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Acidente vascular encefálico na mulher: o que precisamos saber

Tempo de leitura: 4 minutos.

As doenças cardiovasculares são alvo de muitos estudos, devido alta prevalência na população e seus impactos na saúde, produtividade e qualidade de vida. A despeito dos dados epidemiológicos, que evidenciam que a população feminina está tão (e às vezes até mais) susceptível a tais doenças quanto os homens, na maioria dos estudos as mulheres estão em uma proporção muito menor.

O acidente vascular encefálico (AVE) é a terceira maior causa de morte entre mulheres nos Estados Unidos. Em países desenvolvidos, o risco da doença é maior no sexo feminino. Estima-se que nos EUA anualmente a incidência de AVE entre mulheres supera em 55 mil casos o número de homens acometidos.

A presença das mulheres nos trials sempre deixou a desejar. Em 1970, elas representavam apenas 9% da população avaliada nos estudos de doenças cardiovasculares. Em 1985, passaram a representar cerca de um terço dos pacientes avaliados. Em 2014, é lançado o primeiro guideline específico sobre AVE em mulheres.

A resvista Stroke trouxe em suas últimas publicações dois interessantes artigos sobre fatores de risco de AVE para mulheres: “Stroke in Women – Recognizing Opportunities for Prevention and Treatment” e “Stroke Risk Factors Unique to Women”.

A maioria dos fatores de risco para AVE é comum para ambos os sexos: hipertensão arterial, hiperlipidemia, diabetes melito, tabagismo, fibrilação atrial. Existem fatores que são exclusivos do sexo feminino: diferenças hormonais, uso de estrógenos exógenos e gravidez. Os fatores de risco de maior impacto para as mulheres são: hipertensão arterial, obesidade abdominal e dislipidemia.

O foco deste artigo é expor um breve resumo dos fatores de risco específicos para o sexo feminino.

O PAPEL DOS ESTRÓGENOS

A relação entre estrógenos e aumento de risco de doenças cerebrovasculares já é bem conhecida. Mas tal relação tem suas nuances e varia com a idade da paciente, com as características hormonais de cada fase da mulher.

A idade da menarca parece ter influência no risco de AVE. Idade precoce para primeiro catamênio é um fator de risco para AVE no futuro. Além de aumentar a morbidade e mortalidade relacionadas à doença, relaciona-se também a um maior risco de diabetes tipo 2.

Precocidade na menopausa também parece aumentar o risco de doença cerebrovascular (DCV). Essa relação de aumento também se observa na menopausa cirúrgica (ooferectomia com ou sem histerectomia).

O uso de contraceptivos orais combinados (sobretudo com dosagens de estrógenos acima de 30 microgramas) incrementam o risco de AVE, principalmente quando associados a migrânea com aura e tabagismo.

Um outro momento no qual o uso de estrógenos está presente na vida da mulher é no da pós-menopausa. As terapias de reposição hormonal a base de estrógenos elevam as chances de AVE isquêmico.

Apesar de poucos estudos sobre uso de estrógenos por homens transgêneros (para aquisição/desenvolvimento de caracteres femininos), há indícios de que ocorre aumento no risco de AVE isquêmico.

Grandes variações hormonais são observadas em gravidez e parto. Observando-se também elevação de risco para eventos cerebrovasculares. Os dois dias que antecedem o parto e o dia seguinte são os de maior impacto, tanto para eventos isquêmicos como para hemorrágicos.

Resumo dos fatores de risco para AVE específicos em mulheres

Fator de exposição

Risco de associação

Hormônios endógenos

Menarca precoce (<10 anos)

Aumentado

Menopausa precoce (<45 anos)

Aumentado

Idade reprodutiva

Não determinado

Baixo nível de Dehidroepiandrosterona (DHEAS)

Aumentado

Estradiol endógeno

Não determinado

Testosterona

Não há aumento

Hormônios exógenos

Pós-menopausa: estrógenos orais

Aumento do risco

Pós-menopausa: estrógenos transdérmicos

Não determinado

Contraceptivos orais combinados

Aumento

Contraceptivos apena com progestágeno

Não há aumento

Uso de estrógenos por transgêneros

Aumento

Uso de testosterona por transgêneros

Não há aumento

Fatores relacionados à gestação

Gravidez e períodos peri-parto

Aumento

Diabetes gestacional

Aumento

Hipertensão gestacional/pré-eclampsia

Aumento

*Adaptado de Stroke. 2018;49:00-00. DOI: 10.1161/STROKEAHA.117.018415

 

Outros fatores de risco

Além dos fatores de risco específicos relacionados ao sexo feminino, os fatores de risco comuns a ambos os sexos têm impacto diferente entre as mulheres. Elas experimentam maior risco quando portadoras de fibrilação atrial (FA), com aumento de incidência de mortalidade dos eventos cerebrovasculares. A prescrição de anticoagulantes orais em FA para mulheres é menor, bem como a de estatinas, independente do risco da paciente.

Assim como nas doenças coronarianas, no AVE, o tratamento proposto às mulheres é menos agressivo quando comparado aos homens.

Entre mulheres, o desfecho das doenças cerebrovasculares tende a ser pior, com maiores limitações e mais depressão pós-AVE (havendo o viés de que em geral no momento do AVE as mulheres são mais velhas e com mais comorbidades).

Apesar dos fatores de risco específicos para mulheres serem muitas vezes não-modificáveis, a maior parte dos fatores não-específicos (em torno de 90%) são modificáveis. Hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade e sedentarismo podem ser prevenidos ou controlados. Tais comorbidades devem ser agressivamente tratadas e abordadas de forma preventiva nas mulheres para reduzir o risco de eventos cerebrovasculares nessa população.

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Autor:

Referências:

  • Eric Kaplovitch, MD; Sonia S. Anand, MD, PhD, FRCPC. Stroke in Women Recognizing Opportunities for Prevention and Treatment. Stroke. 2018;49:00-00. DOI: 10.1161/STROKEAHA.117.020354
  • Stacie L. Demel, DO, PhD; Steven Kittner, MD, MPH; Sylvia H. Ley, PhD, RD; Mollie McDermott, MD, MS; Kathryn M. Rexrode, MD, MPH. Stroke Risk Factors Unique to Women. Stroke. 2018;49:00-00. DOI: 10.1161/STROKEAHA.117.018415

Um comentário

  1. GRACILANDI MARQUES DE SOUSA

    Valeu a matéria Sou acadêmica de Enfermagem V semestre e irei abordar em um seminário exatamente este assunto.Obrigada.

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