Consumo de álcool aumenta nos EUA durante a quarentena

Tempo de leitura: 5 min.

O consumo de álcool em grande quantidade e em pouco tempo é conhecido como binge drinking (BD). Uma definição descreve como, num período de 2 horas, o consumo de 5 ou mais doses de álcool para homens e 4 ou mais doses para mulheres. 

Alguns estudos recentes demonstram que a presença de estresse a curto prazo e a presença de eventos estressantes na vida estão associados a um aumento desse padrão de consumo, assim como recaída do uso de álcool. Dito isto, o artigo analisado aqui pretende avaliar este padrão de consumo de álcool nos EUA durante os primeiros meses de 2020, quando o novo coronavírus chegou ao país. Naquele momento, vários locais instauraram regimes de lockdown, significando fechamento de comércios, escolas, preocupações com emprego e fontes de renda e aumento da quantidade de tempo em casa.

Para avaliar a hipótese de aumento de consumo de álcool (padrão BD) em decorrência dos estressores ligados à pandemia, os pesquisadores disponibilizaram questionários online entre os meses de março e abril de 2020. Eles foram distribuídos em listas de e-mails, mídias sociais, nas universidades e departamentos aos quais os autores estavam vinculados. Os critérios de inclusão eram: ter mais de 18 anos e morar nos EUA. Apesar de ter alcançado mais de 47 mil pessoas, apenas 1.928 responderam todo o questionário. 

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Avaliações do consumo de álcool

Foram feitas perguntas que avaliaram tanto o padrão de consumo de álcool como de potenciais fatores estressores consequentes da pandemia, como a quantidade de familiares, a situação profissional e financeira durante a quarenta, o tempo que permaneceram dentro de casa, sobre a presença de sintomas de depressão desde o início da pandemia ou diagnóstico prévio de depressão. Também foram analisadas covariáveis referentes à sexo, idade, etnia, nível educacional, local de moradia (área urbana ou rural) e renda anual.

A população estudada apresentava as seguintes características: média de idade de 42 anos, 89% são considerados brancos, 31% era do sexo masculino, 75% tinha renda anual superior a 80 mil dólares, 42% residia em área urbana. A média de moradores adultos na mesma residência era de 2 pessoas (sendo que 58% não possuíam nenhuma criança em casa), 88% afirmaram que, na ocasião, seus trabalhos não tinham sofrido impacto pela pandemia e 27% apresentavam sintomas depressivos ou diagnóstico prévio de depressão. A média de permanência em casa foi de 4 semanas, nas quais permaneceram entre 21 e 24h na residência.

A avaliação destes dados é importante, pois pode nos dar pistas sobre a representatividade da amostra populacional avaliada: é possível observar que a maior parte da amostra é composta por pessoas com um padrão de renda elevado, sendo que algumas fontes sugerem que esta população tende a possuir um maior padrão de consumo de álcool, o que poderia sobre-estimar os resultados. 

Considerações

Deve-se considerar que o período de tempo de avaliação foi curto e que esses resultados podem variar em pesquisas de acompanhamento por um período mais prolongado, ao longo do qual podem se desenvolver mecanismos de resiliência (e menor consumo) numa parte da população, enquanto outra pode ter passado a preencher critérios para dependência/transtorno por uso de álcool. 

Outras questões devem ser consideradas, como a forma que ocorreu a coleta de dados (questionários respondidos diretamente pelo entrevistado em seu aparelho eletrônico), fatores relacionados às taxas de resposta dos questionários (uma pequena quantidade dos que tiveram acesso aos questionários participaram, mas dentre aqueles que iniciaram o teste, uma parcela maior que a esperada os concluíram), discrepâncias no que diz respeito à definição de binge drinking, questões referentes às características das perguntas relacionadas ao consumo de álcool, o fato de não ser possível determinar com clareza o padrão de consumo de álcool antes da pandemia e o fato de haver outros questionamentos sobre a representatividade da amostra. 

Embora o autor não mencione isso, estudos transversais, como o aqui proposto, não constituem o desenho de estudo mais adequado para relacionar causa e efeito. Também não é citado, mas é possível que aqueles que responderam o questionário o tenham feito justamente por terem sentido mais o impacto da pandemia ou por já possuírem alguma forma de transtorno mental ou problemas com o uso de álcool.

Padrão de consumo do tipo binge drinking

Este estudo encontrou que os indivíduos que possuíam um padrão de consumo do tipo binge drinking (BD) apresentaram um aumento do consumo de álcool durante os primeiros meses da pandemia, enquanto a maioria das pessoas que não tinham esse padrão de consumo teve uma tendência a manter a mesma quantidade de álcool ingerida. Os autores ainda mencionam que 2 fatores estressores poderiam se relacionar ao aumento do consumo na população BD: o tempo que permaneceram em casa e o diagnóstico prévio de depressão ou a presença de sintomas depressivos no momento. 

Por sua vez, isso seria consistente com os achados de trabalhos anteriores nos quais se evidenciou que a quantidade de tempo que se passa dentro de casa pode ser encarado como um estressor que contribui para o aumento do consumo de álcool. Também relaciona que os sintomas depressivos poderiam atuar como mediadores entre o tempo que se passa em casa e o consumo BD, uma vez que ficar mais tempo em casa também pode contribuir para a presença de sintomas depressivos. 

Contudo, conviver com crianças no mesmo ambiente parece que diminuiu a probabilidade do padrão de consumo tipo BD, o que também é consistente com a literatura, estimulando a hipótese de que morar com crianças (e outras pessoas) poderia controlar comportamentos pouco saudáveis. Estudar melhor essas situações se faz necessário, uma vez que devido à duração dos eventos relacionados à pandemia, o desenvolvimento de uma relação com o álcool do tipo BD pode predispor à dependência alcoólica/transtorno por uso de álcool de forma mais duradoura. 

Como já se sabe, o etilismo está associado a doenças hepáticas, aumento do risco cardiovascular e do desenvolvimento de câncer, contribuindo para o aumento da morbi-mortalidade e do impacto socioeconômico desta situação. Os autores também citam um outro trabalho que relaciona indivíduos com transtorno por uso de alguma substância à maiores chances de desenvolver Covid-19, com desfecho mais desfavorável.

Conclusão

Considerando todas as limitações do estudo (destacando a representatividade da amostra do país norte-americano, o desenho do estudo, possíveis vieses relacionados ao questionário e a coleta de resultados – ou seja, fatores relacionados tanto à validade interna quanto externa deste trabalho), devemos considerar com cautela seus resultados. 

Os autores concluem que fatores estressores que ocorreram em consequência da pandemia de Covid-19 se relacionam ao padrão de consumo de álcool numa população de adultos dos EUA. A possibilidade de isso realmente ocorrer tanto nos EUA, como em outras localizações, leva à necessidade de mais pesquisas sobre este tema e chama a atenção para mais um problema importante envolvendo a saúde mental da população para qual os profissionais de saúde devem estar atentos.

Para mais informações sobre Covid-19, transtorno por uso de álcool e outros transtornos mentais, consulte o Whitebook e se mantenha atualizado com a ajuda do Portal da Pebmed.

Autor(a):

Referência Bibliográfica:

  • Weerakoon SM, Jetelina KK, Knell G. Longer time spent at home during COVID-19 pandemic is associated with binge drinking among US adults. The American Journal of Drug and Alcohol Abuse. December, 2020. DOI: https://doi.org/10.1080/00952990.2020.1832508
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Publicado por
Paula Benevenuto Hartmann

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