Pediatria

Uso de calfactante em aerossol em neonatos com síndrome do desconforto respiratório

Tempo de leitura: 3 min.

Um estudo realizado nos Estados Unidos mostrou que, em recém-nascidos (RN) com dificuldade respiratória inicial de leve a moderada, o calfactante em aerossol na dose de 210 mg de fosfolipídios/kg de peso corporal reduziu a intubação e a instilação de surfactante quase pela metade. O artigo Aerosolized Calfactant for Newborns With Respiratory Distress: A Randomized Trial foi publicado no jornal Pediatrics.

Leia também: Você sabe o que é Síndrome do Desconforto Respiratório do recém-nascido?

Os surfactantes de origem animal diminuem a morbidade e a mortalidade entre os RN com síndrome do desconforto respiratório (SDR). A administração precoce de surfactante diminui o risco de lesão pulmonar e óbito neonatal em comparação com o tratamento tardio. A literatura sugere que o tratamento deva começar assim que os sinais de SDR surgirem. No entanto, a intubação endotraqueal, necessária para a administração de surfactante intratraqueal, pode ser difícil e prejudicial. As taxas de falha na primeira tentativa são altas e várias tentativas estão associadas a complicações. A lesão pulmonar ocorre com mais frequência em RN que precisam de intubação porque mesmo o uso breve de ventilação com pressão positiva inicia uma cascata inflamatória, levando a dano alveolar. Métodos menos invasivos de administração de surfactante estão sendo estudados na tentativa de evitar as complicações da intubação, incluindo o uso de um cateter intratraqueal ou dispositivo supraglótico para vias aéreas. Ambos os métodos, entretanto, ainda submetem o RN à manipulação das vias aéreas e/ou ventilação com pressão positiva. A administração de surfactante em aerossol evita a manipulação das vias aéreas e não requer habilidade técnica. Em modelos animais de SDR, o surfactante em aerossol mostrou melhorar as trocas gasosas e a mecânica pulmonar com menos distúrbios fisiológicos, além de sugerir uma distribuição mais homogênea do medicamento com essa forma de administração.

Método do estudo

Com a hipótese de que a aerossolização eficiente de um surfactante com baixa viscosidade, no início do curso de SDR poderia reduzir a necessidade de intubação e instilação de surfactante líquido, os pesquisadores Cummings e colaboradores conduziram um estudo comparativo prospectivo, multicêntrico, randomizado e não cego de calfactante em aerossol (Infasurf®) em neonatos com sinais de SDR que exigiram suporte ventilatório não invasivo. A suspensão intratraqueal Infasurf® é um surfactante pulmonar estéril apirogênico destinado apenas à instilação intratraqueal. É um extrato de surfactante natural do pulmão de bezerros que inclui fosfolipídios, lipídios neutros e proteínas B e C associadas ao surfactante hidrofóbico (SP-B e SP-C).

O calfactante foi administrado em aerossol usando um nebulizador Solarys® modificado com um adaptador de chupeta (o Solary®s é um dispositivo aprovado pelo Food and Drug Administration para a administração de medicamentos em pacientes intubados). Uma dose de 6 mL/kg (210 mg de fosfolipídeo/kg de peso corporal) foram administrados diretamente na boca do bebê. Os RN do grupo aerossol receberam até 3 tratamentos com, pelo menos, 4 horas de intervalo. Os RN do grupo controle receberam cuidados habituais, com intubação e instilação de surfactante.

Saiba mais: Escolhendo a PEEP ideal no paciente com Covid-19 grave: “PEEP or not to PEEP”?

Foram incluídos 457 RN de 22 Unidades de Terapia Intensiva Neonatal americanas. A mediana da idade gestacional foi de 33 semanas e a mediana do peso dos bebês ao nascer foi de 1960 gramas. No total, 230 RN foram aleatoriamente designados para o aerossol; 225 receberam 334 tratamentos, começando com uma mediana de 5 horas. As taxas de intubação para instilação de surfactante foram de 26% no grupo de aerossol e 50% no grupo de tratamento usual (P < 0,0001). Os desfechos ventilatórios até 28 dias de vida dos bebês não foram diferentes.

Resultados

De acordo com esse estudo, o calfactante em aerossol pode ser prontamente administrado a RN com dificuldade respiratória leve a moderada e reduz a necessidade de intubação e instilação de surfactante líquido durante os primeiros quatro dias de vida do bebê. Além disso, seu uso evita os riscos associados à intubação endotraqueal e amplia as oportunidades de terapia com surfactante no paciente hospitalizado.

O uso de surfactante em aerossol parece ser bastante promissor, mas acredito que seu custo possa ser um fator limitante à sua utilização em larga escala. Por outro lado, a redução de complicações também promove uma grande redução dos gastos hospitalares. O calfactante não está disponível no Brasil.

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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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