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Tireoidite de Hashimoto porque nasci no verão?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Muitos de nós, médicos, já nos deparamos com a seguinte pergunta: “Mas por que eu desenvolvi essa doença, doutor?”. É inerente do ser humano a busca por um culpado ou por uma causa. Porém, existem doenças sobre as quais, por falta de conhecimento, o máximo que podemos responder é: “Você tem história familiar” ou “É uma doença genética”. Esse é o caso da Tireoidite de Hashimoto, doença muito comum em nossa população e caracterizada por hipotireoidismo de origem autoimune.

Mas essa resposta não é a verdade por completo. Afinal, numa mesma família apenas alguns indivíduos desenvolvem Tireoidite de Hashimoto. Sabemos que existem influências do meio ambiente na predisposição genética, são os famosos “triggers” ou “gatilhos” que fazem uma doença se manifestar. A questão é: quais são essas influências? Podemos controlá-las?

Essa “busca por culpados”, ou melhor, “busca por gatilhos”, é o que motiva diversas pesquisas acerca do mecanismo de desenvolvimento de doenças ditas familiares ou com predisposição genética. Um recente estudo de coorte realizado na Dinamarca, publicado no Journal of Clinical Endocrinology em dezembro de 2017, teve como objetivo avaliar se existe associação entre o mês ou a estação do ano do nascimento do cidadão e o desenvolvimento de hipotireoidismo autoimune ao longo de sua vida adulta.

O estudo foi realizado utilizando informações estatísticas de três bancos de dados da Dinamarca, contendo dados demográficos (data de nascimento, idade, sexo, data de óbito) e dados sobre a saúde dos mais de 2 milhões de cidadãos dinamarqueses. Desses mais de 2 milhões, foram selecionados 111.565 indivíduos que obtiveram o diagnóstico de hipotireoidismo autoimune após os 18 anos, entre os anos de 1995 e 2012. Estes casos foram pareados por idade e sexo com 4 controles eutireoideos para cada, resultando em 446.269 controles. Para serem considerados controles, os indivíduos deviam estar vivos na data do diagnóstico dos casos e serem eutireoideos.

A partir dessa seleção, a associação entre ter hipotireoidismo autoimune e ter nascido durante um determinado mês ou estação do ano foi calculada usando um modelo de regressão de Cox. Como o estudo foi na Dinamarca, as estações do ano foram definidas como inverno (dezembro, janeiro e fevereiro), primavera (março, abril e maio), verão (junho, julho e agosto) e outono (setembro, outubro e novembro).

Houve uma diferença significativa no mês de nascimento entre os casos e os controles (p <0,001). Os indivíduos diagnosticados com hipotireoidismo autoimune tiveram um risco significativamente aumentado de ter nascido em junho (HR: 1,04; IC 95%: 1,02-1,08) e no verão (junho-agosto; HR 1,02; IC 95%: 1,01-1,04). Ao estratificar por gênero, a associação de hipotireoidismo autoimune e nascimento em junho foi ainda mais forte para mulheres, mas não para os homens.

Assim, foi evidenciado um risco 2% maior de desenvolver hipotireoidismo autoimune nos cidadãos nascidos na temporada de verão e, mais especificamente, um risco aumentado de 4% nos nascidos no início do verão (junho, no caso da Dinamarca).

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Mas porque será que existe essa influência da estação do ano ou mês do nascimento com o desenvolvimento dessa doença autoimune? A hipótese mais provável é a de que existam “gatilhos” para o surgimento do hipotireoidismo autoimune que apresentem variação sazonal, como exposição a vírus, bactérias e vitamina D.

Alguns estudos já testaram teorias sobre o surgimento do hipotireoidismo autoimune estar relacionado com a exposição a agentes infecciosos como os vírus Coxsackie-B e o Parvovírus B19, por meio de mimetismo molecular e exposição cruzada de antígenos. A exposição intrauterina ou pós-natal precoce a esses vírus durante períodos de surtos virais endêmicos no outono e no inverno poderiam ser os “gatilhos” desencadeadores do processo autoimune em fetos geneticamente suscetíveis.

Outra hipótese possível é a variação sazonal do estado da vitamina D durante a gestação. Neste contexto, um recente estudo dinamarquês encontrou associação inversa entre o estado de vitamina D neonatal e o surgimento de esclerose múltipla, outra doença autoimune, indicando que a baixa exposição à vitamina D durante a vida intrauterina poderia favorecer o desenvolvimento de autoimunidade. Deste modo, de forma similar, o achado de um risco aumentado de hipotireoidismo autoimune nos nascidos durante o verão poderia ser explicado por níveis mais baixos de vitamina D na vida intrauterina durante o inverno.

Por ter sido um estudo de coorte, com informações apenas retiradas de bancos de dados, o mecanismo exato da associação entre o mês e estação do nascimento e o desenvolvimento do hipotireoidismo autoimune são ainda especulações, bem como a hipótese dos “gatilhos sazonais”, mas sinalizam o quanto está evoluindo o conhecimento médico. Quem sabe em alguns anos poderemos dar a resposta por completo: “Você tem Tireoidite de Hashimoto pois tem história familiar e nasceu no verão, tendo sido exposto a tais e tais gatilhos”. Ou, ainda melhor, se soubermos os gatilhos, quem sabe conseguiremos evitá-los e assim prevenir as doenças que eles desencadeiam?

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Autora:

Referências:

  • Thvilum M, Brandt F, Brix TH, Hegedüs L. Month of birth is associated with the subsequent diagnosis of autoimmune hypothyroidism. A nationwide Danish register-based study. Clin Endocrinol (Oxf). 2017;87:833–838. https://doi.org/10.1111/cen.13425

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