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Vasopressina

Vasopressina: conheça benefícios na prevenção de eventos cardiovasculares

Tempo de leitura: 3 minutos.

Você sabia que o tratamento padrão atual para o choque distributivo (incluindo choque séptico) causa algum evento adverso cardíaco significativo, ainda na internação da UTI, em até cerca de 50% desses pacientes?

Surge como uma possibilidade de droga para uso no contexto de choque distributivo a vasopressina (ADH), visto que esse hormônio tem ação vasopressora por ligar-se a receptores de vasopressina (V1, V2) localizados nas membranas das células musculares lisas da vasculatura periférica. Com o uso dessa medicação sozinha ou associada ao tratamento padrão atual para o choque distributivo, pode-se reduzir a utilização da medicação vasopressora catecolaminérgica, evitando assim a ocorrência de eventos cardíacos adversos associados ao uso das catecolaminas no tratamento da hipotensão presente no choque séptico.

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Sabemos do estudo da bioquímica e fisiologia básicas que as aminas vasopressoras (noradrenalina, dopamina, epinefrina) atuam nos miócitos cardíacos por meio do estímulo direto dos receptores adrenérgicos dos tipos alfa-1, beta-1 e beta-2, localizados na membrana de cada miócito. O estímulo desses receptores adrenérgicos nas membranas dos cardiomiócitos pelas moléculas das aminas vasopressoras aumenta nessas células cardíacas a condutibilidade (dromotropismo), o automatismo (cronotropismo) e a contratilidade (inotropismo).

Por esses vasopressores catecolaminérgicos atuarem no cardiomiócito através dessas propriedades eletromecânicas do miócito cardíaco, é que temos um maior risco de complicações cardíacas. As mais comuns, advindas do uso de aminas vasopressoras para tratamento do choque distributivo na UTI, são as taquiarritmias e, dessas, a mais recorrente é a fibrilação atrial.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada recentemente no JAMA tentou responder à pergunta se o uso de vasopressina, em concomitância à terapia padrão atual para o choque séptico (aminas vasopressoras), poderia reduzir os eventos cardíacos adversos associados ao uso das cetacolaminas nesse contexto. Foi comparado o tratamento padrão atual para choque distributivo séptico (com exceção de um estudo analisado, todos os outros eram de casos de choque séptico) versus infusão endovenosa de catecolaminas associadas à infusão de dose máxima tolerada de vasopressina.

O estudo não conseguiu demonstrar associação estatisticamente significativa entre a abordagem com utilização da vasopressina e melhora da sobrevida ou redução de mortalidade. No entanto, após análise de subgrupo do estudo com menor potencial de vieses, ficou demonstrado haver associação estatisticamente significativa entre a adição de infusão endovenosa de vasopressina ao esquema de tratamento convencional para o choque séptico e redução de incidência da complicação de surgimento de fibrilação atrial.

Em suma, ficou demonstrado que o uso de vasopressina no choque séptico como uma droga vasopressora, em adição ao tratamento convencional, reduz incidência de fibrilação atrial. Uma nova abordagem com inclusão da vasopressina ao arsenal terapêutico vasopressor no choque séptico poderá evitar complicações sabidamente advindas do surgimento da arritmia fibrilação atrial, sobrepondo-se a casos de choque séptico na UTI. O presente estudo sugere que o uso conjunto dessa droga (em associação com catecolaminas) poderá reduzir tempo de permanência do paciente na UTI e quem sabe chegar a reduzir a mortalidade associada ao surgimento das complicações cardíacas advindas do uso de catecolaminas nesses casos.

Por óbvio, conclui-se que são necessários outros estudos com mais delimitação de critérios de inclusão e exclusão, além de controle de outros vieses a fim de se obter poder estatístico suficiente para inferir-se de maneira fidedigna um efeito positivo, negativo ou neutro em relação à mortalidade do acréscimo da vasopressina no tratamento do choque séptico na UTI.

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Autor:

Felipe Lima Pedrozo

Graduado em Medicina pela UFRGS (2005) ⦁ Especialista em Cardiologia pela SBC e AMB ⦁ Pós-graduação em Medicina de Emergência no Instituto de Educação e Pesquisa do HMV-PoA, reconhecida pelo MEC ⦁ Especialização em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista no Hospital São Francisco do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre

Referências:

  • McIntyre WF, Um KJ, Alhazzani W, et al. Association of Vasopressin Plus Catecholamine Vasopressors vs Catecholamines Alone With Atrial Fibrillation in Patients With Distributive Shock A Systematic Review and Meta-analysisJAMA. 2018;319(18):1889–1900. doi:10.1001/jama.2018.4528

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