Como estamos no uso de plasma convalescente em idosos com Covid-19?

O uso de plasma convalescente no tratamento da Covid-19 é uma estratégia terapêutica que está sendo analisada em diversos estudos.

O Portal PEBMED é destinado para médicos e demais profissionais de saúde. Nossos conteúdos informam panoramas recentes da medicina.

Caso tenha interesse em divulgar esse conteúdo crie um perfil gratuito no AgendarConsulta.

A Covid-19 é reconhecidamente uma doença com tendência a maior gravidade e mortalidade em indivíduos idosos. Além da idade, a presença de comorbidades é outro fator que influencia negativamente o prognóstico de pacientes idosos que adoecem pelo SARS-CoV-2. Ao mesmo tempo em que são uma população de maior risco para desfecho desfavorável e que, portanto, se beneficiaria de tratamentos eficazes ou que reduzissem a gravidade do quadro clínico, indivíduos com mais de 65 anos geralmente não compõe um número expressivo nas populações avaliadas em grandes ensaios clínicos.

O uso de plasma convalescente, i.e., plasma contendo anticorpos de pessoas que tiveram infecção pelo SARS-CoV-2 e se curaram é uma estratégia terapêutica que está sendo analisada em diversos estudos. O verdadeiro papel dessa modalidade de tratamento ainda está por ser estabelecido, mas dois estudos recentes (PLACID e PlasmAr) chamaram a atenção com a ausência de benefício em mortalidade nos pacientes que receberam plasma quando comparados a indivíduos que receberam placebo. Entretanto, a maioria dos estudos avaliou uso relativamente tardio de plasma.

Leia também: Plasma convalescente na pneumonia grave por Covid-19: estudo randomizado PlasmAr

Uma publicação da The New England Journal of Medicine mostrou os resultados de um estudo conduzido na Argentina avaliando a eficácia de plasma convalescente quando utilizado precocemente em uma população idosa.

O uso de plasma convalescente no tratamento da Covid-19 é uma estratégia terapêutica

Materiais e métodos

O estudo em questão é um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo que incluiu indivíduos com 75 anos ou mais independente de sua condição clínica ou entre 65 e 74 anos com pelo menos uma comorbidade com infecção por SARS-CoV-2 sintomática e confirmada por RT-PCR. As comorbidades consideradas como critérios de inclusão foram hipertensão, diabetes, obesidade, doença renal crônica, doença cardiovascular e DPOC.

Os pacientes elegíveis foram randomizados para receber 250 ml de plasma com altos títulos de anticorpos IgG contra a proteína S ou 250 ml de solução salina como placebo. As infusões foram feitas com até 72 horas após o início dos sintomas.

Os participantes foram acompanhados diariamente por 15 dias para a ocorrência de desfechos primários. Os que apresentavam sintomas persistentes que demandavam atenção médica foram acompanhados até resolução ou por no máximo 25 dias para a ocorrência de desfechos secundários. Nenhuma outra terapia experimental para Covid-19 foi administrada.

O desfecho primário do estudo foi o desenvolvimento de disfunção respiratória grave, definida como FR ≥ 30 irpm, sO2 < 93% em ar ambiente ou ambos. Os participantes foram avaliados para esse desfecho no período entre 12h após a infusão e o 15º dia após a inclusão no estudo. Desfechos secundários incluíram doença respiratória ameaçadora à vida (definida como necessidade de FiO2 = 100%, uso de ventilação invasiva ou não invasiva, admissão em CTI ou qualquer combinação das anteriores), doença sistêmica crítica (insuficiência respiratória com P/F < 200, choque, falência múltipla de órgãos ou qualquer combinação das anteriores) e morte associada ao Covid-19.

Com a queda no número de casos novos na Argentina durante o período do estudo, houve importante redução no ritmo de inclusões, o que levou o grupo responsável e com o comitê de monitoramento dos dados a interromperem precocemente o recrutamento, após a inclusão de 76% da amostra prevista inicialmente.

Resultados

No total, 160 pacientes foram randomizados para receber infusão de plasma convalescente ou placebo, sendo 80 indivíduos alocados em cada braço. Dos participantes, após o dia 15, 38 (24%) ainda apresentavam sintomas de Covid-19 que exigiam internação hospitalar. Esses pacientes foram acompanhados até o D25. Somente 2 participantes ainda necessitavam de oxigenoterapia após 25 dias do início do estudo.

