Ginecologia e Obstetrícia

Whitebook: Como identificar e rastrear a depressão pós-parto?

Tempo de leitura: 4 min.

Esta semana, falamos no Portal PEBMED sobre detecção precoce de depressão pós-parto. Por isso, em nossa publicação semanal de conteúdos compartilhados do Whitebook Clinical Decision, vamos falar sobre a apresentação clínica e rastreio deste tipo de depressão.

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Este conteúdo deve ser utilizado com cautela, e serve como base de consulta. Este conteúdo é parte de uma conduta do Whitebook e é destinado a profissionais de saúde. Pessoas que não estejam neste grupo não devem utilizar este conteúdo.
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Apresentação Clínica

Anamnese

Quadro clínico: Os sinais e sintomas da depressão pós-parto são clinicamente indistinguíveis da depressão maior que ocorre em mulheres não gestantes e não puérperas. Normalmente, a doença se desenvolve de forma insidiosa nos primeiros três meses após o parto, embora a depressão pós-parto possa ter um início mais agudo. São pelo menos cinco sintomas (do DSM) presentes por pelo menos duas semanas. Um deles obrigatoriamente deve ser humor deprimido e/ou perda do interesse/prazer nas atividades.

Sintomas:

    • Humor deprimido ou disfórico;
    • Labilidade emocional;
    • Anedonia;
    • Insônia;
    • Fadiga;
    • Distúrbios do apetite;
    • Ideias suicidas e recorrentes de morte;
    • Ansiedade: chegando a interferir na capacidade da mãe em realizar suas atividades, promovendo risco de danos à mãe ou ao bebê;
    • Podem também compor o quadro a sensação de culpa, dificuldade de concentração e de tomada de decisões.

Alguns dos sintomas listados podem causar confusão diagnóstica, pois alterações geralmente comuns no puerpério podem ser confundidos com sintomas de um quadro depressivo (como alterações no sono, no apetite, na energia ou na libido).

A ansiedade é proeminente, incluindo preocupações ou obsessões sobre a saúde e o bem-estar do bebê. A mãe pode ter sentimentos ambivalentes ou negativos em relação à criança. Ela também pode ter medos e pensamentos intrusivos e desagradáveis sobre prejudicar a criança. O quadro pode variar conforme sua gravidade, o que é importante para determinar o tratamento.

Quando suspeitar:

    • Preocupação sobre sua capacidade de tomar conta da criança;
    • Falta de interesse na criança;
    • Não adesão aos cuidados pós-natais;
    • Desânimo há pelo menos duas semanas;
    • Visitas muito frequentes ao obstetra ou pediatra;
    • Uso de cigarro, álcool ou drogas ilícitas;
    • Percepções negativas sobre o comportamento ou temperamento do bebê;
    • Não responde às medidas de suporte e tranquilização;
    • Ansiedade sobre a saúde do bebê.

Marcadores de gravidade:

    • Sintomas ansiosos;
    • Ideação suicida;
    • Início dos sintomas durante a gestação;
    • Escore > 20 na escala de Edimburgo;
    • Complicações obstétricas (ex.: hemorragia ou baixo peso ao nascer).

Fatores de risco:

    • Maior sensibilidade a alterações hormonais;
    • Fatores psicossociais: apoio social inadequado, discórdia ou insatisfação conjugal/conflitos maritais ou eventos negativos recentes da vida, como morte na família, dificuldades financeiras ou perda de emprego, migração no periparto;
    • Histórico prévio pessoal ou familiar de depressão durante a gestação e no puerpério (um dos principais fatores);
    • História prévia de depressão maior (um dos principais fatores);
    • História familiar de transtorno psiquiátrico;
    • Transtornos ou sintomas ansiosos perinatais;
    • Alterações do sono no período perinatal;
    • Estresse;
    • Gestação não planejada;
    • Insatisfação com a imagem corporal (especialmente perinatal);
    • Problemas de saúde na fase perinatal (obesidade, hipertensão, diabetes, infecção, etc.);
    • Dificuldades no aleitamento (o que inclui curta duração e cessação);
    • Aspectos relativos à personalidade (ex.: raiva, preocupação, ansiedade, culpa);
    • Pacientes jovens (< 25 anos);
    • Estado civil: solteira;
    • Multiparidade;
    • Atitude ou visão negativa ante à gestação;
    • Medo do parto;
    • História prévia de transtorno disfórico pré-menstrual;
    • Questões sazonais (menor incidência de luz solar em algumas épocas do ano);
    • Sofrer violência pelo parceiro ou história de abuso físico ou sexual;
    • Estresse no cuidado de um bebê com choro inconsolável, de temperamento difícil ou com alterações do sono;
    • Desfecho adverso na gestação ou no período neonatal (ex.: parto pré-termo, muito baixo peso ao nascer, etc.);
    • Blues puerperal.

