Covid-19: a testagem pós-vacinal pode ser considerada uma “bobagem”?

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A fim de tentar esclarecer essa pergunta que ainda gera muita polêmica, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) publicou, por meio da 111ª edição de sua Revista Informativa, algumas considerações importantes sobre a testagem pós-vacinal.

Desde o início da pandemia, a indústria diagnóstica não vem medindo esforços para desenvolver ensaios que pudessem, em conjunto com dados clínico-epidemiológicos e de outros exames complementares, auxiliar no combate à Covid-19. Testes laboratoriais para a detecção direta do material genético/partículas virais, bem como ensaios para a detecção indireta — através da pesquisa de anticorpos (“sorologia”) — foram elaborados em tempo recorde. 

Leia também: ECCMID 2021: testes para Covid-19, testagem tripla de IST e outros destaques do congresso

As diferentes metodologias (ex.: RT-PCR, RT-LAMP, imunocromatografia, ELISA, imunofluorescência, quimioluminescência, eletroquimioluminescência) e alvos (ex.: RNA, antígeno, anticorpos contra diversos epítopos e suas subclasses, anticorpos neutralizantes), contribuem no entendimento à dinâmica da doença. 

Cada qual com sua aplicabilidade, vantagens e limitações, todos esses ensaios passaram por diversas e rigorosas etapas antes de serem disponibilizados comercialmente (pesquisa e isolamento da molécula, estudos básicos e clínicos, validações da indústria, aprovações de órgãos regulatórios, validação interna nos Laboratórios Clínicos).

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Testes pós-vacinais

Com pouco mais de 6 meses após o início da vacinação contra o SARS-CoV-2 no mundo, o interesse por testes laboratoriais que possam refletir a eficácia das vacinas, só vem aumentando.

Nos estudos das vacinas disponíveis, a avaliação laboratorial da sua eficácia foi realizada através da pesquisa de anticorpos neutralizantes em culturas de vírus vivos, em testes de referência, como o ensaio de neutralização por placas (PRNT) ou de suas variações. Devido a sua complexidade, alto custo e a questões de biossegurança, a realização desse tipo de teste é restrito a laboratórios de pesquisa. 

Por conta dessas limitações, testes sorológicos comerciais pós-vacinais, de alta escalabilidade (automatizados), foram desenvolvidos pela indústria diagnóstica, harmonizados com os testes de referência (ex.: PRNT). Por meio de validações, esses testes sorológicos apresentaram uma ótima correlação de seus resultados, quando comparados aos ensaios de referência.

Diversos testes pós-vacinais, que avaliam a resposta humoral (produção de anticorpos), já estão amplamente disponíveis, e podem ser basicamente diferenciados em três tipos: IgG anti-S (proteína spike/espícula), IgG anti-RBD (receptor-binding domain/domíno de ligação ao receptor — que é a porção mais externa da proteína S) e os anticorpos totais neutralizantes. Apesar de possuírem algumas diferenças entre si, todos eles tentam avaliar uma mesma informação: anticorpos que tenham alguma capacidade de impedir a ligação/entrada do vírus à célula humana.

Sabemos que a resposta imunológica (seja desencadeada pela infecção natural, ou após a vacinação) é ampla e complexa, indo além da produção de anticorpos, como por exemplo a resposta celular (linfócitos T). Alguns testes para se avaliar esse outro mecanismo de proteção já estão em processo de desenvolvimento e validação pela indústria diagnóstica, devendo estar disponíveis comercialmente nos próximos meses. 

Perguntas (ainda) sem respostas

O conhecimento científico relacionado a Covid-19 é muito dinâmico, sendo que acabamos de iniciar a curva de aprendizado sobre esses testes. As pesquisas em andamento estão, dentre outros objetivos, buscando as respostas para algumas perguntas importantes, que impactarão diretamente no modo como iremos manejar a pandemia. Dentre esses questionamentos, podemos destacar:  

  • A presença de anticorpos neutralizantes protege contra a doença aguda?
  • Qual a concentração necessária para essa proteção?
  • Se protege, por quanto tempo?
  • Eles podem interromper a cadeia de transmissão?
  • Sua dosagem deve ser utilizada para se recomendar uma dose vacinal complementar ou até mesmo de uma vacina diferente?
  • Qual é a periodicidade das vacinas?
  • O quão é efetiva a resposta celular contra a Covid-19?
  • Os anticorpos neutralizantes são igualmente eficazes contra todas as variantes?

Ainda há muitas perguntas sem resposta, mas que, aos poucos, com o avanço dos estudos e pesquisas, seremos capazes de respondê-las.

Conclusão

Os ensaios pós-vacinais estão amplamente disponíveis, e podem nos informar (e quantificar em alguns deles) se houve uma resposta humoral após a vacinação (e após a infecção natural), ajudando a compreender a imunogenicidade das vacinas. Agora, na prática, o que isso significa e o que iremos fazer com essa informação, ainda está sendo estudado e debatido.

À medida que as pesquisas e a prática clínica avançam, vamos extraindo mais informações (ex.: desempenho analítico, dinâmica da produção de anticorpos, indicações, etc.) a respeito desses testes, favorecendo uma melhor interpretação de seus resultados. Todos os testes, se bem interpretados à luz de suas limitações e do conhecimento científico, são válidos para auxiliar o controle da pandemia.

Saiba mais: ECCMID 2021: RT-PCR ou teste rápido de antígeno para Covid-19?

Entretanto, até o momento, nenhum teste pós-vacinal deve ser utilizado de rotina com a finalidade de se avaliar o nível de imunidade ou de proteção. Apesar de alguns indícios, ainda não existe um correlato de proteção bem definido contra a Covid-19, carecendo de evidências científicas robustas para esse fim. 

Adicionalmente, há o temor de que as pessoas que apresentaram testes reagentes, possam diminuir os cuidados em relação às medidas protetivas, o que pode levar a uma falsa sensação de segurança, contribuindo para um aumento da disseminação viral.

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Referências bibliográficas:

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