Página Principal > Colunistas > Bendamustine: novas terapias e o risco de infecção em pacientes com linfoma indolente
medicamento

Bendamustine: novas terapias e o risco de infecção em pacientes com linfoma indolente

Tempo de leitura: 3 minutos.

Linfomas não-Hodgkin (LNH) indolentes são neoplasias de células B de crescimento lento consideradas incuráveis. Nesse grupo, encontram-se leucemia linfoide crônica (LLC), linfoma folicular, linfoma de zona marginal e macroglobulinemia de Waldestrom. Tradicionalmente, pacientes com essas neoplasias são considerados de baixo risco para infecções.

Em 2009, uma nova droga foi aprovada pelo FDA para o tratamento dessas condições (especificamente LLC e linfoma folicular refratário ao uso de rituximabe, embora também seja usada de forma off-label nas outras): o bendamustine, um agente alquilante e com atividade antimetabólica, com um perfil de eventos adversos mais favorável do que os esquemas de quimioterapia usados até então. Essas características levaram à expansão de seu uso, mas alguns ensaios clínicos mostrando uma tendência maior ao desenvolvimento de infecções em pacientes tratados com bendamustine gerou preocupação entre os médicos que lidam com esse tipo de paciente. Mas será que esse risco se reflete na prática clínica?

Recentemente, um grande estudo buscou avaliar o impacto do uso de bendamustine no risco do desenvolvimento de infecções bacterianas e infecções consideradas oportunistas fora do contexto de ensaios clínicos. Usando dados nacionais disponíveis no Medicare (programa de seguro-saúde dos EUA, financiado pelo governo federal, para cidadãos americanos com 65 anos ou mais), os autores analisaram a ocorrência de infecções bacterianas, virais, fúngicas e parasitárias em pacientes tratados com bendamustine em comparação com outros regimes de quimioterapia para linfomas indolentes.

Foram analisados dados de 9.395 pacientes, entre os anos de 2006 a 2013, dos quais 13,2% receberam bendamustine. Os pacientes que receberam bendamustine em geral tinham doença mais avançada, tinham sido expostos a mais regimes de quimioterapia e mais frequentemente tinham desenvolvido neutropenia. Esses pacientes também apresentaram taxas maiores de infecções do que os tratados com outros esquemas, com maior incidência de pneumonia bacteriana, infecções por varicela zoster vírus (VZV), infecções por CMV e histoplasmose.

LEIA MAIS: Câncer associado ao HIV – linfomas

A análise foi ajustada para idade, sexo, estágio e subtipo de linfoma, exposição cumulativa a rituximabe, número de linhas de tratamento de quimioterapia (primeira, segunda ou terceira linha), exposição à corticoide, neutropenia, uso de fator estimulante de granulócitos e uso de profilaxia antimicrobiana. Mesmo após o ajuste, o risco de pneumonia bacteriana, infecções bacterianas não especificadas e infecções virais e oportunistas permaneceu maior nos pacientes expostos ao bendamustine. Notadamente, entre as infecções oportunistas, houve um risco maior das infecções controladas pela imunidade celular, como PCP, reativação de herpes-vírus e histoplasmose. Esse fato provavelmente se deve à linfopenia de células CD4 induzida pela droga, a qual pode durar até 7 a 9 meses após o fim da terapia.

Os autores também calcularam o número necessário para causar danos (NNH) associado às infecções mais importantes. A conclusão foi que 1 a cada 17 pacientes desenvolveram infecções oportunistas que puderam ser relacionadas ao uso de bendamustine, isto é, que não teriam ocorrido caso não estivessem em uso da droga. O possível benefício de profilaxias antimicrobianas também foi avaliado, por meio do número necessário para tratar (NNT), com a estimativa de que 1 caso de infecção bacteriana a cada 70 pacientes, 1 caso de PCP a cada 374, 1 de CMV a cada 269, 1 de VZV a cada 23 e 1 de histoplasmose a cada 582 pacientes poderiam ser evitados com uso de profilaxia.

Apesar de sua natureza retrospectiva e da possibilidade de fatores de confundimento que não puderam ser ajustados na análise, esse estudo merece atenção por alocar um grande número de pacientes em um cenário demograficamente variado, o que o torna mais próximo da realidade do uso clínico de um medicamento. Os resultados são importantes, pois mostram a necessidade de se incluir infecções bacterianas e oportunistas, não esperadas com maior frequência nos LNH indolentes, como diagnósticos diferenciais nos pacientes em uso de bendamustine e levantam a possibilidade de benefício no uso de profilaxias nesses pacientes.

É médico e também quer ser colunista do Portal da PEBMED? Inscreva-se aqui!

Autora:

Isabel Cristina Melo Mendes

Residente de Infectologia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro

Referência:

  • Monica Fung, Eric Jacobsen, Arnold Freedman, Daniel Prestes, Dimitrios Farmakiotis, Xiangmei Gu, Paul L Nguyen, Sophia Koo; Increased Risk of Infectious Complications in Older Patients With Indolent Non-Hodgkin Lymphoma Exposed to Bendamustine, Clinical Infectious Diseases, , ciy458, https://doi.org/10.1093/cid/ciy458

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.