Exame Físico

Alterações típicas do puerpério e que podem se confundir com sintomas depressivos, como:

  • Alterações no sono;
  • Mudanças nos níveis de energia;
  • Alterações no apetite;
  • Diminuição da libido.

Rastreio

Triagem para transtornos de humor pós-parto: O rastreio de todas as mães durante o período anteparto e pós-parto é indicado. A seleção de mulheres para sintomas depressivos durante a gravidez também pode ajudar a identificar as mulheres com maior risco de depressão pós-parto.

Ferramentas de triagem:

A Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo (EPDS) é um questionário de dez itens, respondido pela própria paciente e utilizado amplamente para a detecção de depressão pós-parto. A pontuação das respostas é dada como 0, 1, 2 ou 3 (máximo de 30 pontos). Uma pontuação ≥ 10 no EPDS ou uma resposta afirmativa sobre a questão 10 (presença de pensamentos suicidas) requer uma avaliação mais aprofundada.

  1. Tenho sido capaz de rir de mim mesma e ver o lado divertido das coisas: (a) tanto como antes; (b) menos do que antes; (c) muito menos do que antes; (d) nunca.
  2. Tenho tido esperança no futuro: (a) tanta como sempre tive; (b) menos do que costumava ter; (c) muito menos do que costumava ter; (d) quase nenhuma.
  3. Tenho me culpado sem necessidade quando as coisas correm mal: (a) sim, a maioria das vezes; (b) sim, algumas vezes; (c) raramente; (d) não, nunca.
  4. Tenho estado ansiosa ou preocupada sem motivo: (a) não, nunca; (b) quase nunca; (c) sim, por vezes; (d) sim, muitas vezes.
  5. Tenho me sentido com medo ou muito assustada sem motivo: (a) sim, muitas vezes; (b) sim, por vezes; (c) não, raramente; (d) não, nunca.
  6. Tenho sentido que são coisas demais para mim: (a) sim, na maioria das vezes não consigo resolvê-las; (b) sim, por vezes não tenho conseguido resolvê-las como antes; (c) não, na maioria das vezes resolvo-as facilmente; (d) não, resolvo-as tão bem quanto antes.
  7. Tenho me sentido tão infeliz que durmo mal: (a) sim, quase sempre; (b) sim, por vezes; (c) raramente; (d) não, nunca.
  8. Tenho me sentido triste ou muito infeliz: (a) sim, quase sempre; (b) sim, muitas vezes; (c) raramente; (d) não, nunca.
  9. Tenho me sentido tão infeliz que choro: (a) sim, quase sempre; (b) sim, muitas vezes; (c) só às vezes; (d) não, nunca.
  10. Tive ideias de fazer mal a mim mesma: (a) sim, muitas vezes; (b) por vezes; (c) muito raramente; (d) nunca.

Resultado: As respostas são cotadas em 0, 1, 2 e 3, de acordo com a gravidade crescente dos sintomas. As questões 3, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 são cotadas inversamente (3, 2, 1, 0). Cada item é somado aos restantes para obter a pontuação total. Uma pontuação de 12 ou mais indica a probabilidade de depressão, mas não a sua gravidade.

Ferramenta alternativa: PHQ-9 (disponível em português).

Este conteúdo foi desenvolvido por médicos, com objetivo de orientar médicos, estudantes de medicina e profissionais de saúde em seu dia a dia profissional. Ele não deve ser utilizado por pessoas que não estejam nestes grupos citados, bem como suas condutas servem como orientações para tomadas de decisão por escolha médica. Para saber mais, recomendamos a leitura dos termos de uso dos nossos produtos.
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Publicado por
Clara Barreto

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