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Conheça os principais mitos sobre Cuidados Paliativos

Tempo de leitura: 3 minutos.

A maioria das pessoas costuma acreditar que os Cuidados Paliativos servem apenas para o atendimento do paciente no final da vida. Neste artigo iremos abordar esse e outros mitos.

Cuidados Paliativos: mitos

1) “Cuidados Paliativos são apenas deixar morrer.”

Quantas vezes já ouvimos essa frase, não é mesmo? É perfeitamente aceitável que tal ideia seja expressa por pacientes, afinal eles não detém o conhecimento técnico. Mas devemos ter cuidado para não reproduzir tal fala.

Primeiramente, é preciso desmistificar que a equipe paliativista tenha o poder de “deixar” ou “não deixar” morrer. É preciso que encaremos o fato de que não somos onipotentes. Não está em nossas mãos “deixar” alguma coisa. O paciente do cuidado paliativo vai morrer, inexoravelmente. A questão é quando e principalmente como. Esse doente vai morrer sofrendo? Com sintomas não controlados? Ou vai ter uma boa morte, com dignidade e cuidados holísticos?

Em seguida é preciso ter em mente de forma consolidada qual é o papel do paliativista. Segundo a definição da OMS, revista em 2002, Cuidado Paliativo é “uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento. Requer identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual”¹.

Como podemos ver, cuidar de um paciente é muito mais do que apenas oferecer tratamento curativo.

2) “Quando o paciente está em Cuidados Paliativos não há mais nada para fazer.”

Já dizia uma professora minha: “a mão que suspende uma ida ao CTI é a mesma que prescreve fonoaudiologia e fisioterapia”. Ela quer dizer com essa frase que por mais que não haja uma cura, podemos melhorar a qualidade de vida do paciente. É possível SIM fazer algo, basta termos conhecimento e boa disposição.

Na verdade, fazer cuidado paliativo requer muito tempo, pessoas capacitadas e comprometidas e uma boa segurança técnica. É preciso identificar as necessidades do paciente, sejam elas físicas, psicológicas, sociais ou espirituais e, é claro, saber o que propor diante disso. As evidências não mostram, por exemplo, que existam benefícios para a saúde com o uso de alimentação por sonda em casos de demência avançada, aumentando riscos de complicações².

Ao invés disso, é possível realizar a chamada hand feeding, diminuir distrações, enfatizar pistas sensoriais, fornecer utensílios auxiliares de alimentação, otimizar posicionamento do paciente e programar refeições em horários de maior alerta. Com certeza estas orientações são “fazer algo”².

A importância dos cuidados paliativos em pacientes com doença cardiovascular

3) “Sedação paliativa acelera a morte do paciente.”

A sedação paliativa tem suas indicações formais. Não se seda todo e qualquer paciente. Ela está muito bem indicada quando os sintomas (dor, dispneia, etc) do paciente são refratários a todas as demais tentativas de controle³.

Suponhamos o exemplo de um paciente com enfisema avançado em insuficiência respiratória, com uso de 30mg de morfina endovenosa sem resposta adequada, recebendo todas as possíveis medidas não farmacológicas e constatada a irreversibilidade do quadro. Este doente tem indicação indubitável de sedação paliativa. “Mas se ele morrer minutos depois? Eu quem o matou?” Não. Quem matou foi o enfisema, a insuficiência respiratória, a irreversibilidade do quadro. Você proporcionou momentos de dignidade ao paciente e a família. Se esse paciente pudesse voltar, certamente agradeceria a mão que prescreveu o sedativo.

Interessante saber que existe um consenso ético chamado Princípio do Duplo Efeito surgido na Igreja Católica e hoje aceito pela legislação pelo qual a administração de medicação para alívio de dor é moralmente neutra ou boa. O bom efeito (controle de dor) é suficiente para justificar o improvável efeito ruim (morte) e o efeito não intencional não é o meio para alcançar o efeito desejado4.

4) “Quem está em Cuidados Paliativos está em fase terminal.”

O paciente em Cuidados Paliativos não necessariamente está no fim da vida. O ponto ideal para início do acompanhamento é no momento do diagnóstico de doença incurável. Essa atitude diminui o sofrimento do paciente de forma considerável. Os cuidados paliativos continuam sendo ofertados à família até mesmo no momento de luto5.

Chegamos, pois, à conclusão de que a melhor forma de combater crenças inadequadas é o conhecimento. Quanto mais nos informarmos mais teremos argumentos para orientar os profissionais ao nosso redor. No Brasil ainda é um trabalho de convencimento em passos de formiguinha, mas que já gera resultados maravilhosos.

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Referências:

  1. https://www.santacasasp.org.br/upSrv01/up_publicacoes/8011/10577_Manual%20de%20Cuidados%20Paliativos.pdf
  2. https://www.uptodate.com/contents/care-of-patients-with-advanced-dementia
  3. https://revistas.ufpr.br/revmedicaufpr/article/view/52252/pdf
  4. https://www.uptodate.com/contents/search?search=ethical-considerations-in-effective-pain-management-at-the-end-of-%20life&sp=0&searchType=PLAIN_TEXT&source=USER_INPUT&searchControl=TOP_PULLDOWN&searchOffset=1&autoComplete=false&language=&max=0&index=&autoCompleteTerm=#H3
  5. https://sbgg.org.br//wp-content/uploads/2014/11/1421326099_Folder_Online_SBGG_.pdf

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