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Travando uma guerra contra as metáforas bélicas no câncer e na Covid-19

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Nós oncologistas estamos acostumados a usar e a ver pacientes usando “metáforas de guerra”, a “Guerra Contra o Câncer” foi declarada pelo ex-presidente americano Richard Nixon em 1971 com o National Cancer Act contra aquele “inimigo implacável”, nas palavras do próprio ex-presidente. De lá para cá, a guerra não acabou, mas a mortalidade por cânceres invasivos nos EUA caiu cerca de 23% em 40 anos, resultados semelhantes aos alcançados em outros países desenvolvidos.

Leia também: Obesidade e diabetes são importantes fatores de risco para o câncer

Ganhar ou perder a luta

Um interessante editorial foi publicado recentemente no Journal of Clinical Oncology sobre o tema. Depois de mais uma vez ganhar as manchetes com a morte do ator Chadwick Boseman aos 43 anos por câncer colorretal. Ele ficou famoso por estrelar nas telonas o super-herói Pantera Negra da Marvel. Uma avalanche de manchetes do tipo “ele perdeu a luta contra o câncer” foram publicadas nos últimos dias. O assunto é polêmico entre os especialistas. Vamos entender o motivo.

Algumas pesquisas demonstram que este linguajar está presente em 2/3 de nossas conversas com os pacientes, uma “luta” contra um “inimigo poderoso”, travamos uma “batalha” contra as probabilidades, estamos “unidos nesta luta” contra um “inimigo comum”. Descrevemos como o câncer “invade” os tecidos, como nossos tratamentos “atacam” essas células malignas, falamos em tratamentos “na linha de frente” e como nossas novas “terapias-alvo” são promissoras. Quando os pacientes encerram o tratamento são “heróis”, são “sobreviventes”, essas metáforas bélicas “infiltraram” também as publicações em oncologia nas últimas décadas.

Como tudo na vida, há o lado bom e o não tão bom

Muitos pacientes conseguem melhorar a compreensão do linguajar médico, muitas vezes cheio de tecnicismos e de termos de difícil entendimento. As metáforas podem ajudar neste sentido, podendo permitir uma aproximação da equipe que cuida do paciente facilitando inclusive a discussão de temas espinhosos como os cuidados de fim-de-vida. Podem ajudar ainda na comunicação com familiares, amigos, etc reduzindo aqueles silêncios perturbadores pois muitos “não sabem o que dizer” para os pacientes oncológicos e frequentemente acabam falando frases muito inapropriadas.

Não está claro que as metáforas bélicas sejam benéficas…uma guerra tem vencedores e perdedores, e os vencedores são tipicamente os “mais fortes”, com mais “armas”, mais “recursos” e com os “combatentes com mais força de vontade”…é essa mensagem que queremos passar para os pacientes com câncer? Será que se “lutasse com mais força” Chadwick Boseman teria “ganhado a guerra”? Claro que não!!! Acaba sendo injusto! Aliás, “vitória” é difícil definir no cenário da oncologia, enfrentar essa jornada com boa qualidade de vida, conseguindo viver mais e melhor já é uma vitória, independente do desfecho.

Saiba mais: Covid-19 e câncer: mortalidade será maior nos próximos anos?

Consequências

Essas metáforas violentas podem levar a sentimentos de desempoderamento, culpa, fatalismo, frequentemente causam mais mal do que bem. Esse conceito de vencedores e perdedores não dimensiona o quão complexo é conviver com um câncer (são centenas de tipos, com milhares de apresentações clínicas, evoluções) e passar pela jornada de diagnóstico, tratamento e seguimento. Em paralelo, outro “campo minado” são as questões da fé (religiosa ou não). Ao atribuir a resultado positivo a uma “questão de fé”, podemos ter sentimentos negativos nos casos em que o tratamento não funcionou. “Não tive fé suficiente”, “minhas preces não foram tão fervorosas”, é muito mais complicado do que isso. A fé pode ajudar, e muito, a amenizar o sofrimento, as perdas, melhora a tolerância aos tratamentos etc, mas a biologia dos cânceres e seus desfechos não é apenas fé-dependente.

Covid-19

Na pandemia de Covid-19 as metáforas bélicas ganharam um novo aliado. A literatura científica, as mídias sociais, os políticos, a imprensa, não cansam de citar a “guerra contra o coronavírus”. Profissionais de saúde são “heróis” e trabalham “na linha de frente” desta guerra. Nossos equipamentos de proteção individual (EPIs) viraram armaduras.

