Saúde Mental

Procrastinação e o adoecimento psíquico

Tempo de leitura: 4 min.

Você está lutando contra você mesmo? Precisa fazer algo no trabalho, na escola ou na faculdade e fica “empurrando com a barriga”? Você sofre com isso, deixando tudo pra cima na última hora? Muitas vezes você perde os prazos de entrega ou atrasa seus compromissos? É comum as pessoas ficarem bravas com esse comportamento. O interessante é que mesmo sabendo que a tarefa é importante a pessoa não consegue se concentrar e confeccioná-la. Esse é o fenômeno da procrastinação, que tem a capacidade de retirar a motivação, objetivo e foco de uma pessoa frente ao fazer de uma atividade. Sabemos que na vida, de acordo com a fase que estamos passando ou quando estamos realizando diversas tarefas, as coisas podem sair do controle. Podemos não conseguir realizar uma tarefa quando esta está entre muitas outras. Mas na procrastinação, uma única tarefa pode se tornar um pesadelo para a pessoa. 

Leia também: O caso Simone Biles: a importância do cuidado à saúde mental

Por quê se procrastina?

Muito comum no ambiente do trabalho e nas atividades escolares a procrastinação raramente se relaciona com a preguiça ou com pouca afinidade com o trabalho a se realizar, na verdade na maioria das vezes o assunto é de nosso interesse. Mas então, acontece porquê? Hoje sabemos que a procrastinação não pode ser explicada levando em consideração o tempo de entrega de atividades, como já foi no passado, onde relacionava-se a procrastinação a entrega de tarefas ligadas em curto espaço de tempo para sua realização. Hoje sabemos que a procrastinação se relaciona com nossas emoções. Algumas questões psíquicas se relacionam com a procrastinação como: sentimento de possibilidade de fracasso, perfeccionismo, ansiedade patológica, preocupação excessiva, medo de executar a tarefa de forma errada, etc. A procrastinação é a fuga da realização da tarefa, da objetividade de realizar uma atividade frente a qualquer dificuldade. 

Mas afinal, o que acontece com nosso corpo na procrastinação. Tudo isso tem a ver com a preocupação. Indubitavelmente nosso corpo reage frente a um problema. De forma positiva ou negativa temos que reagir frente aos acontecimentos da vida. Quando há uma reação mal adaptativa, ou seja, negativa, temos maior probabilidade de compreender um problema como uma ameaça. As reações cognitivas, emocionais e comportamentais, são alteradas frente à ameaça e o resultado disso é a redução do bem estar. A pessoa então, compreendendo o fenômeno como negativo, tem a tendência de adiar ou evitar lidar com esse problema. A preocupação tem relação direta com a procrastinação. A antecipação do fracasso leva a um quadro de ansiedade que provoca a paralisação da pessoa frente a realização da atividade ou do problema.  Para Branco, “a procrastinação tanto pode ser temporária como permanente. Quando permanente, é muitas vezes descrita como crônica e define-se pelo atraso propositado e frequente no início ou final de uma tarefa ao ponto de experienciar desconforto” (…) É importante compreender que em um contexto de rápidas transformações e muitas exigências por produtividade, a universidade tem constituído um espaço de adoecimento para estudantes e profissionais”.

Esse pode ser um dos problemas. Outro pode ser atribuído a questões diversas ligadas ao estresse anterior à realização de uma única tarefa. Devemos também compreender a vida pessoal e os aspectos relacionados à formação. Por exemplo, frente ao trabalho de conclusão de curso em cursos de formação, temos diversos episódios de procrastinação dos alunos e muito se relaciona ao fato de não saber elaborar o material e se cobrar por isso, muitas vezes gerando o sentimento de paralisação frente a realização da tarefa. Na verdade, todos nós já procrastinamos em algo. Afinal, quem nunca procrastinou uma tarefa difícil. Terminar um relacionamento amoroso, dar uma notícia difícil, contar a verdade para alguém ou dizer para o professor o que deseja. “Não sei fazer esta tarefa!”. O medo do julgamento ou a suposição de uma resposta muito negativa, também pode fazer a pessoa evitar de realizar um ato. Estamos ainda, aqui, falando da procrastinação. 

O que fazer?

Mas como podemos diminuir e nos cuidar para não ficar paralisados diante de tarefas de grande importância? Bom, vamos traçar algumas possíveis saídas para que não soframos com a procrastinação.

  • Planeje as atividades que necessitam ser realizadas, sempre enfatizando inicialmente aquelas que você possui mais dificuldade. É uma forma de enfrentar o problema.;

Solicite ajuda quando compreender que a tarefa seja de difícil realização. Muitas vezes na vida necessitamos de apoio dos nossos pares e isso deve ser feito no caso de procrastinação;

  • Compreenda quais são os agentes estressores e os que por gatilho geram ansiedade, para que você possa construir intervenções planejadas. É importante saber quais são as atividades de maior vulnerabilidade e potencialidades;
  • Diminua seu grau de exigência de si. Ser perfeito é impossível, mas buscar a melhor realização é um processo. Você pode melhorar a cada dia de acordo com o avanço progressivo no projeto ou da atividade;
  • Compreenda tudo que seja uma distração. Os “ladrões de atenção” fazem com que a pessoa fique mais vulnerável a procrastinar. Muitas pessoas trabalham com a internet ligada ou celular. Se puder, tente se concentrar;
  • Sempre divida as atividades e realize um procedimento por vez. Múltiplas tarefas podem gerar um estímulo maior que o desejado e necessário para a atividade. Por tanto, faça uma coisa de cada vez;
  • Liste as atividades por grau de importância, isso ajudará a priorizar as atividades por nível de importância;
  • Faça uma lista de tarefas diária e tente seguir. Listas de tarefas semanais e mensais podem ajudar. Alinhe os objetivos em níveis de importância;
  • Utilize calendário e alarme para realizar suas atividades. O importante é se concentrar nas atividades. O foco é importante assim como o saber para o desempenho da atividade;
  • Não deixe para depois o que você pode fazer hoje. Lembre-se que o que não tem remédio, remediado está. Faça atividades cumprindo tarefas. São apenas tarefas e você é capaz!

Saiba mais: Saúde mental, isolamento social e home-schooling em adolescentes durante a pandemia 

Lembre-se caso a procrastinação seja constante você deve pedir ajuda. A ajuda profissional e a utilização de técnicas para melhoria do desempenho em atividades pode ser abordada de muitas formas. Se houver sofrimento severo, uma saída é avaliar a realização da tarefa. Sua saúde mental é fundamental para a vida, não continue a fazer coisas que constantemente te levam ao sofrimento. Busque ajuda e saia do sofrimento.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Branco M. “Eu vou fazer, mas…”: Um Estudo Exploratório sobre Ansiedade-Estado, Preocupação e Procrastinação Académica em Estudantes Universitários. ISPA – Instituto Universitário Ciências psicológicas Sociais e da vida. Tese de Mestrado. 2015, 95f.
  • Toneli E, Tessin G, Deps VL. Revisão bibliográfica dos impactos negativos da procrastinação acadêmica no bem estar subjetivo. Interdisciplinary Scientific Journal. 2019 May;5(6):21. doi: 10.17115/2358-8411/v6n5a21.
  • Sirois F, Pychyl T. Procrastination and the Priority of Short-Term Mood Regulation: Consequences for Future Self. Social and Personality Psychology Compass. 2013;7(2):115-127. doi:10.1111/spc3.12011
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