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Médica examinando criança

Realidade virtual para a dor procedural da agulha pediátrica

Tempo de leitura: 3 minutos.

A punção venosa, seja para inserção de acesso venoso ou para coleta de exames laboratoriais, é uma causa frequente de dor em pediatria.  Para a abordagem da dor em crianças, recomenda-se medidas não farmacológicas, que incluem elementos psicológicos e físicos, e medidas farmacológicas. Anestésicos locais tópicos atuam somente na nocicepção. Contudo não abordam a ansiedade, um dos principais fatores de não-cooperação, que dificulta o desempenho do procedimento. Abordagens não farmacológicas com objetivo de aliviar a ansiedade são, portanto, centrais para facilitar as intervenções com agulha, mas são aplicadas de forma inconsistente.

A realidade virtual é um ambiente interativo, tridimensional, simulado por computador, acessado por meio de um dispositivo montado na cabeça, impedindo a visão do mundo real. Supondo que a distração da realidade virtual seria uma intervenção não farmacológica útil em procedimentos de punção venosa em pacientes pediátricos, Chan e colaboradores (2019) conduziram dois ensaios clínicos randomizados publicados no artigo Virtual Reality for Pediatric Needle Procedural Pain: Two Randomized Clinical Trials. O objetivo foi avaliar a eficácia e a segurança da distração promovida por realidade virtual em punções venosas em dois setores hospitalares (emergência e laboratório ambulatorial). O controle foi a prática padrão de cuidados (PP).

Leia mais sobre como evitar dor em procedimentos em crianças: Buzzy® x EMLA® para prevenção da dor na punção venosa em crianças

Nestes dois ensaios clínicos, os autores randomizaram crianças de 4 a 11 anos submetidas punção venosa com realidade virtual ou PP em dois hospitais terciários na Austrália. No primeiro estudo, foram incluídas crianças na emergência que precisavam de acesso venoso ou coleta de sangue. No segundo, foram incluídas crianças em acompanhamento ambulatorial que necessitavam de coleta de sangue. Na emergência, 64 crianças foram designadas para realidade virtual e 59 para PP. No laboratório ambulatorial, 63 crianças foram designadas para realidade virtual e 68 para PP. Duas crianças retiraram o consentimento no grupo PP, totalizando 66. O endpoint primário foi a mudança da dor basal entre a realidade virtual e o PP na Escala de Faces Revisada.

Os autores encontraram os seguintes resultados: 

  • Na emergência, não houve mudança na dor da linha de base com PP, enquanto a realidade virtual produziu uma redução significativa na dor (diferença entre grupos 1,78; IC95%, 3,24 – 0,317; p = 0,018);
  • No laboratório, ambos os grupos experimentaram um aumento na dor desde o início, mas isso foi significativamente menor no grupo de realidade virtual (diferença entre grupos 1,39; IC 95%, 2,68 – 0,11; p = 0,034);
  • Em ambos os estudos, 10 participantes experimentaram eventos adversos menores, igualmente distribuídos entre realidade virtual/PP. Nenhuma criança necessitou de medicamento para controle da dor.

Ambos os ensaios clínicos concluíram que, em crianças de 4 a 11 anos de idade submetidas a punção venosa para coleta de sangue ou inserção de acesso venoso, a realidade virtual foi eficaz e segura na diminuição da dor. 

Na prática diária, sabemos o quão trabalhosa é uma emergência infantil e que os profissionais de saúde envolvidos no cuidado da criança não possuem, na maior parte das vezes, tempo hábil para a implementação de medidas não farmacológicas como a distração dos pacientes antes de procedimentos invasivos.

A realidade virtual parece ser bastante promissora na diminuição da ansiedade dos pacientes pediátricos e de seus pais e na redução do número de profissionais necessários para acalmar e conter a criança sem prejudicar o procedimento. No entanto, por enquanto, acredito que os custos para aquisição e manutenção de um dispositivo deste porte ainda não são viáveis na imensa maioria das emergências pediátricas brasileiras. 

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