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concha de cozinha com um brócolis

Você conhece o impacto do vegetarianismo na infância e adolescência?

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Em julho deste ano, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou seu primeiro guia prático de Vegetarianismo na infância e na adolescência. A publicação chega em momento oportuno, pois vemos na prática diária o aumento de famílias que excluem as carnes, aves, peixes e seus derivados de sua alimentação. Inúmeros motivos levam a família a esta opção, de religião à preocupação com o meio ambiente.

Podem ser classificados de acordo com o consumo de subprodutos animais:

  • Ovolactovegetariano: utiliza ovos, leite e laticínios na alimentação;
  • Lactovegetariano: não utiliza ovos, mas faz uso de leite e laticínios;
  • Ovovegetariano: não utiliza laticínios, mas consome ovos;
  • Vegetariano: não utiliza nenhum derivado animal na sua alimentação;
  • Vegano: não utiliza qualquer alimento derivado de animal na sua alimentação, nem produtos ou roupas contendo estes alimentos, ou frequenta qualquer diversão que seja às custas de exposição animal (zoológicos, aquários).

A SBP é clara em alertar que os pediatras que atendem estas famílias devem se manter atualizados e atentos, afim de evitar deficiências de nutrientes importantes e repercussão na saúde destas crianças. Porém, se a dieta for balanceada, podemos ter crescimento e desenvolvimento adequados de crianças e adolescentes. A dieta vegetariana saudável, em geral, tem menor quantidade energética e gordura saturada e maior teor de fibras, frutas e vegetais, por refeição.

A prática do vegetarianismo não deve ser desencorajada, apenas orientada sobre a oferta de micro e macro nutrientes. Essas famílias em geral não fumam, bebem, nem usam drogas, e praticam atividade física regular, gerando um meio de exemplo saudável para as crianças e os adolescentes.

O aleitamento materno deve ser estimulado e encorajado em todas as mães. A orientação para a introdução alimentar é a mesma para todas as famílias, entretanto, o desmame é um momento de risco nutricional maior para as famílias que optam pelo vegetarianismo.

Veja também: ‘Os 10 pilares do aleitamento materno’

No Guia temos orientações nutricionais de suma importância que valem estar impressos para consulta diária, como:

– Energia: a recomendação de aporte energético é a mesma em vegetarianos e não vegetarianos, porém quanto mais restritiva é a dieta maior será o volume de alimento para alcançar o aporte ideal, o que pode levar a exceder a capacidade gástrica em lactentes, sendo necessário oferecer alimentos mais frequentemente. Em crianças maiores produtos com mais densidade calórica, como oleoginosas, podem ajudar.

– Proteína: a maior fonte de proteína vegetal advém das leguminosas, cereais, nozes e sementes. A ingestão de arroz e feijão fornece todos os aminoácidos essenciais. Alguns estudos sugerem acréscimo nos requerimentos de proteínas nas dietas vegetarias estritas.

– Gordura: o consumo deve variar de 25 a 35% do total de calorias. Crianças vegetarianas parecem consumir um pouco menos do que as onívoras e ovolactovegetarianas. Consumo menor que 25% proveniente das gorduras pode comprometer o crescimento, e valores abaixo de 15% estão ligados à deficiência de ácidos graxos essenciais.

– Fibras: o consumo regular de alimentos ricos em fibras, como frutas, verduras, legumes está associado à diminuição do risco de obesidade, câncer e doenças cardiovasculares. Crianças veganas podem consumir até 3x mais fibras que o recomendado, o que interfere com a absorção de minerais e diminui a ingesta de calorias (pela maior saciedade das fibras).

Mais da autora: ‘Síndrome de abstinência neonatal: buprenorfina pode ser a melhor opção?’

– Minerais:

  • Ferro: a deficiência de ferro mesmo sem anemia está associada a alterações do desenvolvimento neuropsicomotor, alteração do sistema imune e diminuição da capacidade de trabalho. A carência de ferro é muito prevalente na criança vegetariana. O ferro heme é altamente biodisponível, já o não heme possui biodisponibilidade bem menor.
  • Zinco: crucial para crescimento e desenvolvimento, é co-fator de inúmeras enzimas e componente estrutural de células. Metade do zinco corporal é de origem animal, e sua deficiência leva à alopecia, retardo no desenvolvimento, e susceptibilidade a infecções.
  • Cálcio: as crianças veganas que não consomem alimentos com boa biodisponibilidade de cálcio devem receber suplementação, preferencialmente entre as refeições, para melhor absorção. Na impossibilidade do aleitamento materno, fórmulas infantis à base de proteína hidrolisada de arroz ou isolada de soja.

O pediatra deve conhecer bem a dieta e por vezes buscar ajuda de nutricionistas e nutrológos para adequação do aporte de nutrientes. No entanto, a suplementação será necessária em muitos casos. Avalie bem seu paciente a fim de buscar garantir crescimento e desenvolvimento adequados enquanto respeita a decisão alimentar da família acompanhada.

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