A maioria dos participantes era composta por mulheres (62%) e a média de idade foi de 77 anos. Mais da metade da população do estudo possuía 75 anos ou mais (55%) e 45% tinham entre 65 e 74 anos. Os grupos eram homogêneos em suas características sociodemográficas.

Dos 80 pacientes do grupo randomizado para receber a infusão de plasma convalescente, 13 (16%) desenvolveram disfunção respiratória grave. No grupo randomizado para receber placebo, 25 (31%) dos 80 pacientes desenvolveram esse desfecho, o que significa um risco relativo (RR) de 0,52 (IC 95% = 0,29 – 0,94; p = 0,03). A média de tempo para desenvolvimento de disfunção respiratória grave foi maior no grupo do plasma em comparação com o grupo placebo. A redução no risco relativo com o plasma convalescente foi de 48% e o número necessário para tratar (NNT) para evitar desenvolvimento de disfunção respiratória grave foi de 7 (IC 95% = 4 – 50). Uma combinação dos desfechos secundários ocorreu em 9% dos participantes do grupo do plasma e em 15% dos do grupo placebo, o que não alcançou diferença estatística significativa.

Saiba mais: Abordagem do paciente com Covid-19: o que aprendemos em 2020?

Todos os participantes tiveram anticorpos anti-SARS-CoV-2 dosados 24 horas após a infusão de plasma/placebo. Não houve correlação entre os anticorpos anti-SARS-CoV-2 IgG no soro dos participantes e o desenvolvimento de doença leve ou grave. Entretanto, foi observado um efeito dependente de dose: o subgrupo que recebeu plasma com títulos elevados de anticorpos apresentou uma redução de RR maior e mais significa do que o subgrupo que recebeu plasma com títulos menores de anticorpos (73,3 vs. 31,4, respectivamente). Nesse subgrupo que recebeu plasma com títulos maiores, o NNT para evitar desenvolvimento de disfunção respiratória grave foi de 4.

As principais diferenças entre o novo estudo e os previamente publicados incluem a avaliação de uma população mais idosa, a inclusão de casos leves e o uso precoce, com até 72 horas de sintomas. Há plausibilidade biológica em administrar anticorpos no período inicial da doença, mas mais estudos são necessários para comprovar a eficácia dessa estratégia de tratamento. Um ponto importante a ser destacado é que não houve diferença estatística nos desfechos secundários, que incluem desfechos importantes como mortalidade.

Mensagens práticas

  • Nesse estudo, a administração de plasma convalescente em indivíduos com Covid-19 sintomáticos em até 72 horas do início dos sintomas esteve associada a menor progressão para disfunção respiratória agora.
  • A presença de altos títulos de anticorpos no plasma do doador esteve associada a maior redução de risco relativo para desenvolvimento de doença grave, enquanto a mesma correlação não foi encontrada com os anticorpos dos receptores após a infusão.

Referências bibliográficas:

  • Libster, R, Mrc, GO, Wappner, D, et al. Early High-Titer Plasma Therapy to Prevent Severe Covid-19 in Older Adults. The New England Journal of Medicine. 2021. doi: 1056/NEJMoa2033700
Cadastre-se ou faça login para acessar esse e outros conteúdos na íntegra
Cadastre-se grátis Fazer login
Veja mais beneficios de ser usuário do Portal PEBMED: Veja mais beneficios de ser usuário
do Portal PEBMED:
7 dias grátis com o Whitebook Aplicativo feito para você, médico, desenhado para trazer segurança e objetividade à sua decisão clínica.
Acesso gratuito ao Nursebook Acesse informações fundamentais para o seu dia a dia como anamnese, semiologia.
Acesso gratuito Fórum Espaço destinado à troca de experiências e comentários construtivos a respeito de temas relacionados à Medicina e à Saúde.
Acesso ilimitado Tenha acesso a noticias, estudos, atualizacoes e mais conteúdos escritos e revisados por especialistas
Teste seus conhecimentos Responda nossos quizes e estude de forma simples e divertida
Conteúdos personalizados Receba por email estudos, atualizações, novas condutas e outros conteúdos segmentados por especialidades

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo

Selecione o motivo:
Errado
Incompleto
Desatualizado
Confuso
Outros

Sucesso!

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo.

Você avaliou esse artigo

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Baixe e-books, e outros materiais para aprimorar sua prática médica e gestão Baixe e-books, e outros materiais
para aprimorar sua prática
médica e gestão