Home / Clínica Médica / Acompanhamento leigo por telefone ajuda na diminuição do sentimento de solidão?

Acompanhamento leigo por telefone ajuda na diminuição do sentimento de solidão?

Sua avaliação é fundamental para que a gente continue melhorando o Portal Pebmed

Quer acessar esse e outros conteúdos na íntegra?

Cadastrar Grátis

Faça seu login ou cadastre-se gratuitamente para ter acesso ilimitado a todos os artigos, casos clínicos e ferramentas do Portal PEBMED

Desde o início da pandemia de Covid-19 muito vem sendo discutido sobre sintomas, como a solidão, e o seus impactos. Ela parece estar relacionada a doenças cardiovasculares e transtornos mentais. Uma das populações com maior risco de sofrer com isso são os idosos, especialmente aqueles em situação socioeconômica mais vulnerável.

Trabalhos já publicados sugerem que algumas intervenções usando técnicas de terapia cognitivo-comportamental (TCC) são eficazes para abordar essa queixa, embora isso exija profissionais treinados. Por isso, no artigo publicado no JAMA Psychiatry ao final de fevereiro de 2021 (Effect of Layperson-Delivered, Empathy-Focused Program of Telephone Calls on Loneliness, Depression, and Anxiety Among Adults During the COVID-19 Pandemic – A Randomized Clinical Trial), os autores propõem avaliar a eficácia de uma abordagem feita através de ligações telefônicas realizada por atendentes leigos, que passaram por um rápido treinamento para oferecerem um atendimento empático.

Leia também: Depressão e ansiedade x adolescência

As características deste atendimento empático são o estímulo à conversação sobre temas escolhidos por quem está recebendo a chamada e a prioridade da escuta. Na primeira parte da intervenção (primeiros 5 dias) as ligações ocorrem diariamente, sendo depois realizadas na frequência com a qual os participantes gostariam de ser contatados. O objetivo era avaliar o quanto isso poderia impactar na saúde mental e no sentimento de solidão durante a pandemia.

Acompanhamento leigo por telefone ajuda na diminuição do sentimento de solidão?

Como foi realizado o estudo?

Os participantes foram selecionados a partir de uma população vulnerável que recebia alimentação oferecida por um programa assistencial na região de Austin, no Texas (EUA) e que tivessem interesse em participar. Esta amostra foi composta por 240 pessoas. Foram excluídos aqueles que não tinham interesse, não consentiram ou possuíam condições que limitassem sua participação, como alterações cognitivas. Eles foram distribuídos em 2 grupos de 120 pessoas usando um sistema de randomização em blocos: o grupo que receberia as intervenções (ligações telefônicas) e o grupo controle (que não receberia as ligações, mas que recebeu um pequeno incentivo financeiro ao final do estudo). Contudo, todos foram contatados ao final do período do estudo para fins de seguimento dos parâmetros avaliados.

Já a equipe de leigos que faria a intervenção (atendentes) foi recrutada através de serviços de mala direta e redes de contatos. Foram selecionados 16 colaboradores entre 17 e 23 anos que, apesar de voluntários, receberam uma remuneração ao final do estudo. O treinamento dessa equipe durou cerca de 1 hora e foi realizado primeiramente através de uma videoconferência, enfatizando que o objetivo era realizar perguntas específicas sobre temas levantados pelos próprios participantes. Um pequeno vídeo demonstrando a técnica foi exibido. Também foi fornecido, separadamente, materiais contendo a logística do programa, com duração inferior a 1 hora. Não foi estabelecida nenhuma forma de roteiro ou treinamento em técnicas de psicoterapia (TCC). O tempo de duração da intervenção foi de 4 semanas e cada atendente contatou entre 6 e 9 participantes.

Apesar de a duração das ligações não ter sido limitada e poder se prolongar, o ideal seria que durassem menos do que 10 minutos. Elas eram realizadas nos momentos do dia solicitados pelos participantes e ocorreram com frequência diária na primeira semana (5 dias). Após este período, as ligações ocorreram na frequência desejada pelos participantes, sendo o mínimo de 2 e o máximo de 5x/semana. A maioria dos participantes (58%) optou por receber ligações 5x/semana. Os atendentes anotavam as interações diárias, incluindo itens para abordarem na próxima ligação, eventuais problemas ou o não atendimento do chamado. Uma vez por semana os organizadores do estudo faziam uma sessão com os atendentes para avaliar o feedback dos trabalhos que poderiam lhes dar.

