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Síndrome de Irlen: mito ou realidade?

Tempo de leitura: 2 minutos.

Hoje discutiremos um assunto que vem viralizando nas mídias sociais, a Síndrome de Irlen. Muito se tem dito a respeito desta condição, que representa uma novidade no meio médico e tem gerado grande polêmica entre os especialistas.

O que é a Síndrome de Irlen?

Inicialmente descrita pela psicóloga Helen Irlen, em 1983 nos Estados Unidos, esta síndrome seria caracterizada por uma alteração visuoperceptual, ocasionada por uma inabilidade de adaptação à luz, que em última análise levaria ao déficit na leitura.

No Brasil existe um único serviço capacitado a realizar o tratamento da síndrome, que se situa em Belo Horizonte, e é chefiado pela doutora Márcia Guimarães. A médica afirma que seis características principais compõem a síndrome:

  1. Fotofobia
  2. Problemas na resolução espacial
  3. Restrição de alcance focal
  4. Dificuldades na manutenção do foco
  5. Astenopia
  6. Problemas na estereopsia, que é a visão em profundidade.

Todos os sintomas teriam origem no desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz nas células retinianas chamadas bastonetes, responsáveis pela visão “claro-escuro”. A síndrome teria caráter familiar, com os pais podendo ser afetados em graus variáveis. Segundo a doutora Márcia, a prevalência da síndrome seria bem alta, acometendo entre 12% e 14% da população.

Síndrome de Irlen: diagnóstico e tratamento

Na prática, os portadores apresentam diversos sintomas relacionados à dificuldade de leitura, como lacrimejamento, tendência a esfregar os olhos, cansaço precoce e necessidade de interrupção frequente da leitura. De acordo com a descrição inicial da síndrome, muitos pacientes diagnosticados como disléxicos, seriam, na realidade, portadores de Irlen, isoladamente ou em associação com outros diagnósticos, entre eles a própria dislexia. O mesmo tipo de associação valeria para outras condições, como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e até mesmo esquizofrenia.

Tanto o diagnóstico quanto o tratamento são baseados na tentativa de neutralização das distorções visuais através da interposição de transparências coloridas, que vão sendo selecionadas pelo próprio paciente durante a leitura sob alta demanda “visuoatencional”. O paciente seleciona a transparência de cor que lhe confere o maior conforto durante o processo de leitura.

pessoas olhando papeis coloridos

Não obstante, a caracterização ou mesmo a existência da Síndrome de Irlen têm sido contraditas por alguns especialistas, entre eles o doutor Gustavo Teixeira, diretor do Child Behavior Institute (CBI) de Miami. Gustavo lembra que o tema carece de estudos capazes de corroborar a existência desta condição, bem como a eficácia verdadeira do tratamento proposto. Ele lembra ainda que tanto a Academia Americana de Oftalmologia quanto a Academia Americana de Pediatria desqualificam a afirmação de que a suposta síndrome possa produzir sintomas semelhantes à dislexia, TDAH ou esquizofrenia. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também divulgou nota na qual afirma que a existência da síndrome de Irlen é controversa.

Take-home message

Certamente são necessários mais estudos sobre esta condição, para que os possíveis portadores sejam verdadeiramente beneficiados. É fundamental ter em mente que familiares de pacientes com distúrbios como dislexia, TDAH ou esquizofrenia, estão geralmente em condição de fragilidade psicológica, e promessas de novos tratamentos podem ser assumidas sem muito critério.

Torna-se imprescindível que as sociedades médicas exerçam seu papel de fiscalização, de modo a evitar que pacientes e familiares sejam induzidos a radicais alterações de conduta que podem prejudicar a evolução positiva dos quadros.

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