Pediatria

Consequências do isolamento social para os estudantes brasileiros durante a pandemia

Tempo de leitura: 5 min.

As repercussões do isolamento social na aprendizagem e no comportamento dos estudantes brasileiros no último ano, devido à pandemia da Covid-19, é um tema constante de debate entre os profissionais dedicados à saúde infanto-juvenil. O Brasil é um país que apresenta grandes desigualdades sociais, inclusive no âmbito educacional, e estas foram ainda mais agravadas pela pandemia da Covid-19. Apesar de ter sido observada melhora do acesso das crianças ao ensino fundamental, essas crianças não têm conseguido se manter na escola ao longo dos anos: as taxas de repetência, evasão e abandono escolares permanecem elevadas. 

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Os recursos físicos escolares auxiliam na realização das atividades pedagógicas, possibilitando aos estudantes o envolvimento em um processo de aprendizado mais prático e dinâmico. A grande maioria dos alunos dos ensinos fundamental e médio está nas escolas públicas (mais de 80%), onde muitas delas apresentam graves problemas físico-estruturais (por exemplo, ventilação precária, banheiros e bebedouros insuficientes, dependências pequenas, etc.) além de problemas relacionados aos recursos humanos (como professores mal remunerados, carga horária elevada e ausência de programas de reciclagem sistemática para os profissionais). Outro ponto importante é o papel da merenda escolar: a alimentação fornecida pelas escolas da rede pública é, muitas vezes, a principal refeição do dia dos alunos, servindo como fator de proteção na segurança alimentar. 

A suspensão abrupta das atividades presenciais nas escolas não permitiu um bom planejamento para manutenção do vínculo, e o ensino remoto foi a solução encontrada, especialmente na rede de ensino privada. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) é o maior estudo sobre educação no mundo e realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De acordo com os dados de sua última avaliação, em 2018 (a avaliação de 2021 foi adiada para 2022 devido à pandemia), apenas 26%  dos alunos no Brasil estudavam em escolas com boa conectividade à rede de internet. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), quase 40% dos alunos da rede  pública não tiveram acesso às aulas por ensino remoto em 2020. 

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Alterações no convívio familiar e social

A pandemia também trouxe mudanças na rotina das famílias: muitos pais trabalhando remotamente, em home-office, dividem espaço e pontos de acesso à rede com os filhos (muitos lares possuem apenas um único ponto de acesso, inclusive por celular).  As dificuldades são ainda mais acentuadas na rede pública, que concentra as famílias em maior vulnerabilidade social e com pais ou cuidadores sem condições de oferecer suporte aos filhos. 

Outra mudança é em relação ao uso das telas.  Muitas das escolas que disponibilizam o ensino virtual oferecem aulas sequencias com média de quatro horas diárias, com pouca interação entre professores e alunos. Sendo assim, o risco do uso abusivo de telas é grande, especialmente sem a supervisão dos adultos, considerando que crianças e adolescentes utilizam os computadores para outros fins além dos didáticos. Além dos reflexos negativos na saúde, essa exposição prologada às telas possibilita contato com pessoas desconhecidas e exposição ao cyberbullying. 

Algumas escolas que não conseguiram oferecer o ensino remoto utilizaram como opções o uso de plataformas ou redes de apoio nas comunidades com temas para pesquisa e debates semanais, programas educativos oferecidos por rádio e TV e disponibilização de material didático nas residências dos estudantes e/ou nas próprias escolas. 

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O impacto da pandemia e do isolamento social na aprendizagem dos estudantes não acontece de forma homogênea, considerando as variadas populações de nosso território, sendo muito mais acentuados entre crianças e adolescentes que já vivenciavam situações de vulnerabilidade social. Uma das mais importantes variáveis associadas ao desempenho escolar é o contexto socioeconômico em que eles vivem. Crianças e adolescentes cujos pais possuem menor escolaridade, menor nível de renda, são desempregados ou possuem ocupações de baixo prestígio econômico e social são mais propensos a apresentarem piores resultados educacionais. 

Longe das salas de aula, um impacto negativo será visto na cognição dos alunos, com a perda de conhecimentos e de habilidades acadêmicas já adquiridas, especialmente naqueles que já apresentavam dificuldades escolares antes da pandemia e que deixaram de receber suporte profissional habilitado para superar transtornos específicos. Nestes, haverá um retrocesso considerável no processo de inclusão. 

Nenhuma região do país alcançou o número mínimo de horas aula previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, mesmo nas classes sociais mais elevadas, que geralmente contam com maior apoio dos pais e vivem em um ambiente favorável ao estudo, com acesso a livros didáticos e computador próprio. 

Impactos do confinamento

Em relação às questões comportamentais, sabe-se que a interação e a ludicidade são fundamentais para o desenvolvimento e socialização das crianças. O afeto é transmitido essencialmente pelo contato físico, não podendo ser substituído apenas pela tecnologia. Os pediatras perceberam aumento das alterações de comportamento dos pacientes durante o período de isolamento social. Segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria, oito a cada dez crianças apresentaram sinais e sintomas de tristeza, apatia, irritabilidade e agressividade, de acordo com relato dos pais. Há uma grande preocupação de que esses sinais e sintomas, se não forem cuidados com a devida atenção, possam evoluir para quadros de depressão e transtornos mais graves, especialmente em alunos que já se encontravam emocionalmente fragilizados ou com problemas no comportamento antes da pandemia.  

Outro dado importante é o aumento da violência. O confinamento prolongado elevou os casos de maus tratos contra crianças e adolescentes, incluído violência física, psicológica e sexual. A maior parte dos abusos sexuais acontece no ambiente doméstico, pelos familiares ou cuidadores. Pelo convívio diário com os alunos, a escola reforça seu papel como fator protetor quando capaz de detectar mudanças de hábitos e/ou comportamentos e sinais sugestivos de violência, depressão e outros transtornos, possibilitando a orientação das famílias e notificação de casos ao Conselho Tutelar, quando necessário. 

Desafios de longo prazo

A interrupção prolongada das atividades escolares presenciais de fato trará reflexos para os próximos anos. Infelizmente, a falta de alinhamento das decisões do governo, bem como os posicionamentos conflitantes dos profissionais de saúde, acabam por aumentar a insegurança dos pais e professores. Como consequência, haverá aumento na evasão e abandono escolar. 

Os desafios para minimizar esse quadro são grandes, e as escolas precisam estar preparadas. Dentre algumas estratégias, podemos citar: 

  • Definição de estratégias adequadas para compensar o retrocesso na aprendizagem;
  • Adoção de novas formas de avaliação das necessidades de cada aluno;
  • Busca ativa dos alunos que não retornarem às atividades;
  • Abordagem de temas como luto, ansiedade e resiliência;
  • Cuidado com a saúde física e mental também dos professores;
  • Ações intersetoriais, articulando as áreas da Saúde, Educação e Assistência Social com outros segmentos da sociedade;
  • Criação de redes de apoio para alunos, suas famílias, professores e as escolas.
  • Valorização dos vínculos afetivos. 

Através dessas ações, espera-se construir uma aliança sólida entre as escolas e famílias, cuidando com segurança da saúde e do desenvolvimento pleno das crianças e adolescentes. 

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Publicado por
Danillo Barros

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