Para avaliar a solidão, o desfecho primário deste trabalho, foram utilizadas 2 escalas (De Jong e UCLA Loneliness Scale) antes do início da intervenção e após a mesma. Outras escalas foram usadas para mensurar os desfechos secundários: PHQ-8 para depressão, GAD-7 para ansiedade, LSNS para conexão social e SF-12 para outros elementos de avaliação geral da saúde. Ao final da pesquisa também foi avaliado o grau de satisfação entre aqueles que receberam a intervenção. Os dados demográficos foram informados pelos próprios participantes.

Resultados

Ao longo da duração do programa, 13 participantes no grupo de intervenção perderam o seguimento e 1 no grupo de controle. Esses participantes perdidos foram comparados com os demais que terminaram todas as avaliações, não sendo observadas diferenças em vários parâmetros, inclusive demográficos. A maior parte dos participantes era do sexo feminino, cerca de um terço era composto por afro-americanos, mais da metade vivia sozinha e todos os participantes (em ambos os grupos) tinham pelo menos 1 doença crônica. Apenas uma minoria era casada, sendo a maior parte viúva, divorciada ou solteira. Em média, a percepção do estado de saúde dos participantes era “boa”. A maioria dos participantes também acreditava que a pandemia de Covid-19 havia alterado seu contato social, embora muitos ainda recebessem visitas.

Saiba mais: Covid-19: Qual a relação entre a solidão e os sintomas psiquiátricos na população idosa?

Ao final do estudo foi observado que os participantes da intervenção apresentaram melhoras nos resultados de uma das escalas de solidão, enquanto a outra não encontrou significância estatística. Quando comparados ao grupo de controle, os que receberam a intervenção mostraram melhoras nos sintomas de ansiedade e depressão. Para avaliar a relevância desses achados foram comparadas as proporções de participantes que tinham ao menos sintomas leves de um dos quadros no início do trabalho com os assintomáticos ao final. As reduções foram significativas para ansiedade (de 50% para 36% no grupo de intervenção versus de 49% para 50% no grupo de controle). O grupo de intervenção também apresentou redução dos sintomas depressivos, embora não tenha sido estatisticamente significativa. Em relação à saúde mental, o grupo de intervenção apresentou maiores melhoras na pontuação da escala usada do que o grupo controle. Quanto à percepção da saúde física, assim como era esperado, não se observou diferenças estatisticamente significativas. Ao final do estudo, o grupo de intervenção deu uma nota de 4,52 (numa escala até 5) para o programa, com 88% dos participantes se mostrando satisfeitos e 65% como muito satisfeitos.

Conclusão

Alguns poucos ensaios clínicos de alta qualidade feitos anteriormente já haviam reduções de moderadas a grandes da solidão com o uso de técnicas de TCC, sendo consistente com os achados verificados aqui. Contudo, neste trabalho verificou-se também uma extensão de seus efeitos para os sintomas de ansiedade e para a saúde mental em geral.

Contudo, é necessário destacar algumas limitações deste estudo. Inicialmente os autores destacam que, apesar do elevado grau de satisfação dos participantes, não foi possível avaliar o grau de empatia dos atendentes e nem se a duração da conversa afetou os resultados. Outra é não saber se os benefícios deste programa se estendem para além das 4 semanas de intervenção e por quanto tempo. Neste trabalho também não foi possível determinar se a melhora na solidão determina os melhores resultados de saúde mental. A maior parte da perda de seguimento dos participantes ocorreu nas primeiras 2 semanas do estudo, indicando que futuros trabalhos devem levar isso em consideração. O fato de ter sido realizado durante a pandemia pelo Covid-19 também foi considerado como limitador. Além dessas limitações referidas pelos autores, é necessário lembrar que este estudo foi realizado com a população de uma determinada área dos EUA, o que pode limitar as generalizações das suas conclusões.

Ainda assim, os resultados sugerem que programas envolvendo treinamentos rápidos de uma população leiga voluntária para a realização de atendimento telefônico empático podem resultar, no devido contexto, em melhoras na percepção da solidão e em alguns sintomas da saúde mental. Essas características podem sugerir que esse tipo de abordagem possa ser escalonado e facilmente implantado. Essas conclusões devem ser replicadas em mais estudos, mas, se confirmadas, sugerem uma possível forma de atuação no sentido de melhorar a saúde mental de uma parte da população.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Kahlon MK, Aksan N, Aubrey R, et al. Effect of Layperson-Delivered, Empathy-Focused Program of Telephone Calls on Loneliness, Depression, and Anxiety Among Adults During the COVID-19 Pandemic – A Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry, February 23rd, 2021. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2021.0113.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Entrar | Cadastrar