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No dia 19 de junho celebramos o Dia Nacional do Luto no Brasil. Esta data é importante para a construção de reflexões sobre os sentimentos de perda. A necessidade de discussão do tema se potencializou na pandemia quando de forma avassaladora milhares de pessoas morreram e outras milhares tiveram que conviver com a dor da perda de forma tão abrupta.

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O Sentimento de Luto e a Morte

Já se sabe que o luto é uma reação natural esperada, sendo considerado um tipo de reação a um acontecimento que evidencie o sentimento de perda. O processo do luto pode acontecer nas situações de adoecimento onde subjetivamente há perda da saúde ou mesmo quando há ligação com a finitude da vida. Pode acontecer quando perdemos entes queridos e passamos pelo sentimento de luto referido a possibilidade de perda ou real perda de outrem.

Cada um de nós, seja por tradição cultural, familiar ou por investigação pessoal, possuímos uma representação própria da morte, ainda que, de maneira dicotômica ela tenha associação com a ideia de perda, ruptura, desintegração, e por outro lado a ideia de entrega, descanso ou alívio do sofrimento.

A morte provoca muita dor aos que permanecem em vida nos dias atuais. Mas nem sempre ela foi compreendida dessa maneira. Profundas mudanças ocorreram acerca do conceito de morte e do processo de morrer diante dos avanços tecnológicos. Em contraste com os séculos anteriores, as conquistas da medicina possibilitaram um aumento da expectativa de vida, bem como a melhora na prevenção e tratamento das doenças, e mudanças nas condições de morrer. Dessa forma, diferentemente do que ocorria em outros momentos na história, os quais a morte era corriqueira e familiar, ela passa a ser ocultada da vida social. O tempo da morte passou a ser domínio dos médicos, que embora não pudessem suprimi-la, passaram a regular a sua duração.

A compreensão existencial de finitude de nossa sociedade é cada vez mais negada. Negamos o óbvio! Todos nós vamos morrer, cada um a seu tempo. Mas parece que com o desenvolvimento tecnológico e a possibilidade de maior qualidade de vida, a negação com os processos de partida, tão certa e natural, se tornou uma questão para a humanidade. Indubitavelmente o encontro com a morte não tem necessariamente a ver com o fim. O simples fato de adoecer, mesmo que haja tratamento e recursos para o pleno estabelecimento da saúde, pode fazer as pessoas se encontrarem com a possibilidade da fragilidade natural da existência humana, o que gera medo, temor e um processo complexo a ser entendido por esta pessoa e por quem a cuida.

Quando esse processo se dá relacionado a um ente querido, o sofrimento pode ser avassalador. Principalmente quando ocorre o fim da vida de forma a qual julgamos não ser a ordem natural das coisas, como a perda de uma criança. Nessa perspectiva, cuidar da criança em processo de morrer e morte gera conflitos pessoais acerca da qualidade do cuidado e sofrimento para o profissional de enfermagem.

O profissional de Enfermagem diante da morte de um paciente

Cuidar de pacientes com doenças graves, fora de possibilidade de cura ou que por algum motivo estejam vivenciando seus últimos momentos de vida provoca intensos dilemas éticos nas equipes de saúde. É extremamente complexo estabelecer limites entre o cuidado, alívio do sofrimento, fornecendo conforto e morte digna, e medidas invasivas e dolorosas decorrentes dos avanços tecnológicos, que só prolongam o sofrimento por algum tempo.

Nós, profissionais de enfermagem, estamos de frente aos diagnósticos de adoecimento, e também nos momentos antes, durante e depois da morte. Nosso cuidado se estende para aqueles que ficam, que podem tornar o luto um processo patológico e de grande sofrimento. Por vezes é necessário auxiliar na readaptação da nova realidade de pessoas que ficam vulneráveis, paralisadas e frágeis. Que inconscientemente produzem comportamentos mal adaptativos para a situação, não percebidos por si ou por seus familiares na maioria das vezes, mas facilmente reconhecidos por profissionais tecnicamente apurados.

