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Suplementação de ômega 3 e qualidade da visão

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Em tempos nos quais a qualidade alimentar vem tendo sua importância cada vez mais reconhecida, não podemos deixar de salientar a relação entre alimentação e visão. É sabido que um dos principais componentes do sistema visual é o filme lacrimal, e é justamente aí que a suplementação de ômega 3 desenvolve papel de grande vulto.

Os distúrbios lacrimais que conduzem a síndrome conhecida como doença do olho seco possuem origem multifatorial e conduzem, em última análise, ao prejuízo na qualidade de vida, na medida em que levam à redução visual, dano da superfície ocular e desconforto. Mas como o ômega 3 é capaz de interferir neste processo? O metabolismo dos ácidos graxos ômega 3 resulta em moléculas que atuam na supressão das vias do processo inflamatório que marca a doença do olho seco.

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Outro mecanismo de ação é a alteração no componente lipídico da lágrima promovida pelo ômega 3, tornando-a mais fluida e evitando assim a estagnação da secreção das glândulas de meibômio, principais produtoras desse componente lipídico.

De acordo com a nutricionista Liliane Oliveira, mestre em Ciências pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e staff do Hospital Universitário Pedro Ernesto, para se atingir a dose recomendada de ômega 3 é necessário consumo de cerca de 180g semanais de peixes ricos neste ácido graxo, como cavala, arenque e sardinha. Ela ainda reforça que o acesso da população ao pescado de boa qualidade nem sempre é satisfatório, sendo indicado o consumo de suplementos de ômega 3.

Um estudo recente publicado no Cornea (The Journal of Cornea and External Disease) comparou a qualidade do filme lacrimal entre um grupo de indivíduos que receberam suplementação de ômega 3 por 12 semanas e um grupo controle sem a suplementação, que receberam um placebo. Inicialmente os pesquisadores objetivaram analisar parâmetros como osmolaridade da lágrima, matriz de metaloproteinase-9, BUT (tempo de ruptura do filme lacrimal), índice de doença da superfície ocular, teste de Schirmer e disfunção da glândula de meibômio.

O estudo revelou uma sensível redução da osmolaridade do filme lacrimal no grupo que recebeu suplementação de ômega 3. Isso indica uma redução da concentração iônica lacrimal ou, em outras palavras, maior volume de componente aquoso da lágrima.

Outro aspecto analisado mostrou-se revelador: o BUT. O grupo que recebeu suplementação de ômega 3 obteve um aumento no BUT, o que representa na prática um maior período de filme lacrimal íntegro entre um e outro piscar de olhos. Este estudo ainda trouxe à luz um novo conhecimento, relativo a uma bioenzima da lágrima, a metaloproteinase 9. Esta enzima é liberada quando ocorre estresse às células do epitélio corneano, no ressecamento ocular, e foi encontrada em níveis muito menores na lágrima dos pacientes que receberam ômega 3.

Nos demais parâmetros analisados pelos pesquisadores, como índice de doença da superfície ocular, teste de Schirmer e disfunção da glândula de meibômio, não foi observada diferença significativa do ponto de vista estatístico entre os dois grupos.

Cabe ainda ressaltar que os primeiros indícios de melhora dos sintomas da doença do olho seco foram observados após 6 semanas de suplementação, o que indica uma rápida resposta à terapia nutricional. Diante dos dados averiguados, os pesquisadores concluem que a suplementação de ômega 3 na dieta está indicada como parte da terapia primária da doença do olho seco, associada às tão badaladas lágrimas artificiais.

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250-BANNER2 Endoftalmite pós-catarata: profilaxia com Moxifloxacino Intracameral vale a pena?

Referência:

  • Epitropoulos AT, et al. Effect of Oral Re-esterified Omega-3 Nutritional Supplementation on Dry Eyes. Cornea. Volume 35, Number 9, September 2016.