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Setembro Amarelo: quais são as características do comportamento suicida?

Tempo de leitura: 6 minutos.

Por muito tempo excluído das mídias e redes sociais, a exposição de notícias sobre suicídio foi praticamente banida do conhecimento e reflexão social, como alternativa de controle da incidência e receio de estimulação ao comportamento de repetição. Entretanto, após grande alarde frente aos suicídios de caráter coletivo, divulgados nos últimos anos, surgiu a necessidade emergente de abordá-lo a fim de buscar meios de compreensão e empoderamento social sobre o tema.

Frente aos comportamentos grupais estimulados pela facilidade da internet, a grande preocupação inicial passou a ser o público jovem. Devido à formação socioemocional natural da idade, necessidade de identificação com o mundo extra-familiar e autoconhecimento, este público estaria mais suscetível a condições influenciáveis, necessitando de atenção constante por parte dos cuidadores. Entretanto, em tempos de acesso ilimitado a informações, exposição a diversos assuntos, por vezes incompatíveis com a idade, e a impossibilidade de vigilância constante, as melhores armas a serem utilizadas com esse público são a observação atenta, informação/comunicação e empoderamento.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)1, a violência autodirigida se manifesta de duas formas: no comportamento suicida (por meio de pensamentos, tentativas e consumação), e por meio de atos violentos provocados a si, como no caso das mutilações. No geral, a linha que separa a autonegligência, lesão autoprovocada, ideação suicida, comportamento suicida e consumação é tênue, e necessita de atenção. Se por um lado, a identificação de tais comportamentos pode mudar o desfecho e possibilitar a interrupção do ciclo, por outro é preciso entender que nem todas as situações de autoextermínio serão claramente anunciadas.

Sabe-se que cerca de 1 milhão de pessoas morrem por ano em decorrência de suicídio. Porém, as estatísticas se distribuem desigualmente pelo mundo, entre os sexos e grupos etários. Pensando em dispersão geográfica, Japão e algumas sociedades europeias apresentam as taxas mais altas. Avaliando faixa etária, mesmo com o crescimento da incidência no público jovem, a prevalência de autoextermínio na terceira idade (+65 anos) se constitui um grave problema de saúde pública no mundo, comprovado a partir de estudos multicêntricos2.

É de conhecimento científico que as associações mais perigosas e recorrentes no comportamento suicida na terceira idade estão ligadas à depressão, transtorno afetivo bipolar, dependência múltipla, institucionalização, redução sensoperceptiva e drogas psicotrópicas3. Sabe-se também da correlação verdadeira entre ideação, tentativa e efetivação. Mesmo assim, algumas particularidades devem ser consideradas, para que o sistema de saúde consiga medidas mais eficientes na atenção, prevenção e redução das taxas de autoextermínio.

Além das condições físicas, funcionais, patológicas e medicamentosas que podem estar associadas, a autópsia sociopsicológica tem sido um recurso para esclarecer os motivos sociais e emocionais mais recorrentes em pacientes que consumaram o suicídio. Essa perspectiva nos alerta para a importância em considerar os diversos aspectos que compõem o ser humano, e que precisam ser “cuidados” e considerados como motivadores de sofrimento, norteando a atenção dos profissionais da saúde e da sociedade à percepção genuína da dor no outro.

Relação tentativa-efetivação por faixa-etária:

Considerando dados mais concretos, estudos de Beeston (EUA) podem nos nortear sobre a co-relação4:

Jovens: 36:1
População geral: 8:1
Idosos: 4:1

Trata-se de uma elevação impactante da efetividade das tentativas na terceira idade, considerando ainda que as mulheres manifestam maior ideação, porém os homens executam mais.

Observação dos sinais:

A atenção ao comportamento suicida começa na observação de sinais mais subjetivos e não diretivos, como insinuações de cansaço da vida, do sofrimento, desejo de morte, perda de perspectivas, falta de interesse por atividades gerais, sem a verbalização objetiva do fato. Existem ainda situações que podem ser percebidas por familiares mais próximos, e que podem direcionar para a diminuição do interesse pela vida:
– descuido com medicações contínuas;
– tentativa de resolução de pendências;
– desinteresse em se cuidar;
– falta de projetos de médio e longo prazo;
– humor apático e diminuição da interação com pessoas próximas;
– queixas constantes de sintomas subjetivos (desconforto/angústia/avolição)
– inapetência

Dessa forma, é importante perceber que o suicídio pode ocorrer por uma ação positiva (executando um ato contra si), ou negativa (abstendo-se daquilo que é necessário para a manutenção da vida). Para o indivíduo, não se trata da busca pela morte, mas da interrupção do padrão de sofrimento quando a “dor” se configurar intolerável. Compreender essa premissa, exige despir-se de preconceitos e buscar postura empática, que permita olhar o sofrimento do outro considerando sua própria percepção, não sendo possível portanto ofertar suporte ao paciente com comportamento suicida, através do julgamento e de verdades próprias, alheias à sua realidade.

