabologia no HC/UFPR ⦁ Título de Especialista em Endocrinologia e Metabologia (2003) ⦁ Mestrado no Serviço de Endocrinologia e Metabologia pelo Departamento de Clínica Médica do HC/UFPR ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia / Membro da Endocrine Society

Referências:

  • Probiotic Safety—No Guarantees. JAMA Internal Medicine, Cohen, P.A. (Published online September 17, 2018)
  • Safety assessment of probiotics for human use. Gut Microbes. 2010 May-Jun; 1(3): 164–185.
  • Probiotics for weight loss: a systematic review and meta-analysis. Nutrition Research, 2015-07-01, Volume 35, Edição 7, Páginas 566-575.
  • The New York Times. The Problem with probiotics. www.nytimes.com/2018/10/22/upshot/the-problem-with-probiotics.html

Um comentário

  1. Excelente texto. Penso o mesmo.

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