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Associação entre tempo de tela e depressão na adolescência

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A depressão é um distúrbio de saúde mental comum em todas as idades. No entanto, quando ocorre durante a adolescência está associada a significativos prejuízos acadêmicos, psicossociais e cognitivos. A depressão durante a adolescência também tem sido associada ao uso de substâncias, relações interpessoais pobres, baixa autoestima e suicídio.

Dados atuais da literatura sugerem aumento das taxas de depressão entre os adolescentes: questões de saúde mental, incluindo depressão, estão previstas entre as principais causas de morbidade e mortalidade nesta faixa etária até 2020.

Uma das causas atribuídas à depressão em adolescentes na atualidade é a quantidade de tempo que eles passam diante das telas digitais (o chamado tempo de tela). Vários estudos encontraram uma associação positiva entre tempo de tela e depressão na adolescência ou tempo de tela e correlatos de depressão, incluindo baixa autoestima e solidão.

Tempo de tela x depressão em adolescentes

No entanto, a metodologia destes estudos é bastante variável.  Desta forma, devido à escassez de estudos longitudinais sobre o assunto e supondo que o aumento do tempo de tela tem sido associado ao aumento dos sintomas depressivos na adolescência, Boers e colaboradores conduziram o estudo recém-publicado na revista JAMA Pediatrics, intitulado Association of Screen Time and Depression in Adolescence.

O objetivo deste estudo foi verificar repetidamente a associação entre o tempo de tela e depressão em adolescentes para testar três hipóteses explicativas: deslocamento, comparação social ascendente e reforço de espirais.

A hipótese de deslocamento postula que todo o tempo de tela afeta negativamente o bem-estar mental. Isso ocorre porque desloca tempo que o adolescente poderia estar participando de atividades mais saudáveis, como exercício físico, por exemplo.

A comparação social ascendente sugere que os efeitos do tempo de tela na saúde mental dependem da natureza do conteúdo. Ocorre quando as pessoas se comparam com os outros que acreditam que estejam em uma posição mais favorável, como pessoas com corpos e vidas perfeitos. A exposição à televisão retratando corpos idealizados leva a diminuição da satisfação corporal, resultando em sintomas mais graves de depressão. A comparação social ascendente também foi encontrada em mídias sociais.

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O reforço de espiral também sustenta que os efeitos do tempo de tela são mediados pelo conteúdo. No entanto, acrescenta que as pessoas procuram e selecionam informações consistentes com suas cognições. Os reforços de espirais foram relatados sobre exposição a conteúdo violento e agressão (por exemplo, violência em filmes) e sobre a exposição à informação e postura política

Esta análise secundária utilizou dados de um ensaio clínico randomizado que avaliou a eficácia de uma intervenção direcionada à personalidade e à prevenção do alcoolismo. Este estudo avaliou o tempo de tela e depressão ao longo de quatro anos, usando uma pesquisa anual em uma amostra de adolescentes cursando a sétima série em 31 escolas na Grande Montreal, no Canadá.

Os dados foram coletados de setembro de 2012 a setembro de 2018. A análise começou e terminou em dezembro de 2018. As variáveis ​​independentes avaliadas foram: mídias sociais, televisão, videogames e uso de computadores. Sintomas de depressão foram avaliados como resultados, e foram aferidos através do Brief Symptoms Inventory (BSI). Esse instrumento é composto por 53 itens para avaliação de problemas de saúde mental. O exercício e a autoestima foram avaliados para testar a hipótese de deslocamento e comparação social ascendente.

Um total de 3826 adolescentes [1798 meninas (47%) com média de idade de 12,7 (0,5) anos] foram incluídos. Em geral, os sintomas de depressão aumentaram anualmente [média do ano 1, 4,29 (5,10) pontos; média do ano 4, 5,45 (5,93) pontos].

Conclusões do estudo

Modelos multiníveis, que incluíam interceptações aleatórias individualmente e na escola, estimaram associações entre tempo de tela e depressão. Associações interpessoais mostraram que, para cada aumento de horas gasto com mídias sociais, os adolescentes apresentaram um aumento de 0,64 unidades nos sintomas depressivos (IC 95%, 0,32-0,51).

Associações similares foram relatadas para uso de computador (IC 95% 0,69, 0,47-0,91). Associações intrapessoais significantes revelaram que um aumento adicional de 1 hora no uso de mídias sociais em um dado ano foi associado a um aumento adicional de 0,41 sintomas depressivos no mesmo ano.Uma associação semelhante intrapessoal foi encontrada para a televisão (IC 95% 0,18, 0,09-0,27).

Associações significativas inter e intrapessoais entre tempo de tela, exercício e autoestima apoiaram a comparação social ascendente e não a hipótese de deslocamento. Além disso, uma interação significativa entre as associações inter e intrapessoais, no que diz respeito às mídias sociais e à autoestima, apoiou a hipótese de espirais de reforço

O estudo encontrou associações variáveis ​​consideráveis entre as mídias sociais, a televisão e a depressão, que pareciam ser mais explicadas pela comparação social ascendente e espirais de reforço do que pela hipótese do deslocamento

Dessa forma, ambos os modos de tempo de tela devem ser levados em conta ao desenvolver medidas preventivas e ao realizar medidas de aconselhamento de pais

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que, para crianças com mais de seis anos de idade e adolescentes, o tempo de tela não deve ser superior a duas horas por dia, exceto em casos de trabalhos acadêmicos. No entanto, devem ser estabelecidos intervalos para descanso e para atividade física, restringindo o tempo de jogos online, uso de aplicativos e redes sociais.

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