Entretanto, alguns estudos revelam a frustração e o sentimento de impotência expresso pelos profissionais diante da morte de um paciente. Esse sentimento de impotência diante da terminalidade da vida revela o despreparo dos profissionais de enfermagem para acompanhar esse momento e pode ser relacionado a uma lacuna existente na formação, que ainda prioriza a cura do paciente e o restabelecimento da saúde como objetivo final o cuidado.

É importante destacar que os profissionais necessitam explorar práticas que considerem a sensibilidade para o cuidado, mas acima de tudo, apurado conhecimento na tecnologia relacional. Cabe utilizar os conceitos de Merhy (2006), no qual aborda que uma tecnologia leve no trabalho em saúde, seria aquela que passa por um processo de acolhimento, vínculo e atenção integral à saúde, considerando ações humanizadas no processo de cuidar.

A necessidade do cuidado e acolhimento humanizado frente ao processo de luto, se faz necessário quando compreende-se que o luto é uma tentativa de compreensão da realidade, da existência, do nosso lugar no mundo e de como será o nosso mundo pós as perdas que envolvem: perda da saúde, possibilidade da perda da vida, perda de um familiar, perda de um amigo, etc. A complexidade desse tema, promove profundas reflexões dos profissionais da saúde quanto às ações profissionais.

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Ações de Enfermagem diante do Luto

O luto tem em nossa sociedade uma ligação direta com morte. A filosofia é considerada por Sócrates, como a preparação para a morte sendo aquela que nos fará refletir sobre o que é morrer. Alguns filosófos dizem que morremos aos poucos ao longo da vida, convivendo com a morte daqueles que amamos, até que chegue a nossa própria morte. Seria o ensinamento natural da vida para o ser humano compreender melhor o luto?

A morte sempre foi um desafio para humanidade. Uma construção de experiências pessoais que envolve aspectos sociais, culturais, religiosos, pessoais e situacionais que transformam a concepção existencial. Na maioria das vezes não pensamos na morte até encontrá-la. Esse encontro não se dá apenas no encontro com nossa própria morte, mas com a morte daqueles que amamos, de pessoas próximas, de conhecidos, de celebridades ou mesmo de nossos pacientes.

Dessa maneira, entender a morte como processo natural e curso da vida é um ponto extremamente importante para que possamos realizar nossa assistência de forma humana e respeitando o processo de morte e morrer.

  • Contemplar as necessidades físicas, incluindo o tratamento dos sintomas, com vistas a aumentar a qualidade nos momentos finais da vida e garantir a dignidade do paciente antes e durante momento da morte e pós morte;
  • Respeitar a individualidade do paciente e sua família, pois mesmo que sejam realizadas as mesmas medidas para aliviar os sintomas físicos no momento da morte, a experiência da dor e do sofrimento são únicas e individuais a cada ser humano.
  • Preservar os princípios da bioética são imprescindíveis;

O adoecer é uma das experiências mais profundas frente a morte. Podemos ficar enlutados quando adoecemos e temos a possibilidade de morrer, mas quando o luto é com um ente querido, marcas desse luto podem nos acompanhar para o resto da vida. O que pode definir uma melhor readaptação são as intervenções de um profissional de saúde. Essas pessoas precisam de projetos terapêuticos singulares que as façam, compreender que o mundo é feito dos que vão, dos que ficam, da saudade, mas também da esperança, do recomeço, das experiências que elas ainda tem a viver. Não há fracasso diante do fim da vida de um paciente, é necessário que se compreenda a grandeza do ser humano que enfrentou a sua morte.

Autoria:

Nathalia Schuengue
Enfermeira pediatra pelo Instituto Fernandes Figueira • Mestre em saúde da criança pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Rafael Polakiewicz
Doutorando em Ciências do Cuidado em Saúde (UFF), Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde (UFF) e Especialista em Atenção Psicossocial.

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Referências bibliográficas:

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