Burden de fibrilação atrial: você sabe o que é e qual a sua importância?

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Em declaração¹ desse ano (2018), a American Heart Association fez uma revisão dos estudos envolvendo burden da fibrilação atrial (FA). Na maior parte dos estudos disponíveis, a fibrilação atrial é estudada de forma binária. Existe ou não existe. E, assim, são apresentados seus fatores de risco e complicações sem uma qualificação e quantificação da FA.

O burden de FA é a quantidade de FA que um individuo tem a grosso modo. E por quê isso é importante? Porque sabendo se a FA é paroxística, persistente ou permanente, sabendo o número e a duração dos episódios de FA e a porcentagem de episódios durante determinado período, podemos individualizar o controle de fatores de risco e tratamento – ressaltamos aqui o uso de anticoagulantes orais -, no intuito de evitar as complicações da FA (acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, morte) e do seu tratamento (hemorragias). Existe um campo aberto para a pesquisa, pois o burden de FA carece de consenso quanto à sua definição, o melhor instrumento para monitorização, valor prognóstico e relação com modificações no estilo de vida e controle de fatores de risco.

O padrão ou tipo de FA e o burden de FA não parecem ter efeitos maiores sobre o o risco de acidente vascular cerebral (AVC) do que o risco atribuído às características do paciente (por exemplo, as incluídas no escore CHA2DS2-VASC). Sendo assim, a decisão de anticoagular ou não um paciente obedece a essa avaliação de risco e não às características da FA. No entanto, a análise post hoc de trials como ARISTOTLE, ENGAGE- AF e ROCKET-AF, que testaram apixabana, rivaroxabana e edoxabana, respectivamente, na prevenção do AVC revelou que o risco era maior em pacientes com FA persistente do que naqueles cuja FA era paroxística. O mesmo foi encontrado em análises de estudos com antiagregantes plaquetários como ACTIVE-A e AVERROES. O risco de insuficiência cardíaca também é maior na FA não-paroxística do que na paroxística, apesar da evidências serem escassas.

A relação entre burden de FA e déficit cognitivo representa uma lacuna de conhecimento, pois há poucos e pequenos estudos na área. Conforme o estudo AFEQT, não há prejuízo na qualidade de vida em paciente com FA crônica. Porém, foi notada piora na qualidade de vida de pacientes ao iniciarem novos episódios de FA. Em uma revisão sistemática de 12 estudos reunindo 100.000 pacientes, o risco de morte foi 1,22 maior no grupo com FA não-paroxística do que no grupo com FA paroxística.

Estudos não-randomizados (ARREST-AF) e observacionais (LEGACY e CARDIO-RT) demonstraram que um controle de risco de aterosclerose compreensivo e estruturado pode reduzir o burden de FA. O estudo LEGACY também mostrou que a perda de peso e a manutenção do peso ideal reduzem o burden de FA.

Em recente estudo, foi realizada avaliação do burden de FA com a intenção de estratificar o risco de retirar a terapia anticoagulante de pacientes que tinham receio do risco de hemorragia. Foram incluídos 145 pacientes em uso marcapasso ou cardio-desfibrilador implantável e FA de etiologia não valvular. Todos tinham risco CHA2DS2-VASC maior ou igual a 2. Os pacientes foram divididos em dois grupos. Um com “baixo burden de FA” (n = 121) e outro com “alto burden de FA” (n = 24). Baixo burden de FA foi definido como menos de 24 horas de FA acumulada em 30 dias de registro consecutivos. Alto burden teria mais de 24 horas. Os pacientes “baixo burden de FA” tiveram a anticoagulação suspendida. Um paciente teve que retomar a anticoagulação por apresentar ataque isquêmico transitório. Houve hemorragia em 37,5% dos pacientes do grupo “alto burden de FA” que estavam anticoagulados. Enquanto, no grupo “baixo burden de FA” foram observados eventos hemorrágicos em 2,47% dos pacientes. O presente estudo comprovou a utilidade da avaliação do burden de FA na otimização do tratamento desse grupo de pacientes.

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Autor:

Referências:

  1. Atrial Fibrillation Burden: Moving Beyond Atrial Fibrillation as a Binary Entity: A Scientific Statement From the American Heart Association. Lin Y. Chen, Mina K. Chung, Larry A. Allen, Michael Ezekowitz, Karen L. Furie, Pamela McCabe, Peter A. Noseworthy, Marco V. Perez, Mintu P. Turakhia and On behalf of the American Heart Association Council on Clinical Cardiology; Council on Cardiovascular and Stroke Nursing; Council on Quality of Care and Outcomes Research; and Stroke Council. Circulation. 2018; https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000000568
  2. Acta Cardiol. 2018 Jun 4:1-9. doi: 10.1080/00015385.2018.1475029
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