Coronavírus

Afinal, quantas doses da vacina anti-Covid-19 serão necessárias?

Tempo de leitura: 7 min.

Tal questionamento se repete constantemente até que tenhamos uma resposta definitiva (ou próxima disso), frente às inúmeras e variáveis surpresas traçadas pela infecção pelo coronavírus SARS-CoV-2, responsável pela atual pandemia da síndrome Covid-19. Adicionalmente, estamos deparando com a realidade da atual ausência de conhecimento significativo dos mecanismos imunológicos do hospedeiro humano, o que amplifica os desafios no combate à infecção por SARS-CoV-2. Alguns dos desafios científicos atuais incluem: 

  • Fisiopatologia da doença Covid-19 por mecanismos ainda não totalmente esclarecidos;
  • Surgimento de novas variantes com potencial imunopatogênico desconhecido;
  • Estudos ainda em desenvolvimento sobre a eficácia das estratégias vacinais novas;
  • Potencial imunogênico das vacinas tradicionais como o uso das partículas virais inativas;
  • Reinfecções;
  • A incerteza sobre a durabilidade da resposta imune em infectados por Covid-19, (vii) A incerteza sobre a durabilidade da resposta imune em vacinados sem história da doença.

Mediante o desconhecimento sobre os mecanismos patológicos pelo SARS-CoV-2, sugeriu-se inicialmente que poderíamos inferir ou esperar os os resultados obtidos para infecções por outros coronavírus em epidemias ou pandemias anteriores como 229E, 1193, NL63, OC43, HKU1, MERS-CoV e SARS-CoV, Os estudos científicos avançaram significativamente recentemente no intuito de garantir respostas robustas e concretas, porém verificamos que existe um abismo fisiopatológico entre esses coronavírus, e fatores biológicos importantes justificam os inúmeros problemas e elevados números de morbidade e mortalidade da pandemia Covid-19.

Saiba mais: Avaliação da vacinação anti-Covid-19 em massa com vírus inativo

Os achados a favor da terceira dose vacinal 

Recentemente, um dos estudos que têm investigado a eficácia, a efetividade e a durabilidade das vacinas anti-Covid-19 no mundo real, utilizando um grande número amostral e metodologia aparentemente consistente, o Zoe Covid Study realizado no Reino Unido, trouxe resultados não muito animadores (Iacobucci, 2021; Menni et al., 2021, Spector et al., 2021 – Pre-release). O estudo foi realizado entre maio e julho de 2021 com a inclusão de 1,2 milhões de indivíduos vacinados. A proteção induzida pelas duas doses das vacinas Pfizer e AstraZeneca reduz gradualmente em 6 meses desde a última dose conforme os dados reduzidos abaixo (Iacobucci, 2021)

Vacinação com a vacina Pfizer – Redução de 88 a 74% após 5 a 6 meses; Vacinação com a vacina AstraZeneca – Redução de 77 a 67% após 4 a 5 meses. 

Tim Spector, líder do estudo citado acima, demonstra preocupação com a possibilidade da proteção reduzir para abaixo de 50% em populações de idosos e profissionais de saúde (vacinados no início do ano) já nos próximos meses, especialmente mediante a reabertura dos espaços públicos e diminuição das restrições quanto a circulação de pessoas e regras de distanciamento social. Adicionalmente reforça a necessidade de avaliar doses de reforço precoces e também a vacinação de crianças (Iacobucci, 2021).

Estudos com a vacina Moderna, CoronaVac e outras, assim como estudos com pacientes convalescentes após a síndrome Covid-19, têm sugerido resultados semelhantes e direcionam à mesma preocupação, mas ainda é controversa essa questão (Baraniuk, 2021). Questiona-se os resultados baseados somente em anticorpos neutralizantes, já que a longevidade da proteção imune está tradicionalmente relacionada pelas células T e B de memória, às quais já foram descritas como presentes pelo menos > 8 meses desde o quadro infeccioso inicial. 

