Ginecologia e Obstetrícia

Uso de aplicativo para explorar a subutilização profilática de aspirina para pré-eclâmpsia

Tempo de leitura: 3 min.

A pré-eclâmpsia é uma patologia caracterizada por elevação dos níveis pressóricos após 20 semanas associada a proteinúria. É a principal causa de morbimortalidade materna e neonatal acometendo, com exclusividade, 2 a 8% das gestações. É atualmente uma das poucas situações previníveis sendo responsável por até 15% dos casos de recém-nascidos prematuros. Estudos randomizados robustos concluíram que o uso profilático de aspirina (75 a 150 mg) diariamente pode ser benéfico na prevenção de complicações relacionadas à pré-eclâmpsia.

Entretanto para o sucesso da profilaxia, 3 fatores têm que estar presentes, simultaneamente:

  • Abordagem adequada da estratificação de risco até 16 semanas com identificação das pacientes elegíveis para receber a medicação — fator dependente da logística serviços de saúde e do conhecimento médico;
  • Comunicação de forma clara e adequada do médico para com a gestante de modo que as dúvidas sanadas sejam fator de melhor aderência ao tratamento e,
  • Aderência da paciente para as tomadas diárias da medicação — fator dependente da paciente.

Como toda doença crônica, as tomadas diárias de medicações podem ser um problema para sua manutenção, levando a esquecimento, rejeição e prejuízo da sua função preventiva.

Ouça também: Check-up Semanal: novos guidelines de sepse, aspirina na prevenção de pré-eclâmpsia e mais! [podcast]

Diante dessas premissas uma coorte publicada no JAMA Network Open/Obstetrics and Gynecology em 29 de outubro de 2021 avaliou essas três premissas para o sucesso da profilaxia utilizando o recurso de uma plataforma de saúde móvel chamada My Healthy Pregnancy (MHP). As análises testaram as premissas através das seguintes intervenções:

  1. Se as pacientes preenchiam os critérios da elegibilidade de alto risco realmente para uso de aspirina;
  2. Se preenchidos os critérios de alto risco, se as pacientes tinham entendido a importância do uso correto da medicação prescrita e,
  3. Se as pacientes elegíveis para uso estavam aderentes às tomadas diárias da medicação (aderência).

Essa abordagem permitiu avaliar quais seriam as possíveis causas da subutilização da medicação e melhoria na abordagem pré-natal.

O aplicativo era oferecido em duas plataformas (Apple e Android) gratuitamente na primeira consulta de pré-natal pelo pré-natalista. Os consentimentos englobam o anonimato dos dados, usado pelo médico pré-natal e pelos pesquisadores. O uso do aplicativo foi considerado parte do pré-natal. O aplicativo continha vários recursos de apoio à gestante:

  • Conteúdos educacionais sobre gestação;
  • Contador de movimentos fetais;
  • Cronômetro para contrações uterinas;
  • Área para registro de experiências gravidez;
  • Contato com serviços de saúde local;
  • Ativador de lembrete para consultas de pré natal;
  • Contato de serviços de emergência (911 nos EUA, médico pré natal, hospitais)
  • Contém ainda algoritmos para detecção de pré eclâmpsia, depressão ou parto prematuro;
  • Sob permissão da paciente, registros sugestivos de depressão ou diminuição de movimentos fetais poderiam ser enviados a um portal de registros médicos onde um software seria acessado por médicos onde esses riscos seriam vistos.

O aplicativo foi utilizado por 73,6% das pacientes do serviço de pré natal (2.563 pacientes). O aplicativo utilizou somente o inglês, então pacientes não familiarizados com a língua foram excluídos do estudo.

Resultados

As conclusões foram bem interessantes. Somente 46% das pacientes receberam indicação do uso de aspirina (menos da metade das pacientes elegíveis foram selecionadas pelos médicos pré natal para receber aspirina). Entre as pacientes com pelo menos 1 critério de alto risco para pré-eclâmpsia, somente 63% se lembram de ter recebido as informações de seu médico. Ainda 36,7% relatam não terem recebido nenhuma orientação. Todas as pacientes sem indicação de receber aspirina afirmaram terem sido orientadas corretamente.

Saiba mais: Uso de aspirina para prevenir pré-eclâmpsia diminui morbidade fetal e materna?

Conclui-se que existe um gap de comunicação entre as pacientes e os médicos de pré natal em orientar adequadamente as pacientes de risco para pré-eclâmpsia utilizarem a profilaxia com aspirina. Além disso, parece existir uma subutilização das escalas de risco pelos médicos de pré natal também em identificar as pacientes de risco. De um modo geral um aplicativo móvel pode ser um auxiliar bem vindo para identificação e auxílio na manutenção da profilaxia de pré-eclâmpsia. Estudos futuros deverão avaliar se a comunicação aplicativo móvel é mais vantajosa do que a comunicação médico–paciente. Neste estudo os resultados mostraram que sim.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Krishnamurti T, et al. Use of a Smartphone App to Explore Potential Underuse of Prophylactic Aspirin for Preeclampsia. JAMA Netw Open. 2021;4(10):e2130804. doi:10.1001/jamanetworkopen.2021.30804.
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Publicado por
João Marcelo Martins Coluna

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