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Transfusão de sangue x infecção pelo Zika: devemos nos preocupar?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Em 2015, ocorreu uma disseminação alarmante do vírus Zika (ZIKV) pelo mundo. Na época, foi levantada uma hipótese importante: o ZIKV pode ser transmitido por transfusão sanguínea? A associação do Zika com efeitos teratogênicos graves, sua persistência no sangue e possíveis casos de transmissão do ZIKV por transfusão sanguínea no Brasil foram os principais motivos para este questionamento.

Em fevereiro de 2016, a Food and Drug Administration (FDA) recomendou que a coleta de sangue doado cessasse em áreas nos Estados Unidos onde o ZIKV era ativo, a menos que testes de sangue ou métodos de redução de patógenos pudessem ser implementados. Em agosto de 2016, a FDA expandiu suas orientações anteriores para incluir triagem de doação de sangue em todo o território continental. Consequentemente, todo o sangue doado nos Estados Unidos é agora rastreado para o ZIKV.

No Brasil, em agosto de 2016, a ANVISA emitiu uma nota técnica orientando critérios de triagem para doadores com foco em quem havia apresentado diagnóstico clínico ou laboratorial para Zika. Diferentemente da triagem americana que testa todo o sangue doado, em nosso país, a triagem é clínica por meio de um questionário.

O New England Journal of Medicine apresentou uma publicação que avaliava os resultados da triagem de mais de 4.000.000 de doações de sangue dos EUA para o ZIKV durante um período de 15 meses em 2016 e 2017 . A ideia do artigo era avaliar o custo-benefício da triagem americana, traremos os principais pontos a seguir:

Por que triar o sangue doado com testes específicos?

  1. A primeira é a obrigação de evitar resultados indesejáveis. A infecção por ZIKV está associada a sequelas neurológicas graves em bebês nascidos de mulheres infectadas pelo ZIKV, o que suscita especial preocupação em transfusões que ocorrem durante a gravidez.
  2. A segunda consideração que sugere a necessidade de triagem é a distribuição demográfica da infecção na população geral e na população de doadores de sangue, relacionada ao risco de coleta de sangue infectado pelo ZIKV. A infecção pelo ZIKV agora é amplamente distribuída nas Américas e no Caribe. Embora haja uma escassez de dados sobre as taxas de infecção por ZIKV entre doadores de sangue antes do início dos testes de rotina, um levantamento molecular das doações de sangue durante o surto de 2013–2014 na Polinésia Francesa mostrou que 42 dos 1.505 doadores (2,8%) foram positivos RNA do ZIKV no momento da doação e 11 dos 42 doadores posteriormente se tornaram sintomáticos.
  3. A terceira consideração que sugere a necessidade de triagem é avaliar se o sangue coletado de doadores infectados confere risco relacionado à transfusão. Para essa determinação é necessário verificar a capacidade do Zika de sobreviver às condições padrão de armazenamento e processamento, bem como a transmissibilidade do ZIKV através da transfusão. Até o momento, quatro casos de infecção por ZIKV transmitida por transfusão foram relatados, todos no Brasil (três ocorreram após a transfusão de plaquetas e um após a transfusão de concentrado de hemácias).
  4. A quarta consideração é que, como a grande maioria das infecções por ZIKV é subclínica, a anamnese é um meio não confiável de identificar doadores infectados.

Resultados da triagem nos Estados Unidos:

Entre abril de 2016 e abril de 2017, a triagem de 4.065.045 doações de sangue nos Estados Unidos resultou na identificação de 30 casos (menos de 0,001%) que preencheram os critérios para resultados positivos verdadeiros para o ZIKV com base nos resultados de testes repetidos.

Embora os testes do ZIKV tenham sido favoráveis ​​do ponto de vista comercial, eles incorreram em um aumento imprevisto no custo de triagem (de US $ 7 a US $ 13 por doação em dólares americanos) que foi passado a hemocentros, hospitais e pacientes. Estima-se que a atual estratégia de testes de ácido nucleico para o ZIKV em doadores individuais gere um custo anual de US $ 137 milhões. O custo poderia ser justificado se os testes mostrassem evitar efeitos adversos em receptores de transfusão, mas este não foi o caso.

Continuar ou não os testes de triagem?

Embora o ZIKV não tenha sido eliminado, a epidemia diminuiu substancialmente. No momento da redação do artigo do NEJM, não havia áreas ativas de transmissão do ZIKV, e as doações que são positivas para o RNA do ZIKV são raras. Neste contexto, considera-se interromper a triagem custosa nos Estados Unidos. Porém, a interrupção da triagem de doação de sangue pode ser muito mais desafiadora do que a decisão de começar. Não há precedente histórico para o término de um programa de testes de doação de sangue para um determinado patógeno.

O artigo conclui afirmando que as evidências médicas e científicas disponíveis sugerem que o risco de transmissão do ZIKV aos receptores de transfusão permanece baixo e é provável que diminua ainda mais à medida que a pandemia continua a diminuir. Os autores reforçam que a decisão inicial de testar o ZIKV não deve ser condenada. Quantas pessoas não teriam se beneficiado caso uma resposta proativa semelhante ao HIV tivesse ocorrido nos anos 80?

No Brasil, esse questionamento não existe tendo em vista que não foram implementados testes de triagem, apenas uma triagem clínica. Inicialmente, os dados deste estudo americano trazem certo alívio, por não terem mostrado uma relação alarmante de infecção por ZIKAV relacionada a transfusões. Porém, será que este de fato se aplicariam à realidade da nossa população?

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Autora:

Dayanna de Oliveira Quintanilha

Médica no Hospital Naval Marcílio Dias ⦁ Residência em Clínica Médica na UFF ⦁ Graduação em Medicina pela UFF ⦁ Contato: dayquintan@hotmail.com

Referências:

Um comentário

  1. Muito bom. Obrigado Dra. Dayanna!

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