Tais resultados geraram novas dúvidas sobre o cenário que estamos vivenciando, e emergiram novas possibilidades de resolver esse novo entrave. Uma das principais soluções sugeridas inclui uma nova tentativa de aumento da durabilidade da da resposta imune induzida pela vacina anti-Covid-19: A sugestão de aplicação de uma terceira dose, provavelmente com outra estratégia vacinal (outro tipo vacinal diferente daquele anteriormente administrado). E consequentemente, novas dúvidas e hipóteses surgem e se multiplicam exponencialmente, especialmente quanto a quais indivíduos deveriam ser vacinados, inclusão ou não dos pacientes com histórico natural da doença, categorias específicas de pacientes prioritários, avaliação laboratorial prévia à aplicação da 3a dose, riscos de potencialização de reações adversas, os possíveis efeitos antibody-dependent enhancement (ADE) após doses vacinais repetitivas, o real efeito protetor para as novas variantes e outros inúmeros questionamentos.

Tais incertezas proliferam novas incertezas na população frente ao cenário atual. Alguns pesquisadores defendem que a aplicação de nova dose de reforço ocorra após 12 meses depois da segunda dose vacinal, porém, verificamos alguns países já adotando medidas emergenciais de revacinação mesmo após < 6 meses desde a última toma. Tais defensores da terceira dose indicam que desconhece-se, até o momento, o potencial de geração da resposta linfocitária de memória pelas vacinas anti-Covid-19 em uso atual, e teme o aumento do número de casos frente ao surgimento frequente de novas variantes.

Os achados contra a terceira dose vacinal anti-Covid-19 

Por outro lado, até que o estudo acima seja revisado e publicado, tal estudo liderado por Spector não pode ser adotado como conclusivo e definitivo. Wang et al. publicaram em junho de 2021, na revista Nature, dados quanto à resposta imune de uma coorte de 63 indivíduos recuperados da infecção por SARS-CoV-2, sendo que 41% desses receberam vacina anti-Covid baseada em RNAm. Os pacientes convalescentes não vacinados apresentaram anticorpos ligados ao domínio RBD de SARS-CoV-2, anticorpos neutralizantes e linfócitos B de memória específicos para RBD em concentração relativamente estável no período de 6 a 12 meses desde a infecção inicial. Porém, os pós-Covid-19 não vacinados apresentaram resposta imune menor quando comparados aos vacinados, incluindo menor potencial neutralizante contra variantes como B.1.1.7 (alfa), B.1.351 (beta), B.1.526 (iota) e P.1. (gama). Verificou-se que a vacinação potencializa (> 50x) todas essas respostas humorais e celulares citadas, contra as cepas virais originais e às variantes circulantes, incluindo a variante B.1.617.2 (Delta). Tais achados contrariam as observações de Tim Spector e seu grupo, pelo menos para os indivíduos que tiveram a síndrome Covid-19 devidamente diagnosticada. Estudos adicionais comprovando tais achados têm sido descritos e publicados (Abbasi, 2021 Goel et al., 2021, Wang et al., 2021). 

Outra esperança favorável à imunização ativa em indivíduos que não tiveram Covid-19 já foi descrita por Turner et al., (2021) também na revista Nature. Os estudos desse grupo indicaram que após 12 semanas após a segunda dose da inoculação da vacina RNAm da Pfizer, os indivíduos já apresentavam um alto número de linfócitos B específicos para a espícula glicoprotéica de SARS-CoV-2 nos centros germinativos dos linfonodos. Alguns desses anticorpos também apresentaram reação cruzada com outros betacoronavírus sazonais.

Esses resultados sugerem que há possível indução de resposta celular de memória contra SARS-CoV-2 em indivíduos sem história prévia de infecção e vacinados com estratégias de RNAm anti-Covid-19. Os autores inclusive são contra a ideia precoce de reforço vacinal com terceira dose até o momento. Goel et al. (2021) publicaram na Science Immunology avaliaram a resposta humoral e por células B de memória em uma coorte de 33 pacientes com infecção inicial com SARS-CoV-2 e 11 em recuperação, com histórico de vacinação prévia com estratégias de RNAm anti-Covid-19. Eles obtiveram resultados semelhantes aos descritos por Turner et al. e sustentam a hipótese de que indivíduos com histórico clínico de Covid-19 não necessitam de duas doses vacinais pois não há ganho expressivo ou potencialização da resposta imune. 

