Bem-estar médico como indicador de qualidade

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A qualidade do serviço em saúde pode ser avaliada por diversos pontos de vista. A atividade do gestor em saúde implica em gerar os melhores indicadores para avaliar a qualidade do seu serviço.

Clássicos indicadores como mortalidade materna, mortalidade infantil, prevalência de eventos adversos indicam qualidade de intervenções e a qualidade de serviços. Indicadores mais específicos como tempo de permanência no serviço, grau de satisfação do usuário, percepção de qualidade de vida pós intervenção são indicadores mais específicos de qualidade de serviços como sistemas de saúde que são utilizados atualmente. Por fim, um outro indicador não menos importante, porém pouco lembrado a ser medido para evidenciar a qualidade de um serviço em saúde é o bem-estar médico.

Estranho não é mesmo? Mas um artigo clássico do The Lancet iniciou uma onda de pesquisas sobre o tema, mostrando como bem-estar médico é algo de importância e relevância para definição da qualidade do serviço de saúde. Quando o médico não está bem, a qualidade do serviço de saúde é prejudicada e o resultado é um serviço subótimo.

O tema tem sido lembrado nos últimos anos com maior ênfase para os sinais de burnout, depressão e ansiedade, taxa de suicídio (seis vezes maior que na população em geral), abuso de substâncias e mortalidade cardiovascular . Contudo, a avaliação geral necessária é bem maior do que isso. A ausência de estressores como os citados não implica necessariamente em um bem-estar, outros aspectos da avaliação de qualidade de vida geral como satisfação com a vida pessoal e profissional são de relevância para a perceção desse indicador.

Os indicadores em saúde classicamente se detém a uma perspectiva do usuário, utilizando como base alguns grupos de dados:

  1. Biomarcadores (glicemia, pressão arterial, níveis hormonais séricos, etc.);
  2. Desfechos (taxa de mortalidade, mortalidade após 5 anos, etc.);
  3. Percepção do paciente sobre o cuidado ( avaliação de satisfação, comunicação com o usuário);
  4. Logística dos processos de saúde (entrada do usuário no sistema, fluxo de acesso ao serviço, níveis de organização).

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Por outro lado, quando lançamos mão de recursos de avaliação do que afeta ou encarece o serviço e qualidade da assistência esbarramos em outro fatores como:

  • Adoecimento do profissional de saúde;
  • Custos de reposição de profissionais que abandonam seus postos originais de trabalho;
  • Custos gerados por erros médicos evitáveis.

Como o bem-estar médico impacta o cuidado

Um estudo de Cohen e Pattern evidenciou que cerca de 22% dos médicos residentes que iniciam sua carreira, desistiriam da carreira médica se houvessem essa oportunidade. A incidência de burnout entre os médicos jovens é duas vezes maior que em médicos com maior tempo de carreira.

A mesma equipe evidenciou que quanto maior a insatisfação e menor o bem-estar, pior é o perfil de segurança para o paciente. Ou seja, o bem-estar médico implica em maior segurança no cuidado. DiMatteo e colaboradores evidenciaram em um seguimento de 2 anos com 20000 pacientes que em doenças crônicas como diabetes e hipertensão, quanto maior a satisfação do profissional e sua percepção de bem-estar, maior a adesão do paciente ao tratamento e ao cuidado.

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O que isso implica no dia a dia do profissional é que o autocuidado tem valor imprescindível para qualidade da assistência que o profissional é capaz de prestar. Quando se prescreve pensando em qualidade de vida e mudança de estilo de vida, a caneta do prescritor deve ser direcionada primeiramente a ele.

Além disso, incorporar na rotina de avaliação dos serviços de saúde o bem-estar do profissional como um indicador formal é uma grande fonte de aumento da segurança do paciente, qualidade assistencial e redução de custos. Portanto, da próxima vez em que pensar sobre o que afeta qualidade do cuidado lembre-se de colocar na balança o cuidado com quem também cuida.

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Referência bibliográfica:

  • SHANAFELT, Tait D. et al. Burnout and satisfaction with work-life balance among US physicians relative to the general US population. Archives of internal medicine, v. 172, n. 18, p. 1377-1385, 2012.