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médico com o óculos em uma mão e a outra mão no rosto, com ansiedade na covid-19

A ansiedade nos profissionais de saúde durante a pandemia pela Covid-19

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Este artigo de abril do JAMA discute algumas das principais causas de ansiedade entre os profissionais de saúde durante a pandemia por Covid-19. Afinal, trata-se de uma das maiores crises mundiais de saúde em décadas, causando repercussões nas vidas de milhares de pessoas em todo mundo, mas de forma especial naqueles que lidam com a assistência aos doentes.

Covid-19 e estresse dos profissionais

Nas mais diversas localidades os profissionais de saúde estão sendo convocados a trabalhar, muitas vezes na linha de frente. A rápida disseminação da doença e a gravidade dos sintomas numa parcela dos pacientes causa grandes preocupações sobre a capacidade dos sistemas de saúde de lidarem com a demanda. Já é conhecida a preocupação envolvendo o número de leitos e de respiradores disponíveis, mas é necessário avaliar as condições que os profissionais de saúde devem encontrar ao exercer a sua função.

Um maior número de profissionais, dentre médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros, vem sendo necessário, mas outro desafio reside em proporcionar condições para que possam lidar com o elevado número de pacientes. E, como essa situação pode se prolongar no médio/longo prazo, deve-se pensar que esses trabalhadores também deverão se manter ativos por um período prolongado de tempo. Por isso, devemos considerar que os profissionais de saúde não lidam apenas com as questões que já afligem o resto da população, mas também sofrem maior risco de exposição à doença, turnos de trabalho mais intensos, transferência ou mudanças do seu ambiente de trabalho e dilemas morais.

Ouça também: Saúde mental dos profissionais em tempos de coronavírus

Logo, devemos tentar compreender quais as principais fontes de ansiedade e medo deste grupo para depois pensarmos em estratégias adequadas. A melhor forma de fazermos isso é perguntando diretamente. Por isso este artigo relata que abordaram alguns médicos, enfermeiros, residentes, dentre outros durante as primeiras semanas da pandemia. Um total de 69 indivíduos responderam sobre suas maiores preocupações, o que esperam das figuras de liderança e que outras fontes de apoio eles consideram que seriam mais importantes neste momento.

O resultado é que esta discussão se concentrou em oito possíveis fontes de ansiedade:

  • Acesso aos equipamentos de proteção individual (EPI);
  • Ser exposto à doença e retransmiti-la a seus familiares;
  • Medo de não ter acesso aos testes diagnósticos caso apresentem sintomas e de infectar os colegas do trabalho;
  • Insegurança sobre o que acontecerá a eles ou seus familiares caso desenvolvam a doença;
  • Preocuparem-se sobre os cuidados dos seus filhos e familiares quando a sua carga horária de trabalho aumentar;
  • Preocupação sobre as necessidades de suas famílias e de seu abastecimento enquanto estiverem sob maior demanda de trabalho;
  • Questionamentos se conseguirão desempenhar bem suas atividades, caso sejam transferidos para outro setor ou outra área (ex: equipe que não está acostumada com terapia intensiva ser transferida para um CTI);
  • Restrição de acesso à informação e comunicação.

Essas questões não necessariamente geram ansiedade em todos os profissionais, mas podem diminuir a sensação de confiança no sistema de saúde e em si mesmas, justamente no momento de maior necessidade.

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Estratégias de apoio

Reconhecer esses fatores ansiogênicos permite o desenvolvimento de estratégias de apoio. Podemos reorganizar os tópicos acima em cinco necessidades desses profissionais e o que seriam estratégias ideais para lidar com elas:

  1. De serem ouvidos: alguns profissionais podem não ter certeza se suas necessidades e medos são compreendidos por seus chefes e líderes. Para lidar com isso, pode-se sugerir o desenvolvimento de canais de comunicação (ex: emails), de visitas dos chefes às unidades de saúde e/ou tentar fazer com que o profissional sinta que sua fala está sendo considerada na hora da tomada de decisões.
  2. De se sentirem protegidos: consiste em reduzir o risco de infecção dos profissionais de saúde e de transmissão da doença aos seus familiares. Além da preocupação com EPI, há o medo de transmissão para os familiares e de não conseguir ser testado para a doença caso apresente sintomas. Portanto, deve-se garantir EPI, testes e acomodações para esses profissionais quando for necessário.
  3. De se sentirem preparados: os profissionais de saúde sentem a necessidade de receberem apoio e de serem treinados para darem o suporte adequado aos pacientes. Muitos se preocupam de serem mudados de setor e se questionam se teriam condições de fazer o que é solicitado no novo departamento. Por isso é necessário desenvolver com eles um treinamento básico e conceder acesso aos profissionais originais do setor para onde foram designados de forma que possam tirar dúvidas ou solicitar ajuda. É interessante desenvolver a ideia de que ninguém precisa tomar decisões difíceis sozinho.
  4. De receberem maior suporte: há maior necessidade de suporte dos amigos e familiares nestes momentos difíceis em que há aumento da jornada de trabalho e fechamento de creches e escolas. Também é necessário que tenham acesso à alimentação saudável e à hidratação enquanto trabalham. Além disso são necessárias acomodações para os que moram longe do hospital, ajuda com o transporte (principalmente ao fim de um plantão exaustivo), além de assistência psicológica e emocional.

De saberem que eles e suas famílias também terão algum cuidado: afinal, o profissional se vê numa situação de incerteza (“quem cuidará da minha família se eu ficar doente?”). Seria interessante a articulação de uma rede de cuidados dos familiares desses profissionais, envolvendo desde um maior suporte ou facilidade para conseguirem comida, cuidados com os filhos, manutenção dos salários mesmo quando o profissional estiver afastado por ter se infectado e apoio emocional.

Veja ainda: Transtornos relacionados ao estresse: como identificar possíveis casos durante a Covid-19?

Resumindo, os profissionais de saúde querem garantias de que eles e suas famílias receberão apoio. Isso envolve ouvir suas preocupações, fazer o que for possível para protegê-los e prevenir que sejam infectados, mas se o forem que eles e suas famílias receberão o suporte necessário.

É importante pedir ajuda

Outra questão que devemos considerar é que profissionais da saúde tendem a ser muito autoconfiantes e não costumam pedir ajuda. Essas características podem colocá-los numa posição de dificuldade num momento em que estão sendo redirecionados para outras áreas que não da sua especialidade, podem ficar sobrecarregados de trabalho e ainda por cima tendo que lidar com uma doença desconhecida. Por isso devemos encorajar esses colegas a solicitarem ajuda sempre que necessário e as figuras de liderança podem desempenhar um importante papel aqui.

Falando em liderança, muitos colegas também sentem falta ou necessitam de uma figura de liderança, como o enfermeiro-chefe, chefes de divisão, gerente ou os proprietários dos estabelecimento onde trabalham, como referência neste momento. Estes, por sua vez, precisam desenvolver formas criativas de estar presente e dar apoio, mesmo com algumas restrições.

É importante que essas referências compreendam as preocupações e legitimem os sentimentos envolvidos, ao mesmo tempo que tentam desenvolver estratégias para lidar com as demandas que forem surgindo. Vários profissionais já indicaram que apreciam quando essas figuras de liderança visitam o estabelecimento para tentar avaliar o funcionamento das coisas. Não é esperado que eles tenham todas as respostas, mas que que sejam capazes de resolver rapidamente os desafios conforme surgirem. Mesmo que não consigam resolver tudo, só de estarem mantendo o contato, ouvindo e dando um retorno sobre as providências que estão tomando, isso por si só já é apreciado pelos funcionários e pode trazer benefícios a eles.

Finalmente, devemos nos lembrar que expressões de gratidão aos profissionais de saúde contribuem para que eles mantenham seus trabalhos nos cuidados na linha de frente dos atendimentos. Isso ajuda a motivar e a reforçar os sentimentos de compaixão, o que por sua vez ajuda a superar os medos e angústias envolvidos quando se está em contato direto com essa doença temida e cujos mecanismos de ação ainda não são completamente conhecidos.

Para mais informações sobre aspectos relevantes para a saúde mental dos profissionais de saúde e outros grupos populacionais durante a atual pandemia, acesse o artigo que resume as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) aqui no portal.

Autora:

Referência bibliográfica:

Um comentário

  1. Avatar
    Antonio Ramires de Carvalho

    Parabéns pelo excelente artigo!
    Se gestores, proprietários e diretores de hospitais, chefes de equipe e parceiros de equipe melhores preparados tivessem essas preocupações em relações aos que estão nas linhas de frente, o mesmos não se sentiriam “jogados aos leões”. Pelo contrário, em vez de medo, apreensão e desequilíbrios psicológicos, teriam sua auto-estima elevada e sentiriam-se mais orgulhosos de sua profissão.

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