Ouça também: A eficácia das vacinas para Covid-19 sobre a variante delta [podcast]

Conclusões 

Portanto, ainda seguimos na busca pela resolução da pandemia iniciada em dezembro de 2019 e que tem se alongado por mais de 1,5 ano com inúmeros problemas acumulados em diferentes áreas da sociedade. As respostas continuam favoráveis à vacinação em massa da população devido aos resultados expressivos no controle da doença grave em todo o mundo. De qualquer forma, a única resposta concreta que temos para todos esses questionamentos é aquela expressão coloquial costumeira que nos acostumamos a ouvir: “Só o tempo dirá, aguardemos”. Mais detalhes sobre essa discussão podem ser observados nas referências abaixo. 

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Abbasi J. Study Suggests Lasting Immunity After COVID-19, With a Big Boost From Vaccination. JAMA. 2021 Aug 3;326(5):376-377. 
  • Baraniuk C. How long does covid-19 immunity last? BMJ. 2021 Jun 30;373:n1605. 
  • Dan, J. M., Mateus, J., Kato, Y., Hastie, K. M., Yu, E. D., Faliti, C. E., Grifoni, A., Ramirez, S. I., Haupt, S., Frazier, A., Nakao, C., Rayaprolu, V., Rawlings, S. A., Peters, B., Krammer, F.,Simon, V., Saphire, E. O., Smith, D. M., Weiskopf, D., Sette, A., … Crotty, S. (2021). Immunological memory to SARS-CoV-2 assessed for up to 8 months after infection. Science (New York, N.Y.), 371(6529), eabf4063. 
  • Goel RR, Apostolidis SA, Painter MM, Mathew D, Pattekar A, Kuthuru O, Gouma S, Hicks P, Meng W, Rosenfeld AM, Dysinger S, Lundgreen KA, Kuri-Cervantes L, Adamski S, Hicks A, Korte S, Oldridge DA, Baxter AE, Giles JR, Weirick ME, McAllister CM, Dougherty J, Long S, D’Andrea K, Hamilton JT, Betts MR, Luning Prak ET, Bates P, Hensley SE, Greenplate AR, Wherry EJ. Distinct antibody and memory B cell responses in SARS-CoV-2 naïve and recovered individuals following mRNA vaccination. Sci Immunol. 2021 Apr 15;6(58):eabi6950. 
  • Iacobucci G. Covid-19: Protection from two doses of vaccine wanes within six months, data suggest. BMJ. 2021 Aug 25;374:n2113. 
  • Menni C, Klaser K, May A, Polidori L, Capdevila J, Louca P, Sudre CH, Nguyen LH, Drew DA, Merino J, Hu C, Selvachandran S, Antonelli M, Murray B, Canas LS, Molteni E, Graham MS, Modat M, Joshi AD, Mangino M, Hammers A, Goodman AL, Chan AT, Wolf J, Steves CJ, Valdes AM, Ourselin S, Spector TD. Vaccine side-effects and SARS-CoV-2 infection after vaccination in users of the COVID Symptom Study app in the UK: a prospective observational study. Lancet Infect Dis. 2021 Jul;21(7):939-949. Spector, T. et al. 2021. Pre-release. Acesso em: https://covid.joinzoe.com/post/covid-vaccine-protection-fading. 
  • Turner, J.S., O’Halloran, J.A., Kalaidina, E. et al. SARS-CoV-2 mRNA vaccines induce persistent human germinal centre responses. Nature 596, 109–113 (2021). 
  • Wang Z, Muecksch F, Schaefer-Babajew D, Finkin S, Viant C, Gaebler C, Hoffmann HH, Barnes CO, Cipolla M, Ramos V, Oliveira TY, Cho A, Schmidt F, Da Silva J, Bednarski E, Aguado L, Yee J, Daga M, Turroja M, Millard KG, Jankovic M, Gazumyan A, Zhao Z, Rice CM, Bieniasz PD, Caskey M, Hatziioannou T, Nussenzweig MC. Naturally enhanced neutralizing breadth against SARS-CoV-2 one year after infection. Nature. 2021 Jul;595(7867):426-431.

 

 

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Publicado por
Rafael Duarte

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