Atuação do enfermeiro na psiquiatria

Na construção da clínica os profissionais de enfermagem eram importantes na construção das ações de cuidado da assistência em psiquiatria.

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A história da enfermagem se entrelaça com a história da assistência psiquiátrica. Na construção da clínica, os profissionais de enfermagem eram importantes na elaboração das ações de cuidado, uma vez que as observações dos pacientes geravam as primeiras classificações das doenças mentais. No Brasil, a Escola de Enfermagem Alfredo Pinto (EEAP) iniciou um processo de preparação de enfermeiros responsáveis pela observação dos pacientes, denominados como enfermeiros observadores. Esses profissionais além de estar mais próximos dos pacientes participavam de um processo formativo, além de participar de reuniões com equipe médica.

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Ao estar nesse local de observação e informação a enfermagem, passa a ter espaço hierárquico. Além disso, esses profissionais eram os responsáveis por diversos cuidados, como aqueles relacionados à alimentação, cuidados com o corpo, aproximação desses com familiares, entre outra funções que geravam dignidade à pessoa com sofrimento psíquico. Mas ainda eram vistos como aqueles portadores das chaves, interruptores do processo de liberdade e responsáveis pela ação violenta presente no modelo da época.

No inicio do século passado havia o início de um processo formativo da enfermagem no país. Na psiquiatria haviam dois tipos de profissionais que eram aqueles que não possuíam qualquer preparo para atuar na enfermagem e outros que faziam por vocação do cuidar, o que provocava um interesse pela ação formativa nas capitais, principalmente na região sudeste. As escolas do Rio de Janeiro Alfredo Pinto e Ana Nery foram as primeiras a construir um processo formativo.

Em São Paulo, Minas Gerais, Bahia em outras regiões do Brasil, também se iniciam um processo de formação ligado aos hospitais ligados às universidades públicas onde se começa a refletir sobre o modelo de discussão de práticas de cuidado. No entanto, a formação era ligada ao modelo manicomial institucionalizado, o que provocou uma limitada atuação, até que tivemos o inicio da luta antimanicomial no Brasil.

Algumas ilustres enfermeiras começaram a discutir a prática, de forma teórica, na década de 1960, possibilitando reflexões sobre o saber-fazer, como Tereza Sena da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Maria Aparecida Minzoni da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). Outras enfermeiras de Universidades Públicas também deram suas contribuições com objeto central de conferir novos contornos à identidade profissional até então pautadas em um visão alienista.

Atuação do enfermeiro na psiquiatria

Transição do modelo manicomial

A metamorfose do modelo manicomial para modelo desinstitucionalizado levou algumas décadas. Mesmo com discussões avançadas na Itália, influenciadas pelo Italiano Franco Baságlia, psiquiatra que revolucionou o ideal de cuidado na época. No Brasil, tivemos grande resistência à adoção do modelo desinstitucionalizado, que apenas ganhou força pós-conferências de saúde mental em 1987; criação da Constituição de 1988, que protegia a dignidade da pessoa humana e promoveu a saúde como um direito de todos; Criação do Sistema Único de Saúde; criação da Lei 10.216/2001 e demais leis que se relacionam com as estruturas de serviço construtoras da Rede de Atenção Psicossocial.

Com a modificação do modelo, o trabalho do enfermeiro teve suas maiores mudanças. Antes, o cuidado se dava em ambiente institucionalizado e as regras e a rotina eram estipuladas pelos profissionais da enfermagem. Agora a pessoa em sofrimento psíquico tem voz e esta livre para escolher o tratamento e participa ativamente do processo terapêutico. Um avanço muito grande literário-acadêmico foi necessário para os profissionais de enfermagem. A apropriação de conhecimento em psicologia, sociologia, filosofia, ciências jurídicas, administração, farmacologia, arteterapia, nutrição entre outras saberes são necessários para a prática profissional.

Passaram a fazer parte da equipe multiprofissional com voz e tiveram que se adequar a uma prática interdisciplinar, não vista nos modelos de cuidado de outrora. Algumas vezes os profissionais de enfermagem eram vistos como aqueles necessários para o cuidado e para promover contenções físicas e medicamentosas, numa época onde a pessoa com sofrimento psíquico era vista apenas como violenta e distante da  ressocialização. No entanto, algo que acontecia em outrora, continua acontecendo nos dias de hoje. O profissional de enfermagem continua sendo o mais próximo do paciente e de tudo o que envolve a loucura.

Para levar para casa

Os cuidados de enfermagem continuam sendo fundamentais e os mais importantes entre todas as práticas de cuidado, pois são aqueles que conferem dignidade a pessoa humana e são base forte do movimento de ressocialização para aqueles que se afastaram de suas vidas por causa da doença. O futuro não provoca a diminuição da importância desses profissionais. Ao contrário disso, nasce maior valorização do saber de quem estar mais perto da loucura. O mais importante profissional da percepção do comportamento humano, ganha agora possibilidades para expandir sua atuação em consultórios, na própria clinica, na gestão, na educação e em outras diversas áreas.

Cuidar de pessoas com grave sofrimento psíquico, necessariamente, requer estudo, sensibilidade que pode ser aprendida, humanização e dedicação.  A formação é o instrumento pelo qual o profissional poderá refletir, aprender e desenvolver essas premissas. O futuro da enfermagem psiquiátrica está no desenvolvimento de saberes específicos das enfermeiras frente a prática de cuidado, valorizando saberes de diversas áreas do conhecimento. Assim podemos dar um salto no que tange a uma proposta de cuidado, baseada em prática institucionalizadas ainda nos dias de hoje. E assim teremos a constate edificação da enfermagem psiquiátrica.

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Especialidades

# Silva, Teresa Cristina da, & Kirschbaum, Débora Isane Ratner.. A construção do saber em enfermagem psiquiátrica: Uma abordagem histórico-crítica. SMAD. Revista eletrônica saúde mental álcool e drogas, 2010; 6(spe):409-438. # Maftum M.A. Alencastre M.B. A prática e o ensino de enfermagem em saúde mental e psiquiátrica no brasil: questões para reflexões. Cogitare Enferm., Curitiba, 2002 7;(1):61-67. # Pereira MA, Labate RC. Refletindo a evolução histórica da enfermagem psiquiátrica. Acta Paul Enferm. 1998;11(3):52-59. Disponível em: https://acta-ape.org/article/refletindo-a-evolucao-historica-da-enfermagem-psiquiatrica