Essas expressões podem ser uma faca de dois gumes: apesar de muitas vezes nos sentirmos agradecidos enquanto profissionais de saúde por este reconhecimento, precisamos de mais do que isso. Na guerra, soldados frequentemente são voluntários, sabem exatamente os riscos que estão correndo e usam equipamentos adequados. A maioria dos profissionais de saúde não está na linha de frente como voluntário, nem sempre estão preparados para enfrentar o que estão enfrentando, nem sempre com os equipamentos ideais, mas veem todos os dias as “baixas” provocadas pela Covid-19, já que muitos “perderam a guerra” contra o coronavírus.

Ao supervalorizarmos esses heróis, quase sempre médicos e enfermeiros, sem querer acabamos por desvalorizar outras categorias de profissionais que estão também correndo risco significativo para a sua própria saúde como fisioterapeutas, auxiliares de enfermagem, administrativos, auxiliares de limpeza, entregadores, funcionários de supermercado, dos transportes, da segurança pública. Além de um número imenso de profissões essenciais que também estão sob risco iminente de contaminação de SARS-Cov-2.

Apoio real na batalha

Existem várias maneiras de demostrar apoio a todos os profissionais de saúde a trabalhadores essenciais durante a pandemia, sem heroísmos. Lutar por condições de trabalho adequadas, prover equipamentos de segurança para todos, observar as recomendações de distanciamento e uso sistemático de máscaras.

Em oncologia praticamente já perdemos a batalha contra as metáforas bélicas, mas a experiência em oncologia pode ser um alerta na era da Covid-19.

Wakanda forever, Chadwik Boseman, nosso eterno super-herói Rei T’Challa, você não perdeu luta nenhuma. Sua vida foi incrível e ainda despediu-se deste mundo no simbólico dia em que se comemora mais um ano do discurso I have a dream de Martin Luther King em 28 de Agosto de 1963, neste mundo que ainda mata negros como George Floyd, Jacob Blake e tantos anônimos nas periferias das grandes cidades deste país apenas por serem negros. RIP.

Usemos metáforas com moderação, elas podem ser “campo minado”.

E se possível, vamos parar de usar a expressão “perdeu a luta contra o câncer” ou “perdeu a luta contra o coronavírus”. Não é justo.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Marron JM, Dizon DS; Symington B, Thompson MA Rosenberg AR, Waging War on War Metaphors in Cancer and COVID-19. Accepted on July 8, 2020 and published at org/journal/op on July 31, 2020. doi: 10. 1200/OP.20.00542

2 comentários

  1. Avatar
    Márcia Regina Costa

    Gilberto,boa tarde!

    Seu texto é preciso,quase cirúrgico eu diria mas, você é oncologista! Susan Sontag em seu livro, ‘A doença como metáfora'(1978) relacionou o adoecimento por tuberculose e por câncer, mais tarde ela incluiu a AIDS. A tuberculose teria uma aura de romantização, como.uma doença dos que sofrem por amor. O câncer com todo o estigma e medo de possível contágio, para a autora, parece ter ficado no contraponto e marcado pela dificuldade em se estabelecer qualquer relação, na época, das possíveis causas. Isto parece ter se somado às correlações entre doença e castigo, diante do sofrimento imposto pelo processo de tratamento, além do desconhecimento quanto ao tratamento da dor oncológica.
    Até o Pai da Psicanálise, em 1920 se utilizou dessa palavra com a conotação de algo a ser evitado e devastador diante de seus efeitos.
    A linguagem bélica, durante muito tempo serviu para um censo de “estamos juntos”, mas sabemos hoje, ser uma inverdade. Enquanto profissionais temos limites e o paciente e seus familiares fazem o possível. Ninguém é fraco ou forte! Há o imponderável a se presentificar na singularidade de cada corpo/organismo. Interessante relação com os efeitos da contaminação pelo Coronavírus.
    Obrigada, pela reflexão.
    Márcia Regina Lima Costa
    Psicóloga Clínica e Hospitalar
    Ms e Dra em Psicologia-UFRJ
    Profa Dra Adj. UNIGRANRIO
    Coord. Técnica Projeto Brincante/EEFD-IPPMG/UFRJ.

  2. Avatar
    Graça Evangelista

    Dr. Gilberto, que texto incrível e necessário, neste momento! Passarei para outras alguns amigos! Parabéns por compartilhar.

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