Clínica Médica

Burnout… queimar fora: um relato

Tempo de leitura: 3 min.

Essa palavra nova, burnout, que eu achei que era “frescura”, fraqueza dos outros que trabalhavam pouco, não estavam acostumados com a pegada da minha residência “ferrada”… internato chamado “INFERNATO”, de repente, me pegou!

Foi sem sombra de dúvidas o pior momento da minha vida, até hoje. Olhar para a pilha de provas da faculdade para corrigir, escala de plantões, minha esposa, meus filhos, minhas planilhas de contas a pagar… e ter um medo gigantesco de sair da cama. Um medo sem explicação, uma falta de energia, de propósito, o consciente entendendo e racionalmente solicitando uma atitude. O emocional, milhões de vezes mais forte, ordenando que eu não era mais capaz de continuar, que eu deveria procurar me entregar. A guerra estava vencida, chegou o fim da estrada.

Leia também: Burnout entre médicos ginecologistas: será maior ou menor que seus pares?

Esse era eu durante o momento que conheci o burnout. Tudo “queimava por fora”, mas por dentro o mais completo, sombrio, gélido e ineficaz silêncio.

Esses momentos nos mostram como somos frágeis. O médico, de quem se espera coragem, heroísmo, inteligência, atitude, eficiência, resolutividade, soluções, para quem a sociedade delega a função de “salvador da pátria”, também é um “ser humano”. Poucos são os que perguntam quem ou como eu estou no fim do dia, no fim de um plantão. Todos acreditam que nosso “traje branco de super herói” nos protege de tudo, nos blinda das emoções. Sou Ginecologista e Obstetra, há mais de 20 anos, trabalhando com Gestações de alto risco, alguém sabe o quanto eu sofro ou já sofri por ver um prematuro morrer? Por  ver meus esforços resultarem em insucesso? Como eu lido com isso? É ruim para os pais sem sombra de dúvidas, mas alguém se lembra de abraçar o médico obstetra quando os esforços dele para salvar feto, mãe ou os dois também falham?

Além do fator humano

Somados a todos esses percalços emocionais, temos a judicialização extrema do exercício médico. Mais um temor que cerca o exercício da livre atividade, corroborada pelos custos dos convênios jogando remuneração para baixo, exigindo atualização constante, mas eu pergunto: como vou no congresso, comprar livros, atualizar para prestar a melhor medicina que eu posso oferecer, recebendo o que recebo, tendo os custos que tenho para oferecer uma recepção de qualidade com café, chá, bolachas etc? Resultado da equação: estresse crescente somado aos outros dos parágrafos anteriores.

Saiba mais: Burnout em profissionais de saúde durante a pandemia da Covid-19 [e-book]

E assim, em resumo, foi um momento dramático que passei em minha vida/carreira (e espero nunca mais voltar nele). A solução: separar minha carreira de minha vida. O valor que eu preciso dar à minha vida tem que ser maior que o valor que estava dando à minha carreira. Entregar mais do que eu, humanamente, podia estar sendo minha sentença de morte. Morte do João Marcelo, vitória do Dr. João Marcelo. O médico não pode e nunca deverá ser maior que o ser humano João Marcelo. Porque se o ser humano João, ao tratar outro ser humano, for menor que o Dr. João, ambos os seres humanos perderão. 

Retomada

Ao aceitar minha limitação como ser humano, procurar ajuda terapêutica, medicamentosa inicialmente, entender, aceitar e principalmente respeitar meus limites, pude retomar minha família (esposa e filhos), carreira, amigos, enfim… dosar com mais cuidado minha entrada nesse mar revolto de tempestade chamado BURNOUT.

Observe, respire, pense, reflita, converse, discuta, aprenda a dizer não, selecione seu “sim”, porque é a partir de cada “sim” dito (com vontade de falar não) que esse “mar revolto de tempestade chamado Burnout” pode engolir você, DE NOVO!

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Publicado por
João Marcelo Martins Coluna

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