Página Principal > Infectologia > RNA do vírus zika é encontrado em sêmen dois anos e meio após início dos sintomas

RNA do vírus zika é encontrado em sêmen dois anos e meio após início dos sintomas

Tempo de leitura: 3 minutos.

Recentemente, foi publicado um relato de um caso na Inglaterra em relação ao vírus zika. Nesse caso, houve  identificação do RNA do vírus no sêmen de um paciente com infecção confirmada após uma viagem ao Brasil mais de dois anos e meio (900 dias) após o início dos sintomas. 

O tempo máximo de permanência do vírus zika nos fluidos e nas mucosas ainda não foi determinado. As primeiras evidências publicadas recentemente sobre a presença do vírus zika na mucosa retal de pacientes infectados podem acrescentar uma nova rota de infecção.

Veja também:  Top 5 da Zika: como orientar seus pacientes a respeito da doença

Pacientes imunossuprimidos

O RNA do zika vírus foi detectado em amostras de sêmen coletadas < 370 dias após o início dos sintomas. Foi relatada pelos pesquisadores a incomum persistência do RNA do vírus zika no sêmen. Ela foi confirmada por sequenciamento em 515 dias após o início dos sintomas e detectável por> 900 dias, em um paciente com imunossupressão.

De acordo com especialistas do Rare and Imported Pathogens Laboratory (RIPL), da Public Health England (PHE) e da University of Oxford, a persistência do vírus zika no sêmen por um período maior do que o esperado pode ser consequência do tratamento imunossupressor ao qual foi submetido o paciente do relato de caso. Para os autores do estudo, o caso gera o questionamento se a janela de transmissão de três meses é válida para todos.

O estudo pertence a um projeto com a Organização Mundial de Saúde (OMS). O projeto busca compreender a persistência dos vírus para guiar a comunidade médica nas recomendações de prevenção. Os autores disseram ter detectado o RNA do vírus zika em swabs retais de dez pacientes, e isolado o vírus em um deles.

A pesquisa finalizada não consegue responder por quanto tempo o vírus zika pode ficar viável. “No trabalho que publicamos, o período máximo foi de 14 dias. Mas estamos processando muitas amostras, cerca de 30 mil. A previsão é obter os resultados no final de 2020”, diz o estudo.

Reprodução assistida

A possibilidade de o trato genital masculino manter reservatórios do vírus zika por longos períodos também preocupa os especialistas que trabalham com medicina reprodutiva e utilizam tecnologias de reprodução assistida.

Recentemente, foi registrado um caso no qual uma mulher que realizou um tratamento de reprodução assistida. Ela não esteve em nenhum local de risco durante o tratamento ou a gestação, deu à luz um bebê com microcefalia, e sua placenta foi positiva para o vírus zika. O pai da criança esteve no Haiti várias vezes antes do nascimento. Nenhum dos dois apresentou sintomas da doença. 

Perguntas em aberto

Outra lacuna do conhecimento é a possibilidade de transmissão da mulher para o homem: existe apenas um caso publicado. 

O estudo confirma que o RNA do vírus pode ser encontrado na secreção genital feminina. “Parece que o vírus tem afinidade por tecidos genitais. E que esses tecidos podem funcionar como um repositório, onde o vírus dura mais tempo que no resto do corpo”.

Quando a infecção por vírus zika causa sintomas, a carga viral pode ser até 100 mil vezes maior no sêmen do que no sangue ou na urina, nas duas semanas seguintes ao início dos sintomas.

As recomendações do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) são abrangentes e orientam considerar que o vírus zika pode ser transmitido por sexo anal, vaginal, oral e pelo compartilhamento de brinquedos sexuais. A infecção por zika não é considerada uma infecção sexualmente transmissível (ITS) por não ser predominantemente transmitida por via sexual, parâmetro que define a ITS, mas é a mais recente infecção descrita como de transmissão potencialmente sexual.

No momento, não há muitos casos no Brasil e a palavra zika não aparece mais com destaque na mídia. Mas a circulação do vírus continua. Os cientistas alertam para a chance de um comportamento cíclico, como a dengue, que causa epidemias em períodos de cinco a sete anos.

A transmissão sexual pode ter a sua importância máxima no período entre os grandes surtos. Um novo modelo matemático, desenvolvido nos Estados Unidos, interpreta que a sua maior significância seria nos períodos de menor transmissão por mosquitos. Estudos sugerem que com a alta transmissibilidade por via sexual entre hospedeiros assintomáticos o vírus zika apresenta uma grande probabilidade de sustentar-se na população humana sem a necessidade dos mosquitos vetores. 

Segundo os autores, mesmo se a transmissão sexual tiver uma contribuição pequena em função do tamanho da epidemia, ela pode ter um papel importante na manutenção da epidemia entre as estações, contribuindo para cenários endêmicos.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Autora: 

Referências:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.