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A cannabis é uma substância muito conhecida e cujo consumo pode ser considerado como relativamente popular, tanto nos países onde é regulamentada como naqueles onde não é. De acordo com o relatório “Saúde Amanhã – Textos para Discussão – Epidemiologia do Uso de Substâncias Psicoativas no Brasil” da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), a prevalência do consumo na vida entre os 12 e os 65 anos no Brasil é de 7,7%. A prevalência anual seria de cerca de 2,5%. Esta seria a substância ilícita mais consumida no país. No artigo “Association of Cannabis Use During Adolescence With Neurodevelopment”, lançado este ano no JAMA Psychiatry, os autores pesquisam, com o uso de exames de ressonância magnética, o efeito do consumo de cannabis sobre neurodesenvolvimento do cérebro de adolescentes.

Sabe-se que durante a adolescência ocorrem alterações significativas no cérebro — algumas destas podem se relacionar a receptores endocanabinoides em certas regiões cerebrais. Entretanto, os mecanismos envolvidos em possíveis ou prováveis alterações secundárias ao uso de cannabis nesta faixa etária ainda não foram esclarecidos. Contudo, este consumo durante a adolescência parece estar relacionado a problemas de comportamento (impulsividade) e ligados ao funcionamento executivo. Compreender isso foi a motivação deste trabalho.

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Uso de cannabis na adolescência um estudo sobre seu impacto no neurodesenvolvimento

Metodologia do estudo

Para isso, os autores organizaram um estudo que acompanhou um grupo de adolescentes (799), com média de idade de 14,4 anos, a maioria do sexo feminino (56,3%), ao longo de 5 anos. Esses jovens foram recrutados entre 2008 e 2011 a partir de um outro estudo que já estava em curso em diversos centros de pesquisa em vários países europeus (IMAGEN). A população participante afirmou nunca ter feito uso de cannabis antes do início da pesquisa, além de possuir exames de neuroimagem que permitiam sua avaliação. O seguimento ocorreu entre 2013 e 2016. O uso de cannabis — e de outras substâncias (especialmente álcool e nicotina) — e alguns padrões de comportamento (ex.: impulsividade) foram avaliados através de questionários específicos. Também se aproveitou de um “mapa” de receptores cerebrais endocanabinoides (receptores CB1) para verificar como as regiões com mais receptores se apresentam. Do total, 161 adolescentes relataram entre 10 e mais de 40 usos de cannabis ao longo do período de seguimento, enquanto 208 participantes referiram entre 1 e 9 usos.

Como resultado, ao longo do período de 5 anos em que se seguiu estes adolescentes, os pesquisadores observaram uma associação dose-dependente entre o uso de cannabis e a espessura cortical do cérebro. Dessa forma, um maior uso de cannabis ao longo de 5 anos se associou a um maior afinamento dos córtex pré-frontais direito e esquerdo, com sobreposição parcial com as áreas com maior densidade de receptores CB1. Destaca-se também um afinamento da região dorsomedial do córtex pré-frontal direito — o que pode se associar a impulsividade atencional. Embora o afinamento cortical possa ter uma correlação com idade (pelo processo de amadurecimento cerebral), parece que com o uso de cannabis este afinamento foi mais pronunciado. Alguns dados sugerem que tais alterações não precederam — ou seja, não foram anteriores — ao uso de cannabis. Esses fatos podem sugerir que o consumo de cannabis entre o meio e o final da adolescência pode se associar à alterações do neurodesenvolvimento, especialmente das áreas pré-frontais de ambos hemisférios cerebrais — especialmente naquelas com maior quantidade de receptores CB1.

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Alguns estudos anteriores encontraram resultados semelhantes, outros encontraram aumento da espessura de algumas regiões do sistema nervoso central, enquanto outros não observaram diferenças estruturais entre usuários e não usuários de cannabis. Contudo, o início do uso durante a adolescência parece se relacionar a mais problemas do que se ocorresse mais posteriormente, na idade adulta. Trabalhos com modelos animais encontraram alterações comportamentais (redução da motivação e do comportamento social), cognitivas (déficit da memória de trabalho), na arquitetura dendrítica e relacionada a alguns neurotransmissores (glutamato e ácido gama-aminobutírico) ligadas à exposição ao THC (um dos compostos da cannabis) durante a fase correspondente à adolescência.

Conclusão

Portanto, supõe-se que seja possível que o neurodesenvolvimento de adolescentes seja especialmente sensível ao consumo de cannabis. Os resultados podem sugerir que as alterações relacionadas a essa substância poderiam influenciar as modificações no córtex cerebral já encontradas nessa faixa etária. Dessa forma, é possível que essa associação entre cannabis e neurodesenvolvimento se coloque como uma possível explicação para uma maior vulnerabilidade aos desfechos cognitivos entre adolescentes.

Este estudo é muito interessante e possui diversos méritos (como possuir uma grande amostra de pessoas no mesmo período do desenvolvimento), mas deve ser avaliado num contexto no qual possam ocorrer vieses. Por exemplo, é possível que ao responder as escalas sobre o padrão de consumo, os jovens não tenham sido honestos ou não se recordem tão bem de todas as circunstâncias de uso. Também não foi avaliada a forma pela qual os adolescentes utilizaram a cannabis (ex.: inalada ou na forma de produto alimentar). É possível também que algumas alterações observadas estejam mais relacionadas com a forma pela qual o desenvolvimento se daria, independentemente do uso de cannabis — o que seria refletido em desfechos cognitivos e/ou comportamentais independente de seu consumo. Entretanto, os pesquisadores creem ser pouco provável que alterações da maturação cerebral não tenham sido percebidas no início do trabalho. O “mapa” das áreas cerebrais com maior quantidade de receptores CB1 não foi feita especificamente com estes participantes, mas aproveitadas a partir de um outro estudo. Isso pode trazer a questão se esses receptores estariam distribuídos da mesma forma nesta amostra. Finalmente, não foi avaliado o impacto que esse consumo poderia ter em estruturas subcorticais, sendo esta uma sugestão para trabalhos futuros.

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