Página Principal > Colunistas > Refrigerantes, sucos industrializados e o risco de doença de Alzheimer
copo com refrigerante e gelo em cima da mesa

Refrigerantes, sucos industrializados e o risco de doença de Alzheimer

Tempo de leitura: 4 minutos.

Em março de 2017 foi publicado na renomada revista “Alzheimer´s & Dementia” um artigo bastante relevante no âmbito da prevenção de demência. Foi analisada a relação entre o consumo de “bebidas adoçadas” (BA) e marcadores de lesão vascular cerebral e doença de Alzheimer (DA) pré-clínica.

O excessivo consumo de açúcar especialmente pela civilização ocidental contribui para o desenvolvimento de doenças cardiometabólicas. A ingestão de bebidas como refrigerantes e sucos artificiais responde por uma parcela significativa dessa quantidade exagerada de açúcar ingerida por nós.

Estudos em modelos animais sugerem que o excesso de açúcar estimula o desenvolvimento da doença de Alzheimer, mas pouco sabemos sobre o efeito a longo prazo da ingestão de refrigerantes no cérebro humano. Utilizando testes neuropsicológicos e ressonância magnética do crânio, foi analisada a associação entre o consumo de BA e fenótipos da DA pré-clínica no estudo de Framingham (FHS) que abrange um grupo de mais de cinco mil participantes residentes em Massachusetts, Estados Unidos. A motivação do trabalho foi testar a hipótese de que um alto consumo de bebidas doces estaria associado tanto a lesão vascular cerebral como a doença de Alzheimer pré-clínica.

Quer receber diariamente notícias médicas no seu WhatsApp? Cadastre-se aqui!

O estudo, aprovado pelo centro médico da Universidade de Boston incluiu apenas participantes maiores de 30 anos, que responderam a um extenso e detalhado questionário sobre dieta e consumo de BA no último ano. As respostas dos questionários mostraram uma média de 1.942 calorias ingeridas por dia. O consumo de BA foi relatado como menor que uma vez por dia, uma a duas vezes por dia e maior que duas vezes por dia respectivamente por 2395, 1239 e 641 participantes (56%, 29% e 15%). É sabido que a volumetria cerebral e hipocampal são sensíveis a neurodegeneração precoce, enquanto que alterações da substância branca podem ser marcadores de lesão vascular cerebral. Desse modo, o volume total do cérebro e os volumes específicos do hipocampo e da substância branca dos voluntários foram aferidos através de ressonância magnética.

Falhas sutis da memória podem preceder o diagnóstico clínico de doença de Alzheimer em até uma década. Logo, a identificação e constatação dessas alterações com o auxílio de testes neuropsicológicos é extremamente útil para identificar pessoas com alto risco de desenvolver demência. Os participantes do estudo foram submetidos a extensas baterias de testes neuropsicológicos conhecidos e validados.

Os resultados do trabalho mostraram que o maior consumo de BA foi associado a menor volume cerebral total e escores mais baixos em testes de memória. Houve também associação discreta do ponto de vista de significância estatística entre alto consumo de BA e diminuição do volume do hipocampo. Ingerir BA mais de duas vezes por dia ou mais de três vezes por semana associou-se a maior incidência de alterações na substância branca em alguns modelos de comparação. O consumo maior de BA dietéticas especificamente, também foi associado a menor volume cerebral total e pior performance em baterias do teste neuropsicológico.

Em suma, a análise revelou que o alto consumo de BA foi associado a um padrão de resultados consistente com doença de Alzheimer pré-clínica. A conclusão é impactante especialmente por tratar-se de uma amostra de participantes de meia-idade em geral. A magnitude das associações observadas foi estimada em um envelhecimento cerebral equivalente a 1.5-2.6 anos no quesito volume cerebral e 3.5-13 anos no quesito memória episódica para aqueles que consumiram mais BA.

Mais do autor: ‘Comprometimento Cognitivo Leve: uso de biomarcadores da Doença de Alzheimer no líquido cefalorraquidiano’

Estudos prévios com modelos animais ajudam a justificar teoricamente os achados encontrados. Camundongos que receberam dieta rica em açúcar refinado tiveram aumento da agregação de proteína beta amiloide, hiperfosforilação da proteína TAU, atrofia hipocampal e redução dos níveis de fator neurotrópico cerebral (BDNF), molécula correlacionada a preservação da integridade das sinapses. Trabalhos anteriores também revelaram que o aumento dos níveis de BDNF associou-se à diminuição significativa do risco de Alzheimer, sugerindo que essa molécula pode ser um dos elos entre a patologia da doença e as dietas ricas em açúcar.

Os riscos do consumo de açúcar de uma maneira geral têm despertado o interesse mundial de governantes no sentido de debater e definir políticas públicas que visem a informar e limitar excessos. A Organização Mundial de Saúde disponibiliza protocolos atualizados com recomendações sobre a quantidade ideal de cada nutriente na dieta. No Reino Unido, o governo tem aumentado impostos sobre BA e essa parece ser uma tendência mundial. Tais medidas são extremamente relevantes uma vez que além de combater a obesidade e suas consequências, reduziria potencialmente a incidência da demência de Alzheimer, uma das maiores doenças incapacitantes e ameaçadoras da população que envelhece.

Autor:

Referência:

  • MP Pase et al. Sugary Beverage Intake and Preclinical Alzheimer’s Disease in the Community. Alzheimers Dement. 2017 Mar 06.

Um comentário

  1. Achei muito legal esse artigo, porque acredito que a alimentação é responsável pela nossa saúde, ainda mais no caso do Alzheimer, acho que existe vários fatores entre eles a a alimentação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.