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Você já ouviu sobre a ‘Text neck syndrome’ ou a ‘Síndrome do pescoço de texto’?

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A procura para o tratamento das cervicalgias e dores na região superior dos ombros aumentou nos últimos anos nas clínicas de ortopedia e de fisioterapia. Embora estudos ainda apontam que os distúrbios osteomusculares na região lombar são mais frequentes que na região cervical, esses dados podem modificar em futuro próximo, devido às mudanças sociais e tecnológicas.

Um importante fator influenciador desta mudança é o surgimento do telefone celular e dispositivos eletrônicos portáteis. Para se ter uma noção sobre o assunto, em 2012, na Suécia, o acesso aos smartphones foi de 99% entre adultos jovens, sendo que 79% usavam o celular para mensagens de texto via SMS diariamente. No Brasil, em 4 anos, o número de pessoas que usam smartphone subiu 3,5 vezes, passando de 14% em 2012 para 62% em 2016.

Diante do crescente número de usuários de smartphones, estudos recentes têm demonstrado uma correlação entre as cervicalgias e o uso do telefone celular. Recente revisão da literatura levantou que a prevalência de cervicalgia pode variar de 17% a 68% entre os usuários de smartphones (Xie et al., 2017). Um ponto que chama a atenção é que cada vez mais, os usuários de telefones celulares não o utilizam para falar, mas sim para navegar na internet e/ou digitar mensagens de texto via SMS ou via WhatsApp, o que não é uma boa ideia do ponto de vista biomecânico para a coluna cervical.

O processo de digitar mensagens ou textos no celular, principalmente na posição sentada, é a condição que causa maior flexão e sobrecarga na região do pescoço (Lee et al., 2014; Fares et al., 2017). Embora exista a necessidade de mais estudos nesta área, as pesquisas apontam que o aumento do tempo de uso e o quanto maior for a flexão do pescoço durante o uso do smartphone, maior é o risco de provocar distúrbios osteomusculares na região cervical.

Teoricamente, o aumento da flexão do pescoço durante o uso do dispositivo provoca alterações biomecânicas e sobrecarga muscular/articular na região cervical. Para ser ter uma noção da carga imposta na região cervical, a cabeça de um indivíduo adulto acarreta uma sobrecarga de aproximadamente 5kg de força sobre o pescoço em uma posição neutra. A medida que o pescoço é flexionado para frente, a sobrecarga na região aumenta para 18kg a 30° de flexão e para 27kg a 60° de flexão (Fares et al., 2017).

Diante dessas informações, surgiu o termo “text neck” ou “pescoço de texto”, que está sendo utilizado para descrever as alterações na região cervical devido ao uso excessivo de smartphone, tablet ou outros dispositivos eletrônicos portáteis. Os sinais e sintomas mais comuns são: dor inespecífica, espasmos e contratura muscular na região cervical e parte superior do tronco (trapézio).

Até o presente momento, o tratamento da cervicalgia devido à síndrome do pescoço de texto segue as recomendações tradicionais, que deve preconizar o tratamento conservador com medicamentos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) ou relaxantes musculares, associados com a fisioterapia. Nesses casos, quando for identificado a causalidade da cervicalgia associada ao uso excessivo do telefone celular, é fundamental a orientação educacional (empoderamento) do paciente para gerenciar melhor o tempo de uso do smartphone e evitar a flexão excessiva do pescoço durante a utilização do dispositivo (figura 1).

A “Síndrome do pescoço de texto” é um termo relativamente novo, sendo necessário estudos biomecânicos mais detalhados e com maior amostragem de participantes, bem com estudos longitudinais de longa duração para entender melhor os mecanismos de lesão e intervenção. De qualquer forma, é preciso estar atento com essa mudança cultural, física e psicológica que a “Era dos Smartphones” vem trazendo para a população e sociedade.

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Figura 1. Ilustração sobre a orientação educativa para o paciente. A figura A ilustra o excesso de flexão do pescoço durante a utilização do telefone celular. A figura B ilustra a postura correta durante o uso do celular, com a coluna cervical ereta; tronco ereto e apoiado no encosto da cadeira; ombros em posição neutra e relaxados; cotovelos em semiflexão para elevar a altura do aparelho celular e evitar a flexão do pescoço (arquivo pessoal).

 

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Referências:

  • Berolo S, Wells RP, Amick BC. Musculoskeletal Symptoms among Mobile Hand-Held Device Users and Their Relationship to Device Use: A Preliminary Study in a Canadian University Population. Appl Ergon. 2011;42(2):371–378.
  • Cuéllar JM, Lanman TH. “Text neck”: an epidemic of the modern era of cell phones? Spine J. 2017;17(6):901-902.
  • Fares J, Fares MY, Fares Y. Musculoskeletal neck pain in children and adolescents: Risk factors and complications. Surg Neurol Int. 2017;10:(8):72.
  • Gustafsson E, Thomée S, Grimby-Ekman A, Hagberg M. Texting on mobile phones and musculoskeletal disorders in Young adults: A five year chort study. Appl Ergon. 2017 Jan;58:208-214.
  • Lee S, Kang H, Shin G. Head flexion angle while using a smartphone. Ergonomics. 2015;58(2):220-6.
  • Martin BI, Deyo RA, Mirza SK, Turner JA, Comstock BA, Hollingworth W, et al. Expenditures and health status among adults with back and neck problems. JAMA. 2008;299(6):656–64.
  • Qaseem A, Wilt TJ, McLean RM, Forciea MA. Clinical Guidelines Committee of the American College of Physicians. Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017;166(7):514-530.
  • Xie Y, Szeto G, Dai J. Prevalence and risk factors associated with musculoskeletal complaints among users of mobile handheld devices: A systematic review. Appl Ergon. 2017;59(Pt A):132-142.

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