Leia mais: Setembro Amarelo: porque precisamos discutir o suicídio

Apesar das constantes tentativas de encontrar “perfis” com maior risco de autoextermínio, que são essenciais para o direcionamento da assistência em saúde, não se pode deixar de lado a subjetividade dessa questão. Cada indivíduo possui características, crenças, valores sociais e culturais, histórico de vida, experiências pessoais, que o tornam único, e portanto, impedem a catalogação em um grupo específico e torna difícil a compreensão exata de sua dor.
Prova disso são as situações de impulsividade na efetivação do ato suicida, desencadeadas por condições extremas, que colocam em cheque a capacidade de racionalização em decorrência do desespero imediato.

Casos como este, normalmente não estão ligados a transtornos mentais ou personalidade específicos. Do mesmo modo, suicídios acidentais durante jogos de estimulação à violência autodirigida se fazem uma realidade em grupos de indivíduos com maior fragilidade e vulnerabilidade, como nos casos de crianças e adolescentes emocionalmente pressionadas por situações de grupo.

Como a sociedade pode ajudar?

A primeira barreira a se romper para viabilizar a prevenção ao suicídio, é desconstruir preconceitos do senso comum. É preciso compreender que verbalizações de sofrimento, comportamentos autolesivos, comportamentos de risco, perda da vontade de viver são condições que jamais devem ser ignoradas. Julgar a manifestação de dor do outro, como tentativa de chamar a atenção, fraqueza, falta de religião e coisas do tipo, saem do mérito do comportamento de ajuda, passando a uma postura ainda mais aversiva para quem sofre.

A avaliação da condição real da pessoa com ideação suicida só deve ser feita pelos profissionais habilitados e treinados, que contam com conhecimento específico, e mantém sua análise livre de interferências externas e julgamento de valores. Cabe à sociedade, então, mobilizar-se a situações de comportamentos de risco, ofertar espaço para ouvir, acolher, e buscar conduzir o indivíduo à ajuda especializada, não o deixando sozinho em caso de risco eminente. Cabe ainda buscar contato imediato com a rede de apoio familiar/social da pessoa, enquanto auxílio de urgência, visto que as pessoas mais próximas conseguem modificar condições facilitadoras do ato e observar mais atentamente situações de alerta no dia-a-dia, intervindo com mais rapidez em momentos de crise.

Se a pessoa que está em risco convive com você, assegure-se de redobrar a atenção em inícios de tratamento medicamentoso para transtorno depressivo maior. Quando a ideação suicida está associada à depressão, por vezes a pessoa pode estar tão debilitada a ponto de não ter “forças” para executar o ato, o que a impede temporariamente. Com o início da melhora sintomática, esse risco inicial aumenta, visto que o tratamento ainda não atingiu seu objetivo pleno, mas a pessoa já se sente mais capaz de executar tarefas que antes não conseguia, configurando um período de alto risco e necessidade constante de atenção.

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Autor:

Mariana Batista Leite Leles

Psicóloga Hospitalar ⦁ Residência em Urgência e Trauma ⦁ Especialização em Psico-oncologia ⦁ Membro da diretoria da AMIB, Departamento de Psicologia aplicada à Terapia Intensiva.

Referências:

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. 10a revisão. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; 2009, Vol.1.
  2. World Health Organization. Preventing suicide: a global imperative. Geneva: WHO; 2014.
  3. Minayo MCS; Cavalcante FG. Suicídio entre pessoas idosas: revisão da literatura. Centro Latino -Americano de estudos sobre violência e Saúde. Esc Nac Saúde Pub; Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro-RJ, 2010.
  4. Beeston D. Older people and suicide. Stoke on Trent: Centre for Ageing and Mental/Health Staffordshire University; 2006.

2 Comentários

  1. Excelente artigo sobre o tema!

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