Residência Médica

Residência médica no Brasil: do sonho ao burnout?

Tempo de leitura: 2 min.

Quando começamos a estudar para a prova de residência, passamos por um processo complicado. Poucas vagas, muitos concorrentes, rotina estressante de estudos e investimentos altos em cursinhos. Aquela aprovação é um sonho que se concretiza, rodeado de expectativas. Porém, ao entrar no programa, nem sempre nos deparamos com as melhores condições. As queixas são muitas: carga horária elevada, baixa remuneração, assédio, acúmulo de tarefas. Recentemente, vimos uma enxurrada de relatos nas redes sociais sobre abusos sofridos durante a formação. O sonho facilmente vira um pesadelo.

Eu fiz residência de Clínica Médica e felizmente participei de um programa que teve o cuidado de respeitar as 60h semanais estabelecidas por lei. Porém, sei de diversos relatos de colegas que não tiveram a mesma sorte e que acabaram enfrentando muitas dificuldades. Alguns desistiram de suas vagas. Segundo dados da Demografia Médica no Brasil, em 2019, 1.160 médicos desistiram, se afastaram ou pediram licença do programa de residência.

As consequências negativas vão além de uma formação deficitária. A residência é um período estressante, durante o qual os residentes trabalham longas horas e a vida dos pacientes depende do seu conhecimento. Esse arranjo prepara o terreno para que os residentes desenvolvam o burnout.

Estudo

Um estudo publicado no JAMA revisou artigos publicados na literatura que abordam o nível de burnout em residentes. Foram identificados 15 artigos de diversos países sobre o tema. Os estudos sugerem que os níveis de burnout são altos entre os residentes e podem estar associados à depressão e problemas no cuidado ao paciente.

Leia também: Quais as melhores instituições para fazer Residência Médica no Brasil?

Este impacto no cuidado é algo inquestionável. Como oferecer um cuidado adequado se estamos sem dormir e sobrecarregados? Em muitos locais, vemos que o residente é a força motriz do hospital, muitas vezes cumprindo tarefas burocráticas e até mesmo de outros profissionais contratados. O foco nem sempre é a formação e o conteúdo técnico a ser aprendido. Aliás, como manter uma rotina de estudos tendo que atender a tantas demandas da rotina do hospital?

“Sempre foi assim, na minha época trabalhei mais.” Esta é a frase de alguns que já passaram pelas residências e simplesmente giraram nas condições pré-estabelecidas. Porém, o fato de alguém ter passado pelo processo, não o torna mais saudável. A repercussão da temática nas redes sociais acende uma luz vermelha no processo especialização médica no Brasil. É importante que este grito seja formalizado em denúncias aos responsáveis pelos programas ou até mesmo seus superiores para que possamos abrir espaços saudáveis de discussões institucionais e busca por soluções.

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Publicado por
Dayanna de Oliveira